Política

Emendas Pix: repasse milionário para Filhos de Gandhy é investigado após irregularidades

Wuiga Rubini/GOVBA
Relatório da CGU revela falhas na execução de emendas parlamentares destinadas à Associação Afoxé Filhos de Gandhy  |   Bnews - Divulgação Wuiga Rubini/GOVBA
Thiago Teixeira

por Thiago Teixeira

thiago.teixeira@bnews.com.br

Publicado em 03/05/2026, às 07h00



Irregularidades foram identificadas na execução de R$ 1,25 milhão em emendas parlamentares destinadas à Associação Afoxé Filhos de Gandhy, incluindo indicação política direta e falta de chamamento público, o que pode comprometer a transparência e a legalidade dos repasses.

O relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) revelou que as emendas, enviadas pelos deputados Jorge Solla e Daniel Almeida, não seguiram as normas que proíbem a indicação direta de beneficiários, além de apresentarem falhas significativas nos planos de trabalho e na escolha de fornecedores.

Em resposta às acusações, a Sepromi e a Secult afirmaram que todas as ações foram realizadas dentro da legalidade, enquanto os Filhos de Gandhy alegaram que estão implementando melhorias em sua transparência e gestão, após a auditoria da CGU.

Indicação política direta, ausência de chamamento público e plano de trabalho inadequado. Essas e outras irregularidades foram identificadas na execução de R$ 1,25 milhão em emendas parlamentares recebidas pelo Governo da Bahia e repassadas à Associação Afoxé Filhos de Gandhy — um dos principais blocos afro-brasileiros e figurinha carimbada no Carnaval de Salvador.

A informação consta em um relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) no qual a BNews Premium obteve acesso. A reportagem rastreou as emendas por meio do Transferegov e verificou que os recursos são provenientes de transferências especiais, as famosas emendas Pix, enviadas pelos deputados federais Jorge Solla (PT) e Daniel Almeida (PCdoB) em 2023.

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Emendas Pix
Deputados federais Jorge Solla, à esquerda, e Daniel Almeida, à direita | Foto: Divulgação / Câmara dos Deputados

Solla enviou duas emendas, totalizando R$ 850 mil. Já Daniel Almeida destinou R$ 400 mil através de emenda única. Ao todo, os Filhos de Gandhy receberam R$ 1,25 milhão por meio de quatro termos de fomento (001/2023, 003/2023, 004/2023 e 065/2023) ligados às secretarias de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi) e da Cultura (Secult).

Eles tinham como objetivo financiar desde a realização de eventos culturais em 2023 — como o Encontro Estadual do Movimento Negro Unificado e a realização de quatro ensaios do Gandhy abertos ao público —, até a criação do Escritório para Projetos Criativos Ajayô e aquisições de equipamentos audiovisuais.

Confira a relação das emendas parlamentares e dos termos de fomento:

CGU
Relação das emendas Pix enviadas em 2023 para o Governo da Bahia e repassadas para os Filhos de Gandhy | Foto: CGU

Emendas Pix com indicação direta

Um dos pontos mais sensíveis dentre as irregularidades constatadas pela CGU é a indicação direta dos Filhos de Gandhy nas emendas Pix — prática proibida para repasses nessa modalidade. Deputados e senadores devem apenas destinar o dinheiro ao ente federativo, e cabe ao estado ou município definir, de forma competitiva, como aplicá-lo.

As emendas especiais somente podem ter como beneficiários direto os entes subnacionais, ou seja, estados, Distrito Federal e municípios. Dessa forma, fica evidenciado que organizações da sociedade civil não podem ser beneficiárias da modalidade denominada transferência especial. Verificou-se que houve a indicação da Associação Afoxé Filhos de Gandhy ou projeto específico, por meio de ofício do parlamentar, nas quatro parcerias celebradas com o Governo da Bahia", dizia um trecho do relatório da CGU.

No entanto, a BNews Premium verificou que uma das emendas Pix enviadas por Jorge Solla sinalizava, expressamente, que a Secult deveria destinar os recursos para os Filhos de Gandhy — inclusive, apontavam para a realização de quatro shows entre agosto e setembro de 2023, na sede da entidade, no Pelourinho.

