Salvador

Itapuã: Da vila de pescadores ao reduto de memórias e lendas que cercam as águas

Devid Santana / BNews
Conheça um pouco mais da história de Itapuã, desde a calmaria da vila de pescadores às principais mudanças ao longo dos anos  |   Bnews - Divulgação Devid Santana / BNews

Publicado em 20/01/2025, às 06h00 - Atualizado às 06h30   Vagner Ferreira, Dandara Amorim e Maurício Viana



Salvador, século 20. Em meio ao ritmo acelerado da capital baiana, existia um local de refúgio à beira-mar, onde o tempo parecia passar mais devagar, embalado pelo som das ondas do mar e pela tranquilidade de um cotidiano simples. Itapuã, de origem tupi, ficou eternizado nos versos de Vinícius de Moraes e Dorival Caymmi.

“De todos os bairros da capital baiana, o de Itapuã talvez tenha se destacado mais em diversas produções artísticas ao longo de todo esse tempo, especialmente no decorrer do século XX, onde aparece em produções de grandes nomes da música brasileira, como Caimmy, do mestre Vinícius de Morais, e em desenhos, pinturas de outros tantos artistas que se inspiraram em seus coqueirais nas praias ou no farol, que iluminava diversos navegantes ao longo de todo esse tempo”, contou o historiador Rafael Dantas ao BNews.

Nas águas de Itapuã, a vida girava em torno da pesca. A colônia de pescadores, que se formou ali, moldava a identidade local. Através das canoas e das redes de pesca, eram trazidos as principais fontes de sustento para a comunidade.

Segundo o historiador, as águas de Itapuã sempre foram fundamentais, não apenas para a sobrevivência local, mas também para o desenvolvimento da cidade de Salvador. “Desde muito tempo, tanto na época de um predomínio das culturas indígenas que ali viviam, como na chegada dos portugueses naquela área, toda aquela região e a costa Atlântica foi fundamental para a cidade do Salvador. Daquelas águas, se abasteciam com frutos do mar ou até mesmo com outras relações econômicas, como a caça à baleia e um mercado de trocas importante do Atlântico, em contato tanto com a África, com a Europa e, evidentemente, com a América”, explicou o historiador.

Com o passar dos tempos, a colônia se expandiu. De acordo com levantamento do Censo 2022 - último censo, até então, da categoria regional BA - divulgado em 2024 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Itapuã se configurou como o bairro mais populoso de Salvador, com 60.968 pessoas moradores. O bairro cresceu no âmbito populacional, não se limitando apenas à comunidade pesqueira, mas a tradição se manteve ao longo dos dias atuais.

“Eu saio para pescar na terça e chego na sexta-feira. Às vezes, saio na quarta e volto no sábado. Outras vezes, saio na segunda e só volto no sábado. Fico em alto-mar por três, quatro dias pescando para trazer o alimento para casa e para o sustento da família”, contou o pescador Manoel Ioltalho, vendedor de peixe na comunidade. 

"A rotina do nosso dia a dia começa cedo. Acordamos às 4h30 da manhã, esperando o sol nascer e fazendo as coisas conforme vai aparecendo. Na maioria das vezes, a gente sai para o mar sem hora para voltar, no intuito de trazer o melhor do melhor para a nossa comunidade e, principalmente, para o turismo”, relatou outro pescador, o Ednaldo Amorim, que chegou na comunidade pesqueira em 2009, quando ainda era mergulhador da Baía de Todos os Santos.

O presidente da Associação de Pescadores de Itapuã, Arivaldo de Souza Santana, mais conhecido como Ari - “líder de um povo tradicional”, como gosta de se identificar -, ressaltou como a pesca continua impactando na economia local. “A época entre o verão e a Semana Santa, é a época que a gente tem melhor produção, em que a gente tem as marés mais favoráveis. Nessa época, produzimos muito mais pescado e vendemos aqui no bairro. O cliente vem comprar um peixe fresco e, muitas vezes, consome também em um dos bares da região. Esse ciclo ajuda a movimentar a economia local, com os vendedores nos arredores lucrando mais”, relatou ele.

“Além disso, a gente vê muitas outras atividades acontecendo, a exemplo dos artesanatos que produzimos na colônia. O pessoal leva esses produtos para vender no larguinho, na entrada da Rua K. Tem também o pessoal do pastel e o trânsito de pessoas aumenta bastante. Vêm aqui para comprar o peixe fresco e acaba encontrando mais opções. E essa movimentação ajuda a atrair ainda mais clientes e a fortalecer a economia local”, disse Ari ao BNews.

História de pescador

Itapuã é marcado também por lendas e misticismo. As histórias contadas pelos pescadores e antigos habitantes reforçam o caráter enigmático do bairro, criando um elo entre as tradições e a cultura local. 

Um desses é referente a expressão ‘pedra que ronca’, associado ao nome do bairro, que está inclusive na música ‘Itapoã’, de Dorival Caymmi. “Sereia morena / Vem toda manhã / Se banha nas águas / De Itapoã / A pedra que ronca / No meio do mar / Tem no seu dorso / Sentada, Yaiá”, diz a letra.

