BNews Nordeste
O jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida, 40, principal alvo de um inquérito relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou ter monitorado o ministro Flávio Dino ou seus familiares e afirmou que não recebeu dinheiro para publicar reportagens sobre o magistrado.
Em entrevista à Folha de São Paulo, ele disse que a apreensão de seus equipamentos e a revelação de uma fonte podem comprometer sua atuação profissional.
O computador e o celular do jornalista foram apreendidos pela Polícia Federal em março. O órgão teve acesso às conversas de Luís Pablo com informantes, que também foram alvo de busca e apreensão nesta terça-feira (11).
Reportagens sobre veículos oficiais
Luís Pablo publica textos desde 2011 no blog que leva seu nome, apresentado como "jornalismo independente que incomoda o poder". As reportagens que motivaram as medidas judiciais tratavam do suposto uso irregular de veículos do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) e do governo do estado por Flávio Dino.
Segundo o jornalista, as reportagens apontavam o uso de um veículo oficial do TJ-MA por familiares do ministro. Ele afirmou que não havia uma sessão administrativa do STF autorizando inicialmente a cessão do veículo pelo tribunal.
"O que havia era um documento solicitando apenas apoio de segurança para o ministro. Só após as minhas reportagens é que o STF encaminhou um novo documento pedindo para ceder o veículo para o ministro."
Luís Pablo afirmou que nunca procurou familiares de Dino durante a apuração e que também não abordou o ministro. Segundo ele, os pedidos de esclarecimentos foram feitos de maneira institucional.
"Nunca procurei nenhum familiar, e nem o ministro Flávio Dino foi abordado por mim. Eu procurei de forma institucional por meio do seu email do gabinete e do STF, assim como também procurei por meio do email do Tribunal de Justiça pedindo esclarecimentos, e nenhum me respondeu."
Jornalista nega monitoramento
O inquérito investiga uma suspeita de perseguição ao ministro e à família dele. Luís Pablo rejeita a acusação de que teria monitorado Dino durante a produção das reportagens.
"Quando aconteceu a operação em março, fui acusado de estar monitorando Flávio Dino. Ontem [terça, 11], após nova decisão do ministro Alexandre de Moraes, ficou provado que eu em momento algum monitorei Dino. Após a revelação da minha fonte, ficou comprovado que recebi o material da fonte. Essa afirmação de que eu estava monitorando o ministro não existe."
Ele também afirmou que a operação realizada em março durou cerca de dez minutos.
"Durou apenas dez minutos porque eles vieram diretamente buscar apenas meus equipamentos de trabalho. Em seguida foram embora."
Segundo o jornalista, a apreensão o deixou sem condições de trabalhar durante alguns dias.
"Fiquei estarrecido, fiquei me sentindo intimidado diante de uma decisão que me deixou sem meus equipamentos de trabalho. Fiquei durante dias sem trabalhar, sem meus equipamentos. Eu me senti censurado diante dessa decisão."
"Precedente grave"
Luís Pablo classificou a decisão de Moraes como um "precedente grave a todos os jornalistas do país" e afirmou ter sido prejudicado profissionalmente após a revelação da identidade de sua fonte.
"Mudou completamente. Eu me sinto uma pessoa prejudicada profissionalmente. Estão tentando me destruir profissionalmente, porque diante da revelação da minha fonte a nível nacional, quem é a pessoa que daqui para a frente vai querer falar comigo ou me passar informação? Nenhuma. Como é que eu vou exercer o papel de jornalista sem ter a prerrogativa de não revelar minha fonte?"
O jornalista também defendeu que as reportagens tinham interesse público e disse que seu objetivo era investigar o uso do veículo oficial, e não a vida pessoal de Dino.
"A matéria foi de interesse público, porque não investiguei a pessoa, investiguei o fato. E o fato é que o ministro estava usando um carro oficial do Tribunal de Justiça em que até o combustível é custeado pelos cofres públicos com cartão corporativo."
Dino nega irregularidades
Procurada pelo jornal, a assessoria de Flávio Dino enviou duas notas do ministro e uma do Tribunal de Justiça do Maranhão negando irregularidades. Os documentos afirmam que veículos de segurança são utilizados pelo STF em colaboração com os tribunais, com base em normas da corte e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A assessoria de Dino diz que "jamais houve uso irregular de veículo oficial" do TJ-MA e que "um carro blindado foi cedido por solicitação da Secretaria de Segurança do STF, no âmbito de acordo de cooperação vigente com todos os tribunais do país".
O ministro afirma ter pedido a ampliação das medidas de segurança para ele e sua família.
Entidades de jornalismo criticaram a decisão de Moraes e afirmaram que casos desse tipo podem resultar em intimidação do trabalho da imprensa.
Jornalista nega ter recebido R$ 100 mil
Luís Pablo também negou ter recebido dinheiro para publicar reportagens contra Flávio Dino. A investigação da Polícia Federal cita a quantia de R$ 100 mil, relacionada, segundo o jornalista, a um empréstimo feito por um amigo.
"A preocupação é em relação ao relatório, que expõe uma questão que não condiz com a realidade sobre a aquisição de uma propriedade, e às reportagens que eu divulguei. Eu não recebi dinheiro para divulgar as reportagens. Eu fiz o meu papel como jornalista."
Sobre a suspeita de que o valor teria sido utilizado para quitar um imóvel adquirido por ele, Luís Pablo afirmou:
"Não existe relação nenhuma entre a aquisição do imóvel com as reportagens. Essa acusação é inverdade, é sem fundamento. A aquisição do imóvel foi mediante um empréstimo que o advogado fez para mim, ele é meu amigo pessoal. Eu não recebi nenhum dinheiro do advogado para publicar as reportagens."
Questionado sobre o relatório apontar indícios de que faria reportagens compradas, ele voltou a negar.
"Eu não recebi [dinheiro], reafirmo que não recebi, e não existe prova nas conversas que tive com o advogado que eu recebi dinheiro para divulgar reportagens contra Flávio Dino."
Entidades de jornalismo se manifestam
Segundo Luís Pablo, ele recebeu apoio do Sindicato dos Jornalistas do Maranhão, que divulgou uma nota junto com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) também o procurou, enquanto outras entidades se manifestaram por meio de notas.
"Fui procurado pelo Sindicato dos Jornalistas do Maranhão, que divulgou nota junto com a Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas], e a Abraji [Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo] também me procurou. As demais se manifestaram em notas."
"Peço que todas as entidades façam uma representação diante desse precedente muito grave, não só comigo, mas com todos os jornalistas do país, que estão à mercê de ser alvo de uma operação como a que aconteceu comigo."
Quem é Luís Pablo
Luís Pablo Conceição Almeida, 40, nasceu em São Luís, no Maranhão, e atua como jornalista desde 2011. Ele é autor do blog Luís Pablo, onde publica textos sobre polícia e Judiciário do Maranhão.
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