Salvador
por Anderson Ramos
Publicado em 17/03/2026, às 04h00
Há dois anos, Matheus Gondim, 34, ganha a vida como motorista de aplicativo. Antes disso, já foi auxiliar contábil, vigilante e vendedor de plano de saúde. Ele trabalha até 40 horas semanais para ganhar uma renda que varia entre 4 a 6 mil reais por mês, dinhiero que ajuda no sustento da sua família, que é composta por sua noiva e mais dois filhos.
Embora veja alguns pontos negativos na função, como o repasse abaixo do esperado pelas corridas, a falta de seguro para acidentes e de auxílio na manutenção do carro, ele vê vantagem em atuar na profissão.
“Antes eu fazia só para complementar a renda, mas percebi que era melhor ficar só como motorista de aplicativo. Trabalhar como motorista de aplicativo me ensinou a ter metas, criar e testar estratégias diferentes e estudar oportunidades de ganhos melhores ao longo do dia”, afirmou.
Matheus é um dos 465 mil trabalhadores que ganham a vida de modo informal em Salvador, número que representa 37,6% de toda a força de trabalho da cidade. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) referente ao ano de 2025, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no mês passado.
Apesar de ser uma quantidade considerável de pessoas, os números são os menores da série histórica, iniciada em 2016. Além disso, Salvador é a 4ª capital com o maior número absoluto de trabalhadores informais, mas quando os números são convertidos em percentuais a cidade ocupa a 10ª maior taxa entre as capitais.
Para a supervisora de disseminação de informações do IBGE na Bahia, Mariana Viveiros, apesar de ainda ser alta, a informalidade registra queda consistente ao longo dos anos, indo na contramão do estado.
“Em Salvador, a informalidade é menor do que no estado como um todo e não está entre as maiores, dentre as capitais. A informalidade está em queda em Salvador, ao contrário do que ocorre no estado como um todo, onde ela aumentou em 2025”, avalia Mariana.
Em 2025, Salvador registrou taxa de desocupação de 8,9%, a menor desde o início da série histórica, em 2012. Apesar da melhora, o índice ainda colocou a capital baiana na 5ª posição entre as maiores taxas de desemprego do país. A cidade deixou de liderar o ranking negativo, posição ocupada em 2024, quando tinha 13,0%, mas ainda ficou atrás de capitais como São Luís, Manaus, Belém e Teresina.
PERDA DE TALENTOS
Foi em busca de uma oportunidade de trabalho melhor que o administrador de empresas Luan Marx, de 35 anos, deixou Salvador para ir morar em São Paulo há pouco mais de um ano.
Em Salvador havia uma defasagem muito grande dos valores remunerados para os trabalhadores da cidade. A gente trabalha muito e recebe muito pouco. Eu vi que em São Paulo a mesma função que eu exercia em Salvador tem uma remuneração muito melhor, quase que o triplo. Então esse foi um dos motivos que me levou a sair de Salvador para buscar novas oportunidades de emprego”, disse o administrador.
A constatação de Luan pode ser vista na pesquisa PNAD, que mostra que a diminuição da informalidade e do desemprego não refletiram na melhora da renda. O rendimento médio dos trabalhadores em Salvador foi de R$ 3.133 em 2025, com alta expressiva de 10,7% em relação ao ano anterior. Apesar do avanço, o valor é o 2º mais baixo entre todas as capitais brasileiras, à frente apenas de São Luís (MA).
DIAGNÓSTICO
“Para que Salvador deixe de ser apenas uma fábrica de talentos para o eixo sudestino, o eixo Rio-São Paulo, e também para uma parte do exterior, o foco precisa mudar na quantidade de vagas para a qualidade e o valor agregado do trabalho desempenhado”, avalia o economista e Presidente do Corecon-Ba (Conselho Regional de Economia da Bahia), Edval Landulfo.
O especialista diz que a maior parte dos empregos gerados em Salvador são do setor de serviços, que geralmente pagam salários mais baixos. Um ponto de virada para este cenário pode ser a atração de empresas de tecnologia.
“Você precisa consolidar o ecossistema de startup e tecnologia, como o Hub Salvador. Empresas de TI permitem salários mais competitivos globalmente. É preciso estimular a economia criativa e audiovisual, é preciso valorizar esse DNA da cidade, atraindo produtoras e estúdios, por exemplo, de games, que buscam um baixo custo operacional local, mas oferecem acima da média. Então isso é de extrema importância”, sugeriu.
Edval Landulfo apontou também que programas de incentivos fiscais condicionados à renda podem surtir efeito. “A Prefeitura de Salvador já possui programas como o Salvador 360 e o Plano de Incentivo Fiscais, o PIF. Então, esse bônus por faixa salarial, você pode oferecer maiores isenções de ISS, ou quem sabe IPTU, para as empresas que comprovem o pagamento de salários acima de determinada média de mercado, por exemplo, ou que contratem profissionais de nível superior para funções estratégicas. Inclusive, você pode designar isso por gênero e raça, mulheres pretas. Dá para fazer um bom trabalho”, indicou.
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