Salvador

Socorro que não chega: investigação revela déficit de equipes e reduções diárias na frota de ambulâncias do Samu de Salvador

Max Haack/Secom/PMS
Morte de motociclista que esperou por quase 2h por socorro escancara desordem, ambulâncias do Samu desativadas e operação inferior à anunciada  |   Bnews - Divulgação Max Haack/Secom/PMS
Mariana Bamberg

por Mariana Bamberg

Publicado em 12/07/2026, às 07h00



Um acidente em Salvador resultou na morte de Josair Perrone Júnior, de 38 anos, após uma colisão entre sua moto e um ônibus, evidenciando a falha no atendimento do SAMU, que demorou quase duas horas para chegar ao local, mesmo com uma base a apenas 600 metros de distância.

A Prefeitura de Salvador instaurou uma investigação para apurar a demora no atendimento, enquanto a Polícia Civil também abriu um inquérito para investigar as circunstâncias do acidente e a resposta do SAMU, que já enfrentava críticas por sua capacidade operacional reduzida e falta de profissionais.

Profissionais do SAMU relataram que a demora no atendimento não é um caso isolado, mas parte de um problema crônico de sobrecarga e falta de equipes, levando a uma investigação mais ampla sobre a eficiência do serviço, enquanto a gestão municipal defende que a estrutura do SAMU é robusta, mas admite a necessidade de melhorias na operação.

Era por volta das 6h20 de uma segunda-feira atípica em Salvador. Semana de feriado, cidade com movimento reduzido. No cruzamento entre a avenida Manoel Dias e a rua Rio Grande do Sul, o fluxo era estranhamente ainda mais lento. Motoristas diminuíram a velocidade, pedestres paravam para entender o que havia acontecido ali. Quem chegava mais perto percebia, antes de tudo, os sucessivos pedidos de socorro. Ligações incessantes para o 192, solicitando o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), para o motociclista que estava no chão.

Quando o socorro não chega

Josair não foi resgatado a tempo após acidente na região da Pituba (Foto: Redes sociais)
Josair não foi resgatado a tempo após acidente na região da Pituba (Foto: Redes sociais)

Era o segurança Josair Perrone Júnior, de 38 anos. Ele ia para o trabalho quando sua moto colidiu com um ônibus. Sobreviveu. Permanecia, após a batida, respirando, consciente, conversando; chegou até a colocar um papelão sob o corpo para proteger do asfalto. Vendo os minutos passarem, Josair pedia a todo tempo para que retirassem a moto que acabou caindo sobre ele. Quem acompanhava, no entanto, preferia aguardar a chegada do socorro, com receio de que qualquer movimento agravasse os ferimentos. O problema é que o SAMU não chegou. Pelo menos, não a tempo de salvar Josair.

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O atendimento só chegou à Avenida Manoel Dias por volta das 8h, mesmo com uma base do SAMU a 600 metros dali. Segundo testemunhas, um dos profissionais de atendimento mostrou que só foi acionado pela central por volta das 7h40. 

A Prefeitura de Salvador ainda não reconhece se houve uma demora além do normal no caso de Josair. Afirma apenas que “há a necessidade de aprofundamento da avaliação sobre o tempo de resposta operacional da ocorrência”. Foi instaurado pela Secretaria Municipal da Saúde um processo de apuração administrativa, que ainda está em fase de coleta de informações sobre o atendimento, a recepção do chamado, a regulação e gestão dos recursos médicos. Enquanto isso, dois profissionais da etapa de atendimento pré-hospitalar móvel já foram afastados de forma cautelar.

Mas não é só a gestão municipal que investiga o caso. A Polícia Civil também instaurou um inquérito para apurar as circunstâncias do acidente e a condução do atendimento prestado. 

Responsabilização

Embora a apuração sobre o caso ainda esteja em andamento, uma eventual responsabilização do município não está descartada. Segundo a advogada Flávia de Mélo, da Comissão de Direito à Saúde da OAB, caso fique comprovado que houve uma ineficiência e que essa ineficiência contribuiu para o desfecho final, pode sim haver uma responsabilização, tanto na esfera cível quanto na criminal.

Houve a ligação, houve o registro do fato, houve a demora e houve o resultado [...] A responsabilidade do poder público, neste caso, é objetiva. Não é subjetiva, não se avalia aqui a intenção. Se o Samu é uma prestação de serviço ofertada ao cidadão e existe uma ineficiência dessa prestação, ele tem que ser responsabilizado”, analisa.


Mesmo sem a conclusão do inquérito e sem o reconhecimento municipal de que houve demora, a espera de quase duas horas enfrentada por Josair levantou uma pergunta que já ultrapassa aquele cruzamento da Manoel Dias: o não atendimento foi uma falha excepcional ou retrato de um problema mais profundo no funcionamento do SAMU de Salvador?

