Saúde

Descubra por que há casos em que as "canetas emagrecedoras” não funcionam

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Resposta desigual, efeitos colaterais e custo-benefício expõem os limites desses medicamentos no tratamento da obesidade  |   Bnews - Divulgação Foto: Ilustrativa / FreePik
Cibele Gentil

por Cibele Gentil

Publicado em 28/04/2026, às 13h57



A quebra da patente da semaglutida, em março, aumentou a expectativa em quem busca por tratamento para a obesidade. Isso porque a ideia é que a liberação traga alternativas mais acessíveis das chamadas canetas antiobesidade ou “emagrecedoras”.

No entanto, o uso desses medicamentos não é garantia de sucesso no tratamento. Os efeitos desses fármacos na perda de peso não são uniformes e nem sempre a resposta do organismo vem conforme esperado.

Alguns levantamentos trazem evidências de que um, em cada dez pacientes, não atinge o peso esperado nos primeiros meses de uso destas substâncias. O percentual de não resposta, no entanto, varia na literatura científica.

Pesquisas

No ensaio clínico STEP 1, publicado em 2021 no The New England Journal of Medicine, cerca de 14% dos participantes tratados com semaglutida não perderam ao menos 5% do peso corporal. Um outro estudo internacional, o SURMOUNT-1, que avaliou a tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro), verificou uma taxa de não resposta de 9,1% entre os participantes que receberam a dose de 15 mg. Nas dosagens de 10 mg e 5 mg, os percentuais foram de 11,1% e 14,9%, respectivamente.

Segundo especialistas, assim como em outros tratamentos, isso é esperado. Conforme afirmou o endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita, ao portal CNN Saúde, “cada pessoa responde de um jeito ao medicamento. A gente pode dizer que 5% a 10% dos pacientes não têm uma boa resposta a esse tipo de tratamento.”

A resposta também depende do ajuste progressivo da dose. A estratégia é usada para reduzir efeitos colaterais e melhorar a tolerância. Em alguns casos, é necessário recuar temporariamente ou avançar mais lentamente.

Por conta disso, o paciente não deve interromper o uso por conta própria. O acompanhamento médico deve ser mantido para avaliar a estratégia e sustentar o peso perdido a longo prazo.

Por trás da não resposta

Os casos que não respondem bem ao tratamento raramente têm uma única causa. A literatura aponta uma combinação de fatores biológicos, clínicos e comportamentais que ajudam a explicar por que parte dos pacientes não atinge os resultados esperados. “Na prática clínica, pacientes com diabetes costumam ter uma resposta pior em termos de perda de peso do que pessoas sem diabetes, talvez por causa da maior resistência à insulina”, especula Rosenbaum.

A dose é outro ponto importante. Segundo o endocrinologista, “em geral, a dose é aumentada aos poucos para melhorar a tolerância. Mas muitos pacientes apresentam mais efeitos colaterais nesse processo e acabam desistindo da medicação”. O médico explica que, nesses casos, pode ser necessário voltar temporariamente à dose anterior ou avançar mais lentamente.

Outro fator é a farmacocinética, ou seja, a forma como o organismo absorve, distribui e metaboliza o medicamento. Em estudo de 2021, publicado na Cell Reports Medicine, pesquisadores mostraram que a resposta clínica à semaglutida depende sobretudo dos níveis circulantes da droga no sangue, e não da via de administração, oral ou injetável.

O uso de outros medicamentos também pode interferir. É recomendável reavaliar fármacos que favoreçam ganho de peso e, quando possível, substituí-los por alternativas neutras ou que ajudem na perda. É o caso, por exemplo, da insulina, antidepressivos, antipsicóticos, anticonvulsivantes, glicocorticoides e contraceptivos injetáveis.

Há ainda um possível componente genético nessa variabilidade. Alguns estudos sugerem que diferenças genéticas podem influenciar tanto a eficácia quanto os efeitos colaterais. Ao não atingir a perda de peso esperada, a primeira medida é revisar a abordagem terapêutica.

Outros fatores

Em paralelo, é preciso avaliar fatores clínicos e comportamentais que podem atrapalhar a resposta. O médico alerta para a observação da dieta, consumo de álcool, qualidade do sono, estresse, comorbidades e o uso de outros medicamentos associados ao ganho de peso.

“Quando a gente se alimenta, há liberação de hormônios ligados a saciedade e redução do apetite. Mas alguns pacientes não têm essa resposta, e o impulso para comer pode estar mais relacionado a fatores emocionais, chamados de hedônicos”, afirma Rosenbaum. “Esses indivíduos, muitas