Política
Na decisão em que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pede a Edson Fachin, presidente da Corte, que tome providências contra o ministro André Mendonça, relator do Caso Master e INSS no tribunal, um trecho específico chama atenção por citar nomes de fora do Judiciário: o ex-prefeito de Salvador e candidato ao governo da Bahia, ACM Neto (União Brasil), e Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lulinha.
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O documento, obtido pelo BNews, cita um relatório de inteligência produzido pela Polícia Federal para apontar que Mendonça estaria direcionando investigações por viés político.
A citação está dentro de um item do relatório de inteligência da Polícia Federal chamado "X.5. Indicadores de assimetria por espectro político", que é justamente a parte dos documentos dedicada a apontar supostos tratamentos desiguais dados pelo ministro Mendonça a pessoas em situações parecidas, a depender de sua orientação política.
Segundo o relatório policial, em uma reunião presencial ocorrida em 13 de agosto de 2026, Mendonça teria manifestado o entendimento de que ACM Neto "aparentaria estar exercendo atividade de representação de interesses dentro dos limites do permitido" no âmbito do investigado no Caso Master. Ou seja: de acordo com o ministro, a conduta de ACM Neto, fosse ela qual for no contexto das investigações, não extrapolava o que é legalmente aceitável.
O relatório então afirma que essa mesma situação fática "guarda similaridade relevante" com a de Lulinha, mas sugere que, no caso do filho do presidente, o padrão de avaliação teria sido diferente e mais rigoroso. Por isso, a Polícia Federal conclui que haveria "adoção de standards probatórios distintos conforme o espectro político da pessoa envolvida nos fatos". Em outras palavras: para a PF, o ministro estaria usando uma régua mais frouxa para avaliar aliados políticos de um espectro e uma régua mais rígida para avaliar os do espectro oposto, mesmo diante de fatos parecidos.
Ainda no mesmo item, o relatório da PF obtido pela reportagem aponta uma segunda situação, dessa vez citando outro nome, o empresário Antonio Rueda, presidente do União Brasil, ao lado de ACM Neto. Segundo o documento, Mendonça teria sugerido que os casos relativos a Rueda e a ACM Neto fossem separados em petições distintas, mesmo havendo, segundo a PF, uma "conexão aparente" entre as condutas de ambos.
O relatório então destaca uma contradição: em um episódio anterior, ocorrido em julho de 2026, o ministro teria se posicionado justamente contra a separação de um caso pela equipe de investigação. No entanto, naquela situação, segundo a PF, não havia conexão entre os fatos. Ou seja, a Polícia Federal aponta uma inconsistência na atuação de Mendonça, na qual o ministro teria pedido a separação onde havia conexão (no caso de Rueda e ACM Neto) e se oposto à separação onde a conexão não existia (no episódio de Lulinha). Para a PF, esse padrão inverso reforça a hipótese de que as decisões processuais estariam sendo guiadas por critérios que vão além da técnica jurídica e indo num viés ideológico.
O envolvimento de ACM Neto no Caso Master refere-se ao recebimento de R$ 3,6 milhões pagos pelo Banco Master e pela gestora de recursos Reag Investimentos à empresa de consultoria do político entre março de 2023 e maio de 2024 (período posterior às eleições de 2022). O ex-prefeito confirma o recebimento do montante, mas declara que o contrato foi de prestação de serviços de consultoria político-econômica. Segundo Neto, o acordo foi totalmente regular, transparente, com os impostos recolhidos e declarado à Receita Federal.
Já o envolvimento de Lulinha no chamado Caso INSS refere-se a três inquéritos instaurados pela Polícia Federal para apurar suspeitas de tráfico de influência e corrupção. A investigação teve origem na Operação Sem Desconto, que apurava fraudes em empréstimos consignados e desvios de recursos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) ligados ao Banco Master.
Os dois casos são relatados por Mendonça no STF. Ao apreender o celular da lobista e empresária Roberta Luchsinger, apontada como operadora de Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", a PF encontrou mensagens trocadas com o filho do presidente Lula.
Os advogados de Fábio Luís classificam as acusações como "ilações sem lastro" motivadas por uso puramente político e eleitoral. A defesa ainda sustenta que a quebra de sigilo do cliente foi ilegal e que a PF realiza uma "pescaria probatória" semelhante aos métodos outrora criticados na Operação Lava Jato.
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