A possível resposta levou a uma investigação maior por parte da BNews Premium. Documentos, relatos de profissionais e um histórico de denúncias mostram que as discussões sobre equipes desfalcadas e sobrecarga nas funções no SAMU de Salvador antecedem o caso de Josair e se repetem há anos.

A BNews Premium traz uma série de reportagens especiais sobre denúncias, investigações e apurações exclusivas, sempre aos domingos. Clique aqui, confira os outros materiais e compartilhe.

Samu
Serviço do Samu é alvo de críticas e número de servidores é motivo de questionamentos (Foto: Paulo Almeira/Ascom SMS)

Tragédia anunciada

Dentro do SAMU, entre os servidores ouvidos pela reportagem, há uma percepção praticamente unânime: o que aconteceu com Josair já era uma tragédia anunciada. Segundo esses profissionais, a demora enfrentada pelo segurança não seria uma exceção. A espera de 2h ou até mais para ocorrências classificadas como amarelas (consideradas na triagem como casos urgentes, mas sem risco iminente de morte) é frequente, relatam servidores que preferiram não se identificar por receio de represália.  

A gente já imaginava que pudesse ocorrer esse tipo de situação, porque está acontecendo sempre de ficar ocorrência amarela esperando na tela 1h, 2h, muitas vezes por falta de ambulância disponível ou porque essas ocorrências não são priorizadas nesses horários críticos. Claro que esta espera pode colocar em risco a pessoa, porque as ocorrências evoluem muito. Aquele paciente que era amarelo no início, como o caso de Josair, pode virar vermelho e depois ir a óbito”, relatou uma servidora do SAMU. 

Estrutura robusta, operação reduzida

Os relatos apontam que as causas dessa perda de capacidade do serviço passam longe de problemas de estrutura. Isso é reconhecido pelos servidores e pela própria gestão municipal, que faz questão de destacar que a estrutura soteropolitana é uma das maiores quando comparada à de outras capitais de porte semelhante, o que faz jus aos investimentos. Só neste ano, o município já recebeu para custeio do serviço R$ 11,3 milhões do Ministério da Saúde, que é responsável por metade das despesas mensais do 192, o restante deve ser dividido igualmente entre estado e município, apesar do gerenciamento ser da prefeitura.  No ano passado, foram R$ 22,7 milhões de verba da União repassados para o Samu de Salvador.

O município tem hoje ao menos 13 bases fixas descentralizadas e quatro pontos de apoio. Mas o que diferencia são as 62 ambulâncias a serviço do Samu: 12 delas são unidades de suporte avançado e 50 de suporte básico, além de motolâncias e ambulanchas. Essa é uma média, inclusive, superior à recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas não é só a quantidade de ambulâncias a referência para avaliação do serviço. No Brasil, um dos principais indicadores é o tempo de resposta, ou seja, o intervalo entre o início da chamada telefônica solicitando socorro e a chegada da viatura ao local da ocorrência. Foi justamente nesse indicador que o caso de Josair chamou atenção: cerca de duas horas entre a primeira ligação e a equipe chegar ao local, mesmo com dezenas de ambulâncias espalhadas pela cidade.

Talvez, no caso de Josair, a ambulância que deveria ter sido enviada nem tenha começado o dia em circulação. Segundo profissionais ouvidos pela reportagem, uma das principais dificuldades enfrentadas atualmente pelo SAMU é colocar toda a frota em operação. Não por falta de demanda, mas por falta de equipes completas para operar parte delas.

De 50 ambulâncias básicas, tem dia que 20 estão desativadas por falta de profissional, principalmente técnico de enfermagem. Hoje a gente funciona a maior parte do serviço em escala extra para suprir o déficit e nem assim consegue, principalmente em feriado, final de semana. Já teve dia em que 50% da frota estava desativada”, relata outra servidora sob anonimato.
Samu
Médicos do Samu relatam número de ambulâncias insuficiente para atendimento na capital baiana (Foto: Ascom/PMSL)

Escala que não fecha nem no papel

Os relatos dos servidores encontram respaldo em documentos internos obtidos pela reportagem. A análise das escalas dos técnicos de enfermagem das unidades de suporte básico (USBs) referentes aos meses de junho e julho revela que parte da frota permanece fora de operação diariamente por falta de equipes completas.

A própria organização das escalas ajuda a dimensionar o problema. Das 50 unidades de suporte básico do Samu, cinco são classificadas como complementares. Elas não possuem equipes fixas e dependem da adesão de profissionais a plantões extras para funcionar.

