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Bistrôs de luxo em Salvador acumulam processos por dívidas trabalhistas e atraso de salário

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Ao BNews, ex-funcionários de bistrôs relatam dificuldades financeiras e falta de pagamento de FGTS e verbas rescisórias  |   Bnews - Divulgação Divulgação
Redação BNews

por Redação BNews

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Publicado em 06/05/2026, às 10h49



Os donos de um restaurante de alto padrão localizado na Avenida Sete de Setembro, em Salvador, são alvos de pelo menos 11 processos trabalhistas nos últimos anos. Denúncias encaminhadas ao BNews apontam atraso no pagamento de salários, ausência de recolhimento de direitos como FGTS e problemas no pagamento de verbas rescisórias envolvendo o LarriBistrô e o Muamba Bistrô (antigo Larriquerrí).

As ações tramitam no Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (TRT-5) desde 2021 e envolvem pedidos diversos, como pagamento de salários, reconhecimento de rescisão indireta e cobrança de valores já reconhecidos pela Justiça. Um dos processos, protocolado em 2024, cobra mais de R$ 65 mil referentes a salários não pagos.

Documentos obtidos pela reportagem apontam que os restaurantes operaram sob diferentes registros empresariais ao longo dos anos, incluindo empresas distintas associadas ao mesmo endereço. Além dos registros judiciais, relatos de ex-funcionários reforçam as denúncias.

Em contato com o BNews, uma mulher que trabalhou nos estabelecimentos por cerca de dez anos, entre 2016 e março de 2026, afirmou que os problemas teriam se intensificado após mudanças na gestão durante o período da pandemia.

Eu trabalhei nos dois restaurantes. Entrei em 2016 e, com o tempo, virei chefe de cozinha executiva. Depois da pandemia, quando os donos se separaram, começaram os problemas. Foi quando a gente descobriu que não estavam pagando FGTS e INSS", relatou a ex-funcionária, que preferiu manter o anonimato.

Segundo ela, a situação passou a afetar diretamente a rotina dos trabalhadores, com atrasos frequentes e incerteza sobre os pagamentos.

"Sempre que a gente questionava, diziam que não tinham dinheiro para pagar. Isso acontece com várias pessoas. Eles falam que não vão pagar e pronto. Enquanto isso, o restaurante continua funcionando normalmente", desabafou.

O Larri Bistrô fica localizado na sede da Aliança Francesa, na Ladeira da Barra. O estabelecimento, considerado de alto padrão, conta com pratos principais que chegam a custar mais de R$ 100.

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Reprodução/Google Street View

A trabalhadora também relatou que deixou o emprego recentemente sem receber valores básicos previstos na legislação.

Tem um mês que eu saí de lá. Não liberaram meu FGTS, não pagaram minha rescisão, não recebi nada até hoje. Eu estava disposta a fazer um acordo, mas não resolveram. Por isso, entrei na Justiça. Teve mês em que o salário foi dividido em várias vezes. Já chegaram a pagar em quatro parcelas. E sempre com a justificativa de que não tinham dinheiro".

"Tenho cinco férias vencidas"

Uma segunda ex-funcionária, que atuava na parte administrativa do estabelecimento, reforçou a falta de compromisso com os pagamentos. A mulher, que também não quis se identificar, trabalhou por cerca de nove anos no restaurante e confirmou que o ambiente passou a mudar após conflitos entre os proprietários. Segundo ela, houve falhas na gestão financeira e administrativa.

"Sempre foi uma empresa muito boa, organizada, que pagava tudo direitinho. A gente vestia a camisa mesmo. Só que, depois de um problema familiar entre os donos, tudo começou a desandar. Durante a pandemia, eles mantiveram todos os funcionários, o que foi positivo. Mas depois, quando houve uma separação, começaram os problemas. A gente via que o restaurante continuava cheio, com reservas e movimento, mas eles alegavam que não tinham dinheiro. Isso não batia", disse.

A ex-funcionária também apontou que a situação não se limitava aos salários e direitos trabalhistas, mas envolvia outras áreas da operação dos restaurantes.

"Eles também deixaram de pagar fornecedores. A dívida com fornecedores ficou enorme. Não era falta de cliente, porque o restaurante estava sempre cheio. Era problema de gestão mesmo, de organização financeira ou até questões pessoais que acabaram sendo descontadas na empresa".

A gente tinha controle de estoque, de compras. Eu mesma comprava cerca de 30 quilos de camarão por semana, e isso não mudou. Então não fazia sentido dizer que não estava vendendo. O movimento continuava intenso, com fila de espera e reservas cheias".

A trabalhadora ainda relatou que, diante da situação, optou por acionar a Justiça para tentar reaver os valores devidos.

"Eu tenho cinco férias vencidas, passei anos sem receber FGTS, INSS e até o PIS, porque não faziam a declaração. Quando a gente saía, eles ofereciam um acordo padrão, de R$ 10 mil parcelados em dez vezes, independentemente do valor real que a pessoa tinha para receber. Eu não aceitei e entrei na Justiça", contou.

Descumprimento de acordos

Um terceiro ex-funcionário, que atuou como garçom nos restaurantes por cerca de sete anos, entre 2018 e 2024, também relatou irregularidades recorrentes nos pagamentos e afirmou que recorreu à Justiça após sucessivos atrasos e descumprimento de acordos.

Segundo ele, o salário, que deveria ser pago até o quinto dia útil, frequentemente era depositado com atraso. Também havia dificuldades no recebimento de direitos trabalhistas, como 13º salário e férias.

O pagamento era sempre fora do prazo. Era para cair no quinto dia útil, mas muitas vezes só recebíamos no dia 10 ou 12. A taxa de serviço, que deveria ser repassada no dia 20, só era paga perto do dia 30. O décimo terceiro era parcelado em várias vezes, chegando a ser pago em até quatro parcelas. As férias também acumulavam. Eu mesmo cheguei a ter quatro vencidas".

De acordo com o trabalhador, ele ingressou com uma ação trabalhista em 2024, mas, até o momento, não houve cumprimento das determinações judiciais. Em entrevista, ele questionou a justificativa de dificuldades financeiras apresentada pelos empregadores, destacando que o restaurante mantinha movimento intenso.

"A Justiça já determinou o pagamento, mas até hoje não recebi nada. Ela [a proprietária] diz que só resolve na Justiça, mas, mesmo assim, não cumpre. O restaurante sempre esteve cheio, principalmente por causa da localização e da vista. Não parecia um lugar que não tinha dinheiro", disse.

Como andam os processos

As ações seguem em diferentes fases na Justiça do Trabalho, incluindo audiências iniciais e definições de sentenças. No entanto, segundo relatos de ex-funcionários, a empresária não teria cumprido acordos firmados e, em alguns casos, chegou a propor quitações de cerca de R$ 10 mil, parceladas em até dez vezes, independentemente do valor devido a cada trabalhador.

"O acordo é de R$ 10 mil em dez vezes. Não importa se você tem R$ 50 mil ou R$ 100 mil para receber", relatou uma ex-funcionária.

O que diz a empresária

A equipe do BNews entrou em contato com a proprietária do LarriBistrô por meio do WhatsApp e fez questionamentos sobre as denúncias e os processos trabalhistas. Em resposta, a empresária disse "não saber do que se trata" e que a reportagem estaria "falando com a pessoa errada". Até a publicação da matéria, não houve manifestação. O espaço segue aberto.

Classificação Indicativa: Livre

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