Salvador
por Alex Torres
Publicado em 16/03/2026, às 04h00
Considerado um direito social fundamental e garantido na Constituição Federal, a moradia digna ainda é uma realidade distante para milhares de pessoas. Em Salvador, cerca de 60% da população ainda reside em áreas consideradas precárias, como em encostas de alto risco, palafitas e habitações sem saneamento básico.
Esta é a terceira reportagem da série especial 'Salvador 2026: a cidade que sobrevive'. A segunda publicação foi 'Invisíveis de Salvador: População de rua dispara e vive a batalha diária da fome, violência e abandono'.
De acordo com a Fundação João Pinheiro (FJP), dados coletados entre 2016 e 2019 e recalculados em 2023 indicam a necessidade de mais de 110 mil unidades habitacionais para a capital baiana e também para a Região Metropolitana de Salvador (RMS).
Em contato com a equipe de reportagem do Bnews, o líder comunitário Carlos Souza, do bairro de Nova Constituinte, relatou a realidade da população da região localizada no Subúrbio Ferroviário. Ele explicou que, aos poucos, a comunidade tem conseguido obter melhorias, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
"Não temos escolas públicas suficientes, não temos rede de esgoto em 100% do bairro, temos algumas casas que ainda precisam ser melhoradas e pessoas que continuam morando em condições sub-humanas. Nossa comunidade precisa ser muito melhorada, e nós continuamos nessa cobrança", afirmou.
Morador de São Tomé de Paripe, Edésio Assis também destacou a precariedade da região e, principalmente, o impacto que a falta de estrutura no entorno pode causar também na vida de milhares de jovens na localidade.
"As ruas estão abandonadas, cheias de buracos. Você vê que não tem uma infraestrutura adequada para os moradores. Muitas pessoas pagam IPTU e não veem resultado, não veem qualidade. Não temos uma praça excelente dentro da comunidade, uma praça de futebol", explicou.
Os jovens ficam abandonados. A prefeitura abandonou totalmente a nossa comunidade. Eu não entendo por que agora, quando chega a época da eleição, todo mundo vem procurar os líderes comunitários, todo mundo vem saber, e antes não fazem isso", completou Assis.
O que é considerado habitação precária?
Dentro do que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) classifica como habitação precária, existem moradias com infraestrutura inadequada, construção improvisada, uso de material inadequado e locais sem serviços básicos completos, como residências sem banheiro adequado, sem coleta de lixo, sem água encanada e sem esgotamento sanitário.
Em alguns casos, ainda existem as chamadas 'coabitações forçadas', que são quando duas ou três famílias vivem juntas no mesmo espaço devido à falta de renda para morar separadamente. Essas situações resultam na alta densidade por domicílio, quando mais pessoas vivem além do recomendado por cômodo ou quarto.
Segregação urbana e crescimento imobiliário
Arquiteto e urbanista, Rennan Veloso trouxe um dado importante para retratar a realidade populacional soteropolitana, que tem uma alta proporção em bairros periféricos: a cada dez famílias, quatro vivem em favelas ou aglomerações, sendo muitas vezes ocupações informais e próximas às zonas de risco ambiental, como encostas e áreas sujeitas a alagamentos.
"Historicamente, Salvador tem a segregação entre áreas planejadas e precárias. É muito comum a gente ter nas áreas centrais e na orla o maior investimento em infraestrutura e valorização imobiliária. Já as regiões periféricas, como Subúrbio Ferroviário e bairros populares, concentram as maiores habitações precárias, com infraestruturas insuficientes, e a consequência disso é a saúde, o bem-estar, a desigualdade social e uma urbanização desorganizada muito alta", pontuou.
O contraste mencionado por Veloso tem sido representado também em números. Dados da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-BA), em 2025, revelaram um crescimento de 318,9% em comparação ao ano anterior no lançamento de empreendimentos imobiliários em Salvador.
Em contrapartida, o IBGE — por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), em 2022 — revelou que quase metade das casas na Bahia não possui rede de esgoto, sendo que mais de 770 mil imóveis baianos não têm sequer acesso à água potável.
"Muitas casas sem esgoto. Um sistema muito precário mesmo. Quando chove aqui é terrível, não tem condições nenhuma de ficarmos saindo na rua, porque juntam-se os esgotos entupidos com a água da rua. Fica algo muito feio. A gente não sabe nem como passa, fica no meio do barro", descreveu Assis, de São Tomé de Paripe.
Saneamento básico e impactos na saúde
Somente em 2024, a Bahia registrou mais de 24 mil internações por doenças ligadas à falta de saneamento básico, sendo a maior parte em crianças de até cinco anos, segundo dados divulgados pelo Instituto Trata Brasil. Situações de transmissão feco-oral, como diarreias e hepatite A, além das transmitidas por vetores como o Aedes aegypti, respondem por quase toda a carga hospitalar.
Não se trata de uma análise baseada em achismos, mas de informações reais que apontam a gravidade da precariedade do saneamento básico. O que temos é um nível alarmante de doenças evitáveis e mortes evitáveis associadas diretamente a essa realidade", criticou Rennan Veloso.
A explicação para tamanha desigualdade entre as condições de habitação também foi trazida pelo arquiteto e urbanista: "Desde o início da urbanização brasileira, principalmente na cidade de Salvador, o solo urbano sempre foi tratado como mercadoria e não como direito".
"Áreas planas, bem localizadas e com boas infraestruturas sempre foram reservadas ao mercado formal e às classes de maior renda. As famílias de baixa renda ficaram excluídas desse movimento e foram ocupando onde existia espaço disponível, muitas vezes em encostas íngremes, margens de rio, como as palafitas, e áreas sujeitas a alagamentos", completou.
Dados coletados e disponibilizados pelo DATASUS, do Ministério da Saúde, revelam que apenas Salvador registrou 6.572 mortes por doenças relacionadas ao saneamento inadequado, entre 1996 e 2020. Somente no último ano da coleta, por exemplo, foram 447 vítimas contabilizadas.
Já o Instituto Trata Brasil, que atualizou os números por meio do Painel Saneamento Brasil, informou que a Bahia registrou, em 2023, mais de 1.100 mortes causadas pela falta de saneamento. A estatística representa quase o dobro do segundo estado com mais óbitos — Pernambuco, com 582 vítimas.
O que diz o Poder Público?
Em contato com a equipe de reportagem do Bnews, a Prefeitura de Salvador afirmou que investiu mais de R$ 5 bilhões em infraestrutura nos últimos cinco anos. Diversas áreas teriam sido contempladas, como "recuperação de canais, macrodrenagem, urbanização, mobilidade, novas praças, escolas, dentre outros".
Outro ponto trazido pela gestão municipal são os programas de habitação, como o 'Morar Melhor' e 'Casa Legal', que requalifica moradias e regulariza imóveis, respectivamente. "Para além dos programas, a Prefeitura já entregou mais de 3 mil unidades habitacionais e outras 1.600 estão sendo construídas através do 'Minha Casa, Minha Vida'", completou a nota.
Já o projeto Novo Mané Dendê está na fase final no Subúrbio Ferroviário e beneficia diretamente 10 mil pessoas e outras 35 mil de forma indireta nos bairros da região. A iniciativa prevê melhorias urbanísticas, saneamento e recuperação ambiental na Bacia do Rio Mané Dendê, alcançando cerca de 800 mil metros quadrados.
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