Uma frota menor do que parece

As outras 45, essas sim têm equipes próprias, mas nenhuma delas consegue permanecer em funcionamento ininterrupto ao longo de todo o mês. A análise das escalas mostra que, em média, apenas 29 delas operam por dia. As demais ficam desativadas em algum período por ausência de profissionais para completar a equipe mínima. O Ministério da Saúde exige que cada USB tenha na tripulação pelo menos um técnico de enfermagem e um condutor socorrista para funcionar.

O caso mais extremo é o da unidade SM18, que fica no ponto de apoio da Avenida San Martin. Ela tem apenas três técnicos na equipe, dois deles com restrição temporária. A previsão é que opere em apenas quatro dias durante todo o mês de julho. A SC55, da base de São Cristóvão, não fica muito atrás. Com dois profissionais de licença-prêmio, dois de férias e um remanejado para outro setor, ela terá à disposição neste mês apenas um técnico. Isso significa que ficará desativada em 26 dias.

Desfalque previsto

A redução da capacidade operacional aparece ao longo de toda a escala. No próximo dia 13 de julho, por exemplo, apenas 23 das 45 unidades básicas com equipes fixas estão previstas para funcionar durante o plantão. Ou seja, quase metade da frota estará indisponível naquele dia.

Quatro semanas antes, no dia 22 de junho, quando aconteceu o acidente com Josair, o cenário era semelhante. Apenas 28 USBs fixas estavam ativadas, um corte de 37% na capacidade operacional. No ponto de apoio da Pituba, base mais próxima ao local do acidente, uma das duas ambulâncias fixas estava desativada naquele mesmo dia. 

Poucos minutos antes da colisão envolvendo Josair, outro motociclista sofreu um acidente com um ônibus no bairro do Stiep, a poucos quilômetros dali. O Samu foi acionado, chegou ao local e constatou o óbito da vítima. Embora não seja possível estabelecer relação entre as duas ocorrências, elas aconteceram em um momento em que a escala indica capacidade operacional reduzida na região. 

Nada é tão ruim que não possa piorar

A situação pode ser ainda pior. A escala de julho analisada pela reportagem ainda contabiliza 18 técnicos de enfermagem que estão entre os 32 desligados pela Secretaria de Saúde em 1º de julho. Ou seja, a previsão de funcionamento registrada no documento pode estar acima da capacidade real de operação do Samu neste mês.

Todos os profissionais desligados neste mês tinham como vínculo o Regime Especial de Direito Administrativo (Reda) para enfrentamento ao coronavírus. Em 2020, A Secretaria Municipal de Saúde, à época comandada pelo agora deputado federal Léo Prates, lançou o edital do Processo Seletivo para a contratação temporária de centenas de técnicos de enfermagem que atuariam no combate à pandemia.

O contrato de trabalho era por tempo determinado, com período de até 90 dias, podendo ser prorrogado pelo mesmo período. Acontece que, seis anos e quatro secretários depois, ainda há contratos Reda-Covid sendo prorrogados e sustentando parte do funcionamento do serviço. Segundo o Portal da Transparência da gestão municipal, só o Samu tem 89 técnicos com esse tipo de vínculo, considerado frágil pelos servidores, afinal, como aconteceu com os desligados no início deste mês, a rescisão contratual pode acontecer a qualquer momento.

Bruno Reis
Sob gestão de Bruno Reis (União Brasil), Samu enfrenta crise e déficit de servidores (Foto: Betto Jr./Secom/PMS)

Diagnóstico antigo

A visão é compartilhada pelo Sindicato dos Servidores da Prefeitura de Salvador (Sindseps), que vem cobrando à secretaria dados sobre o déficit de profissionais e as escalas extras cumpridas mensalmente. Enfermeira e diretora da entidade, Lília Cordeiro conta que, em manifestação oficial enviada ao Sindseps, a Secretaria de Saúde já reconheceu o déficit, em especial de profissionais da enfermagem, e o impacto disso na formação das equipes mínimas para o funcionamento das ambulâncias.

Ao todo, atuam no serviço 167 médicos e 497 enfermeiros, divididos em escalas de 24h de trabalho por 72h ou 96h de descanso, conforme o tipo de vínculo. Eles são imprescindíveis para a operação das 12 unidades de suporte avançado (USA). Enquanto as unidades básicas precisam de pelo menos um condutor e um técnico de enfermagem, as USAs devem ter, no mínimo, um médico e um enfermeiro, além do motorista.

Diante dessa necessidade reconhecida pela própria Prefeitura, o Sindseps tem buscado todos os anos em sua pauta reivindicatória a realização de concurso público, além da convocação dos aprovados no concurso realizado em 2024, em quantidade muito maior que as ofertadas no edital, para suprir as demandas represadas da saúde pública municipal", afirma a vice-presidente.

