Política
O escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro (PL) recebeu R$ 1,32 milhão por meio de outro escritório que atuava na defesa de Tunay Pereira Lima, apontado pelo Ministério Público Federal (MPF) como sócio de Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como o Faraó dos Bitcoins.
Segundo investigação publicada pelo ICL Notícias neste sábado (24), os pagamentos ocorreram em março de 2024, um mês antes de Flávio assinar um pedido de habeas corpus para tentar libertar Tunay.
De acordo com a reportagem, o escritório Gavioli, Viola & Gomes, responsável pela defesa de Tunay, transferiu R$ 1 milhão em 19 de março de 2024 e outros R$ 320 mil três dias depois, em 22 de março. Comprovantes bancários obtidos pelo veículo confirmariam as transações para o escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia.
Segundo reportagem publicada no Uol, nesta semana, o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026, período em que ele exercia o mandato de senador. A reportagem aponta que metade das notas foi emitida para pagamentos feitos por outros advogados.
Além disso, a reportagem revelou que o escritório que foi aberto em 16 de abril de 2021, tem Flávio como único titular, funciona no endereço de sua própria casa, em Brasília, e, segundo o Uol, não possui funcionários além da administradora, Letícia Caetano dos Reis.
De acordo com apuração do ICL, a atuação identificada do então senador no processo se restringiu à assinatura de um pedido de habeas corpus apresentado ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), em 22 de abril daquele ano. A reportagem afirma que não encontrou outros atos de Flávio na ação penal.
O escritório Gavioli, Viola & Gomes obteve autorização judicial para receber R$ 12 milhões de recursos apreendidos de Tunay Pereira Lima durante a Operação Kryptos, a título de honorários advocatícios.
Em 13 de março de 2024, a juíza federal Rosália Monteiro Figueira, da 3ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, autorizou a liberação do dinheiro para o escritório, em cumprimento a uma decisão do Tribunal Regional Federal da 2ª Região.
Conforme especialistas ouvidos pelo ICL Notícias, a medida encontra respaldo na Lei nº 8.906/1994, conhecida como Estatuto da Advocacia, que prevê a possibilidade de destinar parte dos recursos apreendidos de um réu ao pagamento de honorários advocatícios.
Os repasses para o escritório de Flávio ocorreram seis e nove dias após a decisão judicial, respectivamente. O primeiro foi de R$ 1 milhão, enquanto o segundo totalizou R$ 320 mil.
Tunay foi apontado como sócio e braço-direito de Glaidson Acácio dos Santos. Os dois estiveram entre os principais alvos da Operação Kryptos, investigação da Polícia Federal (PF) sobre um esquema de fraudes financeiras associado à GAS Consultoria.
A empresa apresentava seus serviços como investimentos em criptomoedas e prometia rendimentos fixos de 10% ao mês, sob a justificativa de que os recursos seriam aplicados em operações com bitcoins e outros ativos digitais.
Segundo as informações publicadas pelo ICL Notícias, o esquema movimentou cerca de R$ 38 bilhões entre 2015 e 2021, antes de ser desarticulado pela Polícia Federal.
A lista de credores da massa falida da GAS Consultoria reúne mais de 77 mil pessoas e empresas. Investigadores ligados ao caso, porém, estimam que o número de pessoas prejudicadas possa chegar a 300 mil.
Flávio Bolsonaro assinou o pedido de habeas corpus em 22 de abril de 2024, cerca de um mês depois de receber os pagamentos. A medida buscava a libertação de Tunay Pereira Lima, mas foi indeferida 20 dias depois.
Ainda conforme a apuração do ICL Notícias, o candidato à Presidência não apresentou outras petições no processo, não solicitou sustentação oral e não juntou memoriais.
Glaidson Acácio dos Santos foi condenado a 19 anos e dois meses de prisão pela Justiça estadual do Rio de Janeiro, em sentença publicada em outubro de 2025. A condenação ocorreu na Operação Novo Egito, por organização criminosa e corrupção ativa.
Na ação federal relacionada à Operação Kryptos, o Ministério Público Federal já havia pedido a condenação dos acusados nas alegações finais.
Procurado pelo ICL para esclarecer sua atuação na defesa de Tunay Pereira Lima, Flávio Bolsonaro não respondeu aos questionamentos do veículo.
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