Confira a lista completa das emendas enviadas:

Emenda irregular enviada para Secult pelo deputado federal Jorge Solla (PT) | Foto: Transferegov
Emenda enviada para Sepromi pelo deputado federal Jorge Solla (PT) | Foto: Transferegov
Emenda enviada para Sepromi pelo deputado federal Jorge Solla (PT) | Foto: Transferegov
Emenda enviada para Sepromi pelo deputado federal Daniel Almeida (PCdoB) | Foto: Transferegov

Carnaval de irregularidades

A Controladoria-Geral da União ainda apontou que o Governo da Bahia não realizou chamamento público para a celebração dos termos de fomento — requisito exigido pela Lei 13.019/2014 quando há repasse para uma Organização da Sociedade Civil (OSC), no caso, os Filhos de Gandhy.

Gandhy
Filhos de Gandhy no Carnaval de Salvador em 2026 | Foto: Wuiga Rubini/GOVBA

Dos quatro termos de fomento fechados entre o governo baiano e os Filhos de Gandhy, o de nº 003/2023 — firmado diretamente com a Sepromi —, é outro ponto crítico. Ele previa o gastos de R$ 400 mil em equipamentos audiovisuais, como: som digital, placas de painel de led de alta definição e sistema de som portátil.

No entanto, as três cotações apresentadas pela entidade no plano de trabalho foram realizadas com empresas que não atuam no ramo  — duas do setor de confecções e uma do setor têxtil, como mostra a base de dados do CNPJ da Receita Federal.

De acordo com a CGU, isso impediu qualquer análise de compatibilidade com os preços de mercado. No parecer técnico elaborado pela Sepromi não consta análise quanto aos valores previstos no Plano de Trabalho e orçamentos apresentados.

Confira o quadro com as empresas selecionadas pelo Gandhy:

CGU
Trecho retirado do relatório da CGU analisado pela BNews Premium

Além disso, durante a análise do Termo de Fomento 004/2023, o relatório da CGU registrou que o governo baiano preencheu os planos de trabalho no sistema Transferegov de forma genérica, sem metas mensuráveis, cronograma claro ou classificação orçamentária completa;

A CGU aponta que, apesar de ter sido realizado um monitoramento adequado das ações, um dos projetos carecia de informações básicas. A criação do Escritório Ajayô não tinha atividades especificadas em seu plano de trabalho, carga horária, público-alvo, oficinas, equipe ou local de execução.

Além disso, a CGU destacou que os Filhos de Gandhy não cumpriram regras de transparência ativa previstas em lei, uma vez que a entidade não possui página com informações sobre as parcerias celebradas, valores recebidos, metas ou status da prestação de contas.

Em consulta ao site da Associação Afoxé Filhos de Gandhy, verificaram-se informações sobre vendas de fantasias para o carnaval, não havendo página da transparência e nenhuma das informações exigidas em lei. Na rede social Instagram o Afoxé Filhos de Gandhy possui uma conta na qual 18 divulga seus projetos, porém, assim como a sua página da Internet, trata-se de veiculação promocional da organização, sem a divulgação das informações previstas em lei. Portanto, constatou-se que inexiste transparência adequada na divulgação dos recursos recebidos por parte da Associação Afoxé Filhos de Gandhy na internet", dizia um trecho do relatório da CGU. 
Gandhy
Filhos de Gandhy no Carnaval de Salvador em 2026 | Foto: Wuiga Rubini/GOVBA

Confira a lista completa de irregularidades apontadas pela CGU

  • Ausência de chamamento público
    O Governo da Bahia não realizou processo seletivo para escolha da organização, mesmo sendo obrigatório pela Lei 13.019/2014 em parcerias com OSCs.
  • Indicação direta da entidade por parlamentar
    As emendas foram direcionadas à Associação Afoxé Filhos de Gandhy por indicação expressa de deputados, o que contraria as regras das transferências especiais (emendas Pix).
  • Planos de trabalho com falhas graves de elaboração
    Documentos apresentaram falta de detalhamento, ausência de metas claras, indefinição de público-alvo, atividades e forma de execução.
  • Descrição genérica e incompleta no sistema Transferegov
    O governo baiano cadastrou objetos como "apoio à instituição cultural", sem metas mensuráveis ou parâmetros de acompanhamento.
  • Cotações de preços com empresas incompatíveis
    Orçamentos foram feitos com empresas de confecção e comércio de tecidos para justificar compra de equipamentos audiovisuais.
  • Ausência de análise de preços pelo Estado
    A administração estadual não avaliou se os valores apresentados estavam compatíveis com o mercado, como exige a legislação.
  • Falta de procedimentos adequados na compra de equipamentos
    Aquisições foram feitas sem novas cotações válidas ou justificativas formais para escolha dos fornecedores.
  • Falhas no planejamento e na estruturação dos projetos
    Especialmente no projeto "Escritório Ajayô", sem clareza sobre execução, equipe, cronograma e atividades.
  • Ausência de transparência ativa pela entidade
    A associação não divulga, em site ou plataforma pública, informações obrigatórias sobre recursos recebidos, execução e prestação de contas.
  • Deficiência no registro de informações institucionais e de controle social
    Falta de dados como contatos de órgãos de controle e instâncias de participação social no sistema oficial.

