Polícia
por Adelia Felix
Publicado em 08/08/2025, às 04h00 - Atualizado em 09/08/2025, às 06h00
A Bahia assistiu um aumento preocupante de 14,8% no número de pessoas desaparecidas no ano de 2024. No ranking nacional, o estado só ficou atrás do Amapá e de Sergipe, com altas de 27% e 19,9%, respectivamente.
O desaparecimento dos jovens Paulo Daniel e Matusalém Lima foi um dos casos de grande repercussão no estado baiano. Eles foram vistos pela última vez em novembro do ano passado, no bairro de Pirajá, em Salvador.
As investigações apontam tortura, assassinato e ocultação dos corpos. O caso, envolvendo um empresário e policiais militares, se soma a outros desaparecimentos. O episódio levanta um difícil questionamento: quantas outras histórias estão enterradas no silêncio?
No Brasil, foram documentados 81.873 desaparecimentos no ano passado, frente aos 77.725 registros em 2023. Um aumento de 4,9% no país. Na Bahia, o salto foi ainda maior: quase 15%, passando de 3.538 para 4.066 casos.
Os números, analisados pelo BNEWS, são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Segundo o estudo, os desaparecimentos podem revelar um lado mais perverso da criminalidade. São execuções feitas por facções e milícias, que enterram os corpos em cemitérios clandestinos.
Ao BNEWS, Davi Gallo, promotor do Ministério Público da Bahia (MP-BA), assegura que a relação entre desaparecimentos e ocultação de cadáveres não é somente uma hipótese.
Gallo reforça que os cemitérios clandestinos existem. E, são usados para evitar movimentações policiais em áreas dominadas pelo crime organizado. “Eles somem mesmo com os corpos. Somem para não chamar a atenção da polícia para o local”, explica o promotor com cerca de 30 anos de experiência na área criminal.
Ainda de acordo com Gallo, os métodos de ocultação são cruéis e eficazes. Ele cita práticas em que as vítimas são queimadas em pneus, conhecida como "microondas", ou têm os corpos dissolvidos com ácido, uma brutalidade que remete a cenas de filmes.
PERFIL E ‘DIAS PREFERIDOS’ PARA DESAPARECIMENTO
Segundo o levantamento, o perfil da pessoa desaparecida é marcado, basicamente, por homens (62,8%), adolescentes e jovens (53,5%) e negros (54,3%), que desaparecem entre sexta e domingo, o mesmo perfil das vítimas de homicídio.
VÍTIMAS DO RACISMO ESTRUTURAL E SOCIAL
No estado, o número de pessoas localizadas teve um avanço tímido. Passou de 836 para 876 em 2024, uma alta de apenas 4,7%, ritmo bem abaixo do crescimento das ocorrências no estado.
Para o promotor, muitos desses supostos homicídios sequer são contabilizados oficialmente, em parte por causa da desorganização do Estado, mas também devido ao "racismo estrutural e social," que, segundo o promotor, faz com que mortes de pessoas negras e pobres sejam negligenciadas.
“O Estado, na verdade, é desorganizado. Quem faz um bom trabalho de investigação é o Ministério Público e as Polícias Militar e Civil. Aliás, eles fazem um trabalho heroico diante do material que eles têm”, avalia.
EXPANSÃO DE FACÇÕES
Apesar da redução no número de mortes violentas, os pesquisadores observaram que os desaparecimentos aumentaram justamente em um momento em que as facções criminosas no Brasil estavam se fortalecendo e expandindo.
Na Bahia, esse crescimento das ações violentas de facções é evidente, mesmo com os altos investimentos na segurança pública feitos pelo Governo do Estado.
Segundo o estudo, Amapá, Sergipe e Bahia chamaram atenção em 2024 por registrarem, ao mesmo tempo, um aumento expressivo nos casos de desaparecimento e uma redução nas mortes violentas intencionais. Nesses estados, onde facções disputam territórios e a letalidade policial é alta, parte da violência pode estar sendo encoberta pelos números crescentes de desaparecimentos, segundo os pesquisadores.