O historiador Rafael Dantas, no entanto, desmitifica a relação do termo Itapuã com a expressão popular. “Apenas para deixar registrado, como lembrava o nosso mestre Sir Teixeira, (Itapuã) faz referência às pedras que ficavam proeminentes, quando se olhava, evidentemente, da parte da costa, com aquele mar tão bonito, que é uma característica tão marcante da região. Não se enganem, a menção da música a 'Pedra que ronca', não é verdade. É uma pedra que se exibe, é uma pedra proeminente, é uma pedra que aparece ali, naquela região da água”.

As lendas e os mitos envolvem principalmente a Lagoa do Abaeté que, com suas dunas e seus coqueirais, fica no imaginário dos pescadores e moradores locais. Uma das versões contadas também envolve sereia, assim como a música de Caymmi.

Segundo a lenda, Abaeté era um índio que, por causa do ciúmes de uma sereia, foi transformado em um boto e ainda habita as profundezas da lagoa, vivendo triste e solitário. 

Outra lenda está associada à identidade religiosa. Trata-se da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, que dizem ter sido construída pelos próprios pescadores locais, inspirados na devoção à Nossa Senhora da Conceição da Praia, visto que os moradores precisavam de uma santa para poder cultuá-la em seu próprio bairro. 

Ainda contam que devido à distância do bairro em relação ao centro nos primeiros anos, as pessoas precisavam utilizar barcos para vir participar da Lavagem de Itapuã. Somente nas décadas de 1950 e 1960, com a construção das pontes de Jaguaribe, é que Itapuã passou a ser conectado ao restante de Salvador. Nesse período de isolamento, a economia local girava em torno, especialmente, da baleia, sendo essa a principal fonte de sustento para os pescadores da região.

“É especialmente no século 18 e 19 que a região e suas tradições festivas são lembradas pelos pescadores e, principalmente, por aquelas pessoas que tinham vínculo com as águas, com destaque cada vez maior, ao ponto que, por exemplo, lá no início do século 20, algumas descrições mostravam a relevância de tais feitos”, destacou Rafael Dantas ao BNews.

O pescador, Ednaldo Amorim, ressalta: “O mar é muito misterioso. Às vezes, aparecem coisas para a gente, mas não dá para dizer. Se disser, perde a graça. Só quem está dentro da situação consegue entender. Para mim, viver essas lendas é maravilhoso, são experiências de vida. É essa vivência, a gente vai acumulando no dia a dia e sempre aprendendo mais".

Resistência

Para o líder da Associação de Pescadores de Itapuã, o fato de estar presente na região por tanto tempo é um símbolo de resistência contra as tentativas de requalificação e deslocamento das comunidades.“Nós somos os olhos da marinha. A marinha instituiu as colônias de pescadores no passado para que a gente reportasse a eles o que estava acontecendo, quando tivesse qualquer naufrágio ou alguma outra coisa, e que pudéssemos também ir com os barcos fazer os resgates, porque a marinha fica distante de onde a gente atua. Então, estamos aqui com esse propósito, além do principal, que é produzir o alimento da nossa família e de venda para comunidade. Nós somos resistência por conta de estarmos aqui desde o ano de 1889”, disse Ari.

Ele continua: “Para estar nesse lugar não é fácil, porque a gente vem resistindo desde 1889, e de lá pra cá, já aconteceram muitas requalificações, sempre querendo diminuir os nossos espaços ou querendo relocar a gente de um lugar para outro. Não entendem que aqui é um local estratégico, que entra e sai o barco tranquilamente e que é o lugar que a gente guarda nossos equipamentos”.

O bairro de Itapuã se tornou um local que sintetiza as contradições e os encantos de Salvador. Sua história, marcada por resistências e transformações, continua a movimentar as narrativas dos moradores, nas águas que banham sua costa e nas tradições que ainda persistem no cotidiano de quem ali vive. À medida em que evolui, com o aumento do turismo e das requalificações urbanas, surgem também os desafios de preservar a sua identidade cultural e de atender às demandas da modernidade. 

Nesse cenário, Rafael Dantas reflete sobre o papel do bairro no contexto atual, destacando como as artes, a música e, acima de tudo, o povo de Itapuã, continuam a manter viva a essência de um dos lugares mais representativos da capital baiana. “Hoje, evidentemente, com um outro contexto, com uma outra realidade, um lugar também com encantos, desafios, problemas e outras tantas realidades que fazem parte de Itapuã, da cidade de Salvador e de sua rica história ao longo de todo esse tempo”, disse.

“São as artes, a música, é Caymmi, é Vinícius, são outros tantos, mas especialmente o povo, os habitantes, que destacam a região e as suas belezas de uma forma tão intrínseca a Salvador e suas tradições locais, seja as lavadeiras, seja a própria realidade ligado às dunas, à costa atlântica, ou uma beleza quase que paradisíaca, tão presente naquela região, que fez de Itapuã um lugar tão bonito”, concluiu, Rafael Dantas.

O segundo episódio dessa série sobre Itapuã será publicado na próxima segunda-feira (27) aqui no portal do BNews e irá explorar como o bairro pulsa musicalidade, visto que, habita nesta localidade à beira mar, a bossa nova, os tambores do Malê Debalê, o samba de mar aberto e o canto das Ganhadeiras, sonoridades que coexistem com o arrocha, a seresta e o pagodão baiano. Talvez, passar uma tarde em Itapuã, ao sol que arde em Itapuã, ouvindo o mar de Itapuã, falando de amor em Itapuã, não seja mais possível.

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