Salvador
por Mariana Bamberg
Publicado em 16/10/2026, às 05h00
O SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) de Salvador completou, em 2026, 20 anos de criação e comemora números como a média de 300 atendimentos por dia e as 62 ambulâncias. Mas outro número já vem sendo cobrado e denunciado por servidores: o déficit de profissionais para os plantões. Segundo apuração da reportagem do BNews, atualmente a equipe conta com 187 técnicos em enfermagem, mas necessita da recomposição de outros 222. Isso significa que o quadro atual não corresponde nem à metade do necessário.
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Há também necessidade de recomposição na equipe de enfermeiros. Atualmente, são 85 profissionais, mas o déficit é de, ao menos, outros 34. Ao todo, entre enfermeiros e tecnicos, faltam 256 profissionais, o equivalente a 48,5% do quadro necessário. A “lacuna operacional” foi apontada pela área técnica da Chefia de Enfermagem do SAMU, em resposta a um pedido da reportagem via Lei de Acesso à Informação (LAI).
No que tange ao déficit de profissionais e à premente necessidade de recomposição, os estudos de dimensionamento, ao considerarem a totalidade das 62 unidades (incluindo as não habilitadas), apontam para uma lacuna operacional”, reconheceu a pasta.
A própria área técnica ressalta que a “recomposição é indispensável para assegurar a cobertura integral das escalas de plantão, a manutenção do Índice de Segurança Técnica (IST) — necessário para cobrir ausências legais, férias e afastamentos — e, primordialmente, a continuidade e segurança da assistência prestada à população”. O setor também afirmou que a recomposição do quadro é acompanhada permanentemente pela gestão do SAMU e que avaliações contínuas e medidas administrativas cabíveis são adotadas para contornar a situação.
As informações foram solicitadas à Secretaria Municipal da Saúde (SMS) em 26 de junho de 2026. Segundo a legislação, a pasta teria prazo inicial de 20 dias corridos, prorrogável por mais dez, mediante justificativa. A resposta, no entanto, só foi enviada nesta quinta-feira (15), cerca de 80 dias após o fim do prazo máximo. Ainda assim, ficaram sem resposta questionamentos sobre a quantidade de ocorrências em que não havia ambulância disponível para despacho, o tempo médio de resposta aos chamados e o número de ocorrências recusadas ou não atendidas.
Como justificativa, a pasta afirmou que o “fornecimento demandaria o acionamento específico da equipe técnica responsável pela gestão e extração de dados do sistema informatizado do serviço. Contudo, tal providência não se enquadra nas obrigações legais da área técnica, nos termos LAI”.
Os dados solicitados seriam utilizados na reportagem especial “Socorro que não chega: investigação revela déficit de equipes e reduções diárias na frota de ambulâncias do Samu de Salvador”, da BNews Premium. Mesmo sem as informações solicitadas via LAI, a reportagem refez as quase duas horas de espera do motociclista Josair Perrone Junior, que morreu enquanto aguardava socorro do SAMU após um acidente de moto. A investigação também revelou equipes desfalcadas, sobrecarga de profissionais e ambulâncias fora de operação por falta de pessoal.
A análise das escalas de junho e julho mostrou que, das 50 unidades de suporte básico (USB) do SAMU, 45 possuem equipes próprias, mas nenhuma consegue permanecer em funcionamento ininterrupto ao longo de todo o mês. Em média, apenas 29 ambulâncias operavam por dia. As demais ficavam desativadas em algum período por falta de profissionais para completar a equipe mínima, formada por um técnico de enfermagem e um condutor socorrista.
O cenário identificado pelo BNews nas escalas de junho e julho é reforçado por um manifesto encaminhado à Secretaria Municipal da Saúde por profissionais de enfermagem do SAMU, com dados referentes a setembro. Segundo o documento, entre os dias 1º e 27 daquele mês, uma média de 23,67 ambulâncias permaneceu desativada diariamente, o equivalente a 38,17% da frota de 62 veículos. Entre as unidades de suporte básico, o percentual de indisponibilidade chegou a 43,41%.
Além dos dados sobre a frota, o manifesto reúne denúncias sobre a composição das equipes de suporte avançado. Em um dos episódios registrados, no dia 16 de setembro, uma ambulância tripulada por médico e condutor, sem enfermeiro, teria sido acionada para transportar um paciente classificado como risco vermelho. A composição mínima dessas unidades exige a presença dos três profissionais.
Em setembro, o Conselho Regional de Enfermagem da Bahia (Coren-BA) também denunciou o funcionamento de ambulâncias de suporte avançado sem enfermeiros. O órgão chegou a notificar o SAMU e cobrou planejamento e dimensionamento adequado da força de trabalho de enfermagem.
O quadro de condutores socorristas também enfrenta déficit, embora menor: são necessários outros três profissionais para recomposição. Um concurso foi aberto em maio deste ano para complementar o quadro, mas não havia vagas para enfermeiros e técnicos em enfermagem.
Essas duas categorias foram contempladas em um concurso público de 2024, que ofereceu apenas seis vagas para enfermeiros e duas para técnicos em enfermagem, todas já convocadas. O quantitativo contrasta com a necessidade de recomposição agora reconhecida pela própria área técnica do SAMU: 34 enfermeiros e 222 técnicos.
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