Lília cita a necessidade de uma “quantidade muito maior que as ofertadas no edital”, porque o concurso mais recente, de 2024, previa para o Samu vagas para 54 médicos, mas apenas 6 para enfermeiros e 2 para técnicos em enfermagem. Os oito já foram convocados.

“E esse déficit hoje gera um desgaste na equipe, porque o número de plantão extra oferecido pelo SAMU é exorbitante. Essas pessoas trabalham, muitas vezes, duas a três vezes mais que o normal para conseguir atender à demanda do município e, ainda assim, estão operando no mínimo. A gente teve esse caso de Josair, mas isso deve ter impactado já em outros casos também”, complementa a vice-presidente do sindicato.

Procurada pela reportagem, a SMS justifica que a manutenção dos vínculos Reda-Covid “tem como objetivo assegurar a continuidade da assistência prestada à população enquanto a Secretaria Municipal da Saúde conduz os procedimentos administrativos relacionados ao provimento definitivo dos cargos públicos destinados ao serviço”. Afirma ainda que a substituição dos contratos temporários ocorrerá de forma planejada.

Ambulância-Uber

O déficit de profissionais, porém, não é o único fator apontado por quem vive o Samu de Salvador por dentro para explicar a redução da capacidade de resposta do serviço. Mesmo quando as equipes conseguem ser completas, parte das ambulâncias deixa de estar disponível para ocorrências de urgência porque há uma outra função que vem, segundo os servidores, crescendo em demanda e prioridade. É o chamado transporte inter-hospitalar, previsto inclusive no decreto municipal que regulamentou o serviço em 2005.

Médicos
Sindicato liga o alerta para condições de trabalho de médicos e enfermeiros do Samu (Foto: Jefferson Peixoto/Secom/PMS)

A vice-presidente do Sindseps relata como tem funcionado essa atividade na prática:  “a equipe com a ambulância que está ali para atender uma situação de urgência e emergência faz o transporte de um paciente que está em uma UPA e fica por 3h, 4h ou mais parada na porta do hospital, esperando ele fazer o exame para levá-lo de volta à unidade de referência. Isso acontece inclusive em UPAs que são terceirizadas no município, que deveriam assumir esse serviço sem causar essa interrupção dessa equipe”, conta Lília.

Servidores ouvidos pela reportagem denunciam que extraoficialmente esse tipo de serviço é, inclusive, priorizado diante de ocorrências classificadas como amarelas. “Esse é o protocolo, mas claro que nada é explícito ou escrito”, diz uma das fontes ouvidas. E complementa: “Tem casos em que ficamos esperando a realização do exame por 3h e depois ainda deixamos o paciente em casa, como se fosse um Uber. Isso não é papel do Samu”.

O que diz a gestão

Em resposta à BNews Premium, a SMS reforçou que os transportes inter-hospitalares e para realização de exames ou procedimentos integram as atribuições do SAMU, desde que observados os critérios da regulação médica, a indicação clínica e a disponibilidade operacional do serviço, em conformidade com a legislação vigente. Garantiu também que o serviço atua mediante autorização da Central de Regulação Médica das Urgências, sempre com prioridade para o atendimento das ocorrências de urgência e emergência acionadas pelo 192.

Samu
Secretaria evita falar em déficit e diz que Salvador conta com mil profissionais atuando em serviço (Foto: Max Haack/Secom/PMS)

A pasta ainda foi questionada sobre o déficit de profissionais, mas não confirmou nem negou. Disse apenas que o serviço conta com cerca de 1.000 profissionais e “é uma referência nacional na assistência pré-hospitalar de urgência e emergência".

Segundo a SMS, das 62 ambulâncias do serviço, apenas 41 estão habilitadas pelo Ministério da Saúde. O restante aguarda a habilitação. O quadro de profissionais, de acordo com a secretaria, é compatível com a operação das ambulâncias atualmente habilitadas.

Vale destacar, no entanto, que, nas escalas obtidas pela reportagem, todas as 45 USBs fixas tinham plantões programados para pelo menos quatro dias dos meses de junho e julho. 

A BNews Premium também questionou se a secretaria confirma que ambulâncias deixam de operar em determinados plantões por falta de profissionais para compor a equipe. Em resposta, a pasta afirmou que mantém monitoramento permanente de sua operação e adota, sempre que necessário, medidas operacionais para assegurar a continuidade da assistência prestada à população”. Segundo a SMS, “eventuais intercorrências” relacionadas à composição das equipes podem ocorrer “de forma pontual” e são “gerenciadas pela coordenação do serviço, sem caracterizar déficit estrutural de profissionais ou comprometimento da assistência”.

Classificação Indicativa: Livre

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