Política
por Anderson Ramos
Publicado em 28/11/2025, às 05h00 - Atualizado às 05h45
Que o Centro Histórico de Salvador é um museu a céu aberto, todo o mundo sabe. Reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, o Pelourinho é repleto de construções que atraem milhares de visitantes todos os anos, mas algumas delas ainda são desconhecidas do grande público.
O prédio número 17, no Largo do Cruzeiro do São Francisco, guarda uma história importante da luta do povo preto por dignidade. Desde 1887, o imóvel é sede da Sociedade Protetora dos Desvalidos (SPD), a primeira organização civil negra da história do Brasil e uma das pioneiras da América Latina.
A origem da SPD remonta ao ano de 1832, quando um grupo de 19 homens liderado por Manoel Victor Serra - negro livre vindo da África - se uniu com o objetivo de garantir a liberdade de pessoas escravizadas, comprando cartas de alforria e oferecendo condições para autonomia social e econômica. Isso tudo mais de 50 anos antes da abolição da escravidão, que foi oficialmente alcançada no Brasil em 1888.
Falar da SPD é falar da história do povo preto em Salvador. Nós surgimos em um período de lutas, em um período em que o povo preto estava mais do que nunca demarcando o seu espaço. É um espaço político, de sobrevivência e de garantia de direitos”, resumiu emocionada a atual presidente da Sociedade Lígia Margarida, a primeira mulher a ocupar o posto na longa história da entidade.
Lígia Margarida é a atual presidente da SPD.
Pioneirismo
Comprar a liberdade de escravizados não bastava, era necessário garantir a subsistência dos negros alforriados, e nisso, a Sociedade Protetora dos Desvalidos também foi pioneira.
“Para além das cartas, a SPD queria organizar o povo preto da época. Então, se organizou na questão educacional para que as pessoas pudessem estudar e para que as pessoas pudessem sobreviver com as suas tarefas de ganho. Nós sabemos que homens e mulheres que viviam com escravos de ganho, por vezes, perdiam as suas guias, perdiam o conteúdo dos seus tabuleiros, e precisavam de apoio. A SPD instituiu aqui um apoio que era tipo microcrédito: as pessoas vinham aqui, recuperavam as suas guias e depois devolviam o recurso para ajudar outras pessoas”, conta Lígia.
A assistência social é outro importante marco da SPD. A entidade também é reconhecida como precursora do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) pela ajuda a homens e mulheres que ficavam doentes e o apoio às famílias de associados falecidos.
Sempre foi realmente uma instituição para garantir direitos. Ela também dava apoio a quem ficava doente, tanto que nós somos o primeiro INSS do Brasil, porque nós apoiávamos as famílias dos associados que faleciam. Para as famílias não ficarem desamparadas, a sociedade protetora pagava um benefício para essas famílias”, revelou Lígia.
Outro ponto singular dos 193 anos de história da SPD são os seus membros. Entre os intelectuais que se destacaram está Manuel Raimundo Querino (1851-1923), o primeiro vereador negro de Salvador. Desenhista, jornalista, historiador, etnógrafo, professor da Escola de Belas Artes da UFBA e capitão da Guarda Nacional, Querino ocupou uma cadeira na Câmara Municipal por dois mandatos, entre o final do século XIX e início do XX.
Além de intensa atuação política, Querino produziu importantes obras, entre elas aquela que é considerada o primeiro tratado sobre desenho gráfico no Brasil “Desenho linear das classes elementares “ publicado em 1903. Seus livros mais conhecidos tratam sobre a influência negra na formação histórica da identidade nacional, como “A Bahia de Outrora” (1916), “Raça africana e seus costumes na Bahia” (1916) e “O colono preto como fator da civilização brasileira” (1918).
Passado e futuro
Ir ao prédio-sede da Sociedade Protetora dos Desvalidos é experimentar uma mistura de sensações. Ao entrar no imóvel, o visitante é recepcionado por orixás e uma carranca, divindades do candomblé. No segundo andar, ao lado do auditório onde são realizadas as reuniões da diretoria, fica um altar de santos católicos. No terceiro e penúltimo andar, fica um espaço dedicado aos adeptos ao islamismo.
O prédio também funcionou como refúgio de negros perseguidos pelo sistema colonial e era ali, no quarto andar, que eles costumavam se esconder. Nos quartos estão itens comuns à época, como ferro a vapor, máquina de costura, rolo e esteiras que serviam de camas para os refugiados.
Boa parte do mobiliário está bem conservado e é original, feito pelos membros, já que nos primeiros anos uma parte significativa da entidade era formada por marceneiros. Mesas, cadeiras, quadros, altares, tudo foi feito pelos próprios associados. Chama atenção um cofre com três chaves onde eram guardados os recursos que serviam para custear as compras das cartas de alforria, ações de formação e serviços assistenciais e o apoio a famílias ainda submetidas à escravidão.
O prédio é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e apesar das dificuldades de manutenção, está em bom estado de conservação. O mesmo não pode ser dito da Igreja dos Quinze Mistérios, no bairro de Santo Antônio, a primeira casa da SPD. Atualmente abandonada, a igreja serviu para encontros secretos de negros livres e escravizados e serviu de base para a Revolta dos Malês, ocorrida em 1835.
De acordo com Lígia Margarida, há planos para transformar a atual sede em museu e incluir o prédio no roteiro turístico do Pelourinho, além de um memorial. Este último em fase mais avançada, com previsão de conclusão ainda neste ano.
A SPD se prepara para os seus 200 anos e estabeleceu sete metas a serem alcançadas a cada ano até o seu bicentenário:
A atual diretoria também projeta uma renovação no seu quadro de sócios. De acordo com Lígia, a maioria dos 185 associados é composta por pessoas com mais de 50 anos e apenas 15% são jovens.
“Nós temos um planejamento estratégico no qual a gente tem feito um esforço para colocar, em cinco anos, pelo menos um percentual de 40% de jovens, agregando em torno de mais 40 a 50 pessoas”, detalhou.
A taxa de inscrição para se tornar um membro é de R$ 70 e mensalidade simbólica de R$ 10. O sustento da entidade vem de imóveis alugados e do apoio de organizações particulares, como o Fundo Baobá, Fundação Tide Setubal, Instituto Ibirapitanga e Fundação Rosa Luxemburgo.
Para Lígia, a principal luta da Sociedade hoje é para manter a história de pé e transmitir o legado para as novas gerações.
A maior dificuldade que nós temos é fruto de ações intencionais de apagamento da história do povo preto. Imagine uma instituição como essa aqui no coração de Salvador e ainda tem muita gente que não conhece. Por que será que não conhece? Porque a própria estrutura do sistema se encarrega de apagar”, pontuou.
Atualmente, a instituição mantém sua preocupação com o social apoiando projetos como o Instituto Renascer Mulher e o Quilombo Mulungu, mantém a Casa Carolina de Jesus para acolhimento de africanos e quilombolas, apoia trabalhadores ambulantes no Centro Histórico e desenvolve ações políticas com o Coletivo Agbara Dudu para fomento de lideranças negras.
Para conhecer mais sobre a Sociedade Protetora dos Desvalidos, acesse o Instagram e o site.
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