Salvador
Publicado em 27/01/2025, às 06h00 Maurício Viana, Vagner Ferreira e Dandara Amorim
O resgate à cultura ancestral sempre foi um ponto de discussão entre os moradores de Itapuã, em Salvador. Com o passar dos anos, as culturas vistas entre as décadas de 1950 e 1980 foram se perdendo, dando lugar a novos ritmos e sons que hoje embalam as ruas do bairro. Ainda ecoam, no entanto, os sambas das Ganhadeiras de Itapuã e o axé do Bloco Afro Malê Debalê. Nos últimos anos, também ganharam espaço as festas de paredão e os pagodes, que passaram a embalar os fins de semana de Itapuã.
Tendo vivido em Itapuã nos anos 1950, Ana Maria dos Santos se inspirou para resgatar a memória de uma cultura única do bairro: as Ganhadeiras, mulheres que trabalhavam arduamente para garantir o sustento de suas famílias. Nativa do bairro, Ana testemunhou muitas dessas dinâmicas com seus próprios olhos, criando memórias que jamais seriam esquecidas.
“Essas mulheres eram de muita luta e garra, porque enfrentavam sol e chuva... Antes de vender a mercadoria e ir para a cidade, muitas vezes elas precisavam ir ao mato pegar palha de licuri para fazer abano, esteira e chapéu. Elas preparavam tudo sozinhas para poder seguir para a cidade”, conta.
Inspirada por essas histórias e sempre resgatando o passado de Itapuã em conversas com nativos do bairro, Ana criou o grupo de samba “As Ganhadeiras de Itapuã”. Elas, vestindo roupas similares às usadas pelas mulheres da época, continuam se apresentando e cantando até hoje.
O canto sempre foi uma parte importante do trabalho braçal, trazendo alegria ao serviço. Através da música, o trabalho das mulheres se tornava mais leve. Enquanto “mercavam” — ou seja, vendiam seus produtos em alta voz pelas ruas — as mulheres cantavam o que tinham a oferecer, como artesanatos e quitutes, e assim conseguiam fazer seus ganhos.
“Mercação era o lamento das escravas africanas. De longe se ouvia a ‘mercação’ dessas mulheres. Eu lembro de algumas de Itapuã que já se foram. Já imaginou ir pela rua com um peso na cabeça, ‘mercando’ alegremente, com um sorriso no rosto? A gente queria ser aquelas mulheres, carregando água na cabeça e com baldes nas mãos. Achávamos isso bonito e sentíamos muito orgulho de vê-las”, conta Ana Maria.
“Cantavam, lavavam roupa, e faziam suas próprias músicas. Quando estavam trabalhando, estavam cantando e sorrindo”, completa.
Inspiração de Itapuã
Em 2003, ouvindo sobre o vasto conhecimento de Ana Maria sobre a história de Itapuã, o músico e gestor cultural Amadeu Alves a convidou para trabalhar com ele nesse resgate cultural. Ana convidou outras mulheres que, como ela, conheciam bem a história do bairro. Elas começaram a relembrar casos e sambas antigos, cantando no quintal de Dona Mariinha.
“Amadeu queria fazer um trabalho sobre a história de Itapuã, mas não sobre as Ganhadeiras. Ele queria juntar homens e mulheres para contar a história de Itapuã e cantar samba”, diz Ana. “O trabalho foi crescendo. Começamos a fazer samba, e logo isso se espalhou.”
Em 13 de março de 2004, o grupo As Ganhadeiras de Itapuã iniciou oficialmente suas atividades como um grupo musical. Ana lembra do suporte artístico que dava: “Eu, como sabia um pouco sobre a história, dizia como eram as roupas das Ganhadeiras, como elas se vestiam e como eu via a cena na época.”
Novos ritmos e sons
Embora o resgate da cultura tenha feito o bairro ser mundialmente conhecido, com destaque para a história das Ganhadeiras, um outro movimento também trouxe visibilidade a Itapuã. Em 1979, a criação do Bloco Afro Malê Debalê, formado por moradores de Itapuã, Garcia e Tororó, fez a região ganhar mais atenção dos governantes, uma vez que o bairro sofria com a falta de serviços essenciais.
“A influência do bloco foi importante para chamar a atenção para nossa região. Naquela época, Itapuã não tinha saneamento, esgoto ou infraestrutura. O Malê Debalê foi uma forma de chamar a atenção do poder público para nós, Itapuãzeiros”, destaca a vice-presidente do Malê Debalê, Bárbara Silva.
Toda essa história e cultura se contrasta com a realidade atual do bairro. Embora muitos nativos lutem para preservar as tradições, Itapuã se rendeu aos novos ritmos, como seresta e sofrência, que se tornaram populares nos bares Jangada e Língua de Prata. Hoje, o bairro também é palco de festas de paredão, que dominam as praças, como a Dorival Caymmi, e outros pontos do bairro.
Camille Amorim, estudante e frequentadora de festas de paredão, descreve: “Se você for do bairro, é mais tranquilo. Caso contrário, é melhor evitar. São muitas pessoas de diferentes comportamentos, e pode ser muito perigoso.”
Já Élida Santos, também frequentadora de paredões, compartilha sua experiência: “Eu já fui para muitos paredões, mas hoje em dia não vou mais. É um local de baixo custo, e as músicas atuais dominam lá. Eu já fui escondido de minha mãe, o que não é o mais adequado. Hoje, não vou mais porque o risco é grande.”
“É um ambiente em que você fica muito exposto. A galera mais jovem vai por causa da música predominante, mas eu não acho que vale a pena. É realmente perigoso. Hoje em dia, eu não iria mais”, reforça Élida.
De acordo com dados da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano (Sedur), os bairros com maior apreensão de equipamentos sonoros em 2024 foram Lobato (26 apreensões), Itapuã e São Cristóvão (25 cada), Águas Claras (22) e Paripe (21). Os moradores de Itapuã discutem as consequências dessa nova realidade.
Uma das vítimas da poluição sonora é Bárbara Silva, presidente do Malê Debalê. “Não posso nem verbalizar muito, porque cada um tem seu gosto... Mas eu não gosto desse tipo de música. Sabemos que os paredões fazem apologia, e isso me incomoda”, diz ela.
Maria Lúcia, integrante das Ganhadeiras e defensora das tradições do bairro, critica a falta de respeito de quem adere aos novos ritmos: “Eu sou contra, mas não vou colocar minha opinião em prática. Se eu falar, posso ser silenciada... Não respeitam mais as crianças, jovens e idosos. É uma falta de respeito que nunca vi. Aqui mesmo na Baixa do Dendê, tem um paredão que não deixa ninguém dormir, e os moradores não podem reclamar. E eu culpo quem? Quem vai debater com esse povo? Tudo virou violência”, afirma Maria Lúcia.
Passando por transformações culturais e vivendo uma expansão urbana há 40 anos, Itapuã hoje enfrenta um declínio cultural. Será esse o ponto abordado em nossa terceira e última reportagem, a ser publicada na próxima segunda-feira (03/02), escrita por Dandara Amorim.
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