O promotor Davi Gallo defende que o avanço do crime organizado exige uma resposta dura do Estado. “A Polícia Militar da Bahia é heroica. Enfrenta quadrilhas com armamento inferior e a coisa não é pior por causa deles. A guerra a gente ainda não perdeu. O problema é que as leis são brandas. O crime organizado tem que ser considerado terrorismo. Está em todo lugar, com estrutura e poder, e a legislação continua leniente”, afirma.
PRESOS CUSTAM CARO E PRESÍDIOS SÃO ESCRITÓRIO DO CRIME
Segundo Gallo, o enfrentamento às facções requer uma mudança no arcabouço legal do país. “Defendo que um preso condenado a 40 anos cumpra os 40, sem benefícios, sem progressão. Preso tem que trabalhar. Hoje, cada detento custa mais de 10 mil reais por mês aos cofres públicos. A maioria desses criminosos não produz nada. Ao contrário, os presídios viraram escritórios do crime”, analisa.
Gallo ainda faz um alerta sobre o cenário que se avizinha na Bahia, especialmente com o avanço de facções de fora e prevê uma possível guerra entre grupos como Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital (PCC), Terceiro Comando Puro (TCP) e Família do Norte.
“Infelizmente, o tráfico está dominando nossa região. A Força Aérea só serve para passear. A guerra está perdida? Ainda não, mas precisa de uma boa vontade estatal”.
O QUE DIZ A SEGURANÇA PÚBLICA BAIANA
O BNEWS procurou a Polícia Civil (PC), a Secretaria da Segurança Pública (SSP) e o Departamento de Polícia Técnica (DPT) para esclarecer pontos sobre os desaparecimentos no estado. Mas, somente a SSP e o DPT responderam.
A reportagem questionou a Polícia Civil sobre possíveis ligações entre desaparecimentos e facções, inquéritos de homicídio abertos a partir desses casos e o uso de valas clandestinas. Também indagou sobre protocolos de atuação em registros de desaparecimento. Dias após o questionamento, a única resposta recebida foi a sugestão de procurar a assessoria da SSP.
Já a SSP informou que as forças policiais atuam de forma integrada nos casos de desaparecimento, com investigações conduzidas pela Delegacia de Proteção à Pessoa. A pasta destacou o uso de tecnologia, como o reconhecimento facial, que ajudou a localizar 26 pessoas, além do apoio do Disque Denúncia e da imprensa na busca por desaparecidos. Veja a nota na íntegra no fim da reportagem.
A assessoria do Departamento de Polícia Técnica (DPT) informou que há integração de dados locais com banco nacional de desaparecidos desde 2012. O órgão tem 249 restos mortais não identificados e, conta com o material genético de 471 familiares de pessoas desaparecidas. Contudo, apenas 12 casos foram solucionados, sendo oito pelo banco estadual e quatro com auxílio do banco nacional.
Leia a íntegra da nota enviada pela SSP:
"A Secretaria da Segurança Pública ressalta que as Forças Policiais da Bahia atuam de forma integrada nas ocorrências de pessoas desaparecidas. No âmbito do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHHP), a DPP (Delegacia de Proteção à Pessoa) investiga as ocorrências desta natureza.
Além do trabalho investigativo, que conta também com o apoio da imprensa na divulgação dos casos, a tecnologia é aliada na localização dos desaparecidos. Após a criação de um protocolo para inserção nas imagens no Banco de Dados do Reconhecimento Facial, 26 pessoas já foram encontradas.
Por fim, a SSP salienta que além das ações da Polícia Civil, do patrulhamento da PM e do uso da tecnologia, o Disque Denúncia da SSP também atua para encontrar desaparecidos.
Informações podem ser enviadas, com total sigilo, para o Disque Denúncia da SSP, através do telefone 181 ou do site www.disquedenuncia.ssp.ba.gov.br. O anonimato é garantido por lei."
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Adelia Felix
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