Polícia

PF deflagra operação contra disseminação de doença que ameaça ararinha-azul na Bahia

Camile Lugarini/Gov.BR
O circovírus aviário, altamente contagioso, pode comprometer a sobrevivência da ararinha-azul e afetar outras aves da Caatinga  |   Bnews - Divulgação Camile Lugarini/Gov.BR
Redação BNews

por Redação BNews

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Publicado em 03/12/2025, às 08h48 - Atualizado em 05/12/2025, às 08h52



A Polícia Federal (PF) deflagrou, na manhã desta quarta-feira (3), a Operação Blue Hope para investigar a possível disseminação de um agente patogênico capaz de causar grave dano à fauna silvestre, especialmente à ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), espécie considerada ameaçada de extinção.

A ação cumpre cinco mandados de busca e apreensão nos municípios de Curaçá, no norte da Bahia, onde ocorre o programa de reintrodução da espécie, e em Brasília (DF). Cerca de 30 policiais participam das diligências.

De acordo com as investigações, empresas e pessoas físicas ligadas ao projeto de reintrodução teriam descumprido protocolos sanitários obrigatórios, permitindo a entrada e a propagação do circovírus aviário (PBFD), doença altamente contagiosa e sem tratamento. O vírus pode comprometer a sobrevivência da ararinha-azul e atingir outras aves da Caatinga.

Ainda segundo a PF, houve resistência às medidas emergenciais determinadas pelo ICMBio, como isolamento sanitário, testagens e recolhimento de aves de vida livre.

Os investigados podem responder por disseminação de doença capaz de causar dano à fauna, morte de animais silvestres e obstrução de fiscalização ambiental, crimes que somados podem resultar em até oito anos de prisão, além de sanções administrativas.

O outro lado

A defesa do Criadouro Ararinha-azul se pronunciou sobre as investigações relacionadas à presença de circovírus nas aves do programa de reintrodução da ararinha-azul à Caatinga. Em nota, os advogados destacam a seriedade do trabalho realizado pela instituição, ressaltando que o criadouro segue protocolos rígidos de biossegurança e que a situação está sendo tratada com total transparência pelas autoridades competentes. Abaixo, a íntegra da nota oficial.

Confira nota na íntegra:

Os advogados do Criadouro Ararinha-azul, uma das instituições responsáveis por devolver a ave à Caatinga, reafirmam a lisura da atuação da empresa, a qualidade técnica no manejo das aves e a importância do projeto para a conservação de uma das espécies mais raras do mundo.

A advogada Bruna Cabral explica que a operação da Polícia Federal sobre o circovírus no Brasil, realizada em 3 de dezembro, que apreendeu celulares e computadores de funcionários, já era esperada e que a defesa mantém total tranquilidade, porque o criadouro é gerido por pessoa idônea, com reputação ilibada, que sempre trabalhou em conformidade com as normas ambientais.

Sobre a questão da constatação do circovírus na região de Curaçá, na Bahia, ela salienta que foi o próprio criadouro que informou aos órgãos ambientais, em maio de 2025, quando o vírus foi identificado pela primeira vez em um filhote, nascido em vida livre. Bruna Cabral acrescenta que o circovírus já foi registrado há décadas em diferentes contextos da fauna brasileira e defende que o tema seja tratado em instância técnica, com base em evidências e cooperação entre instituições.

A defesa esclarece que as aves permanecem no criadouro, em Curaçá (BA), sob os cuidados da equipe de profissionais do local e tutela do Estado, sem interrupção no manejo diário. Informa também que atualmente a empresa mantém 103 ararinhas-azuis sob seus cuidados, todas em bom estado clínico geral. Desse total, 98 aves não apresentaram detecção de circovírus nos exames mais recentes e as 5 que tiveram o vírus identificado, em ao menos um teste, estão isoladas das demais, com manejo, utensílios e equipe exclusivos, seguindo protocolos rígidos de biossegurança e bem-estar animal.

Os advogados explicam ainda que há divergência entre metodologias laboratoriais aplicadas nos exames e que, por isso, solicitou acesso integral aos laudos e propôs uma reunião técnica conjunta entre laboratórios, órgãos ambientais e especialistas independentes.

O escritório de defesa lembra que o Criadouro Ararinha-azul tem histórico de parceria com o poder público na conservação da espécie. Em 2022, participou da reintrodução de 20 ararinhas-azuis na Caatinga, operação que teve taxa de sobrevivência estimada em 45% e registro de filhotes nascidos em ambiente natural, após 37 anos sem reprodução em vida livre.

A defesa do criadouro reconhece que o ICMBio tem atuado dentro de suas atribuições, fiscalizando, apontando responsabilidades e adotando medidas para conter a disseminação do vírus, ressalvados atos pontuais e multas que estão sendo questionados administrativamente ou perante o Poder Judiciário.

Também registra que o criadouro, diante de um cenário complexo e de difícil controle sanitário, vem mobilizando todos os esforços possíveis para cumprir as exigências do órgão — desde a busca de diálogo institucional até investimentos de alto custo, feitos em tempo reduzido, tanto para cuidar das aves cativas, quanto das aves de vida livre recolhidas por determinação do próprio ICMBio.

Essas ações reforçam o compromisso da empresa com a conservação da espécie e com o cumprimento dos protocolos ambientais, apesar dos ruídos que ainda cercam a origem do vírus e as suspeitas de que sua disseminação teria relação com práticas do criadouro.

Para especialistas e profissionais envolvidos no tema, não parece coerente — nem racional — supor que a própria instituição, responsável por avanços reconhecidos e por décadas de trabalho e investimento contínuo, colocaria em risco o resultado de sua própria trajetória.

Os advogados enfatizam que confiam nas investigações, conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, que permitirão esclarecer os fatos e reconhecer a regularidade do trabalho do criadouro para a continuidade do projeto de preservação da ararinha-azul na Caatinga.

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