O que dizem os envolvidos 

A BNews Premium questionou a Sepromi, a Secult, os Filhos de Gandhy, além dos deputados federais Jorge Solla e Daniel Almeida sobre os repasses e gestão dos recursos. Por meio de nota, a Sepromi informou que "atua de forma articulada com os diversos órgãos do Governo do Estado, respeitando as competências institucionais de cada secretaria".

De acordo com a pasta, todos  os esclarecimentos e documentos solicitados foram encaminhados à CGU. A Sepromi destacou que a "aplicação dos recursos oriundos das emendas especiais coadunam com o escopo das atividades e competências atribuídas à pasta".

Organizações como o Afoxé Filhos de Gandhy possuem reconhecida relevância histórica, cultural e política na afirmação da identidade negra e na preservação do patrimônio imaterial afro-brasileiro, constituindo-se como atores estratégicos na implementação de políticas de igualdade racial. Nesse sentido, o Estado da Bahia tem buscado, de forma contínua, fortalecer parcerias com tais organizações, observando os marcos legais vigentes e as especificidades que caracterizam esse campo de atuação", informou à Sepromi à BNews Premium.

A reportagem também questionou a Secult que, por meio de nota, frisou que a celebração do Termo de Fomento nº 065/2023, com a Associação Afoxé Filhos de Gandhy, ocorreu dentro da legalidade e com respaldo jurídico da Procuradoria Geral do Estado (PGE-BA).

De acordo com a pasta, a CGU usou como referência "uma instrução normativa de 2024 do Tribunal de Contas da União (TCU), porém, as emendas objeto de auditoria são anteriores a esse prazo".

Na época do Termo de Fomento, em julho de 2023, todos os procedimentos observaram rigorosamente a legislação, normas e orientações vigentes à época. Os projetos foram plenamente executados, sem qualquer prejuízo à finalidade pública, garantindo impacto positivo na valorização e preservação da cultura baiana", destacou a Secult por meio de nota.

Os Filhos de Gandhy, também por meio de nota, esclareceram que "todos os recursos recebidos, inclusive oriundos de emendas parlamentares, foram formalizados e executados conforme a legislação vigente, com a devida prestação de contas aos órgãos competentes aprovados".

A associação também se manifestou sobre a ausência de transparência, justificando que, à época da execução dos projetos, ainda não possuía site institucional ativo. "Como medida de adequação, foi implantado o site e, em 22 de abril de 2025, foram publicados os resumos dos termos executados, ampliando o acesso público às informações".

Quanto às cotações, esclarecemos que foram realizadas consultas de mercado. Por esse motivo, a contratação final foi realizada com fornecedores devidamente habilitados. A entidade reafirma seu compromisso com a transparência, a correta aplicação dos recursos públicos e a adoção contínua de melhorias em seus mecanismos de gestão transparente", informou a Associação Afoxé Filhos de Gandhy.

A BNews Premium procurou o deputado Jorge Solla, que teve uma emenda considerada irregular pela CGU. O parlamentar explicou que "os recursos foram destinados com base em interesse público, relevância social e impacto cultural das iniciativas apoiadas, especialmente em ações voltadas à promoção da cultura do povo preto, da cidadania e da inclusão social".

De acordo com o deputado, "a lógica da destinação parlamentar foi amparar projetos com reconhecida inserção comunitária e de alcance social na Bahia". Mesmo diante da existência de indicação direta nas emendas Pix — o que configura irregularidade —, Jorge Solla ressaltou que "a execução do recurso cabe ao ente público beneficiário".

Houve indicação da entidade no plano político da emenda, mas a execução do recurso cabe ao ente público beneficiário, que é quem deve observar os procedimentos legais e administrativos aplicáveis à formalização da parceria", explicou Jorge Solla à reportagem.

A BNews Premium não conseguiu contato com o deputado Daniel Almeida. O espaço segue aberto e a matéria será atualizada em caso de eventual manifestação futura.

Classificação Indicativa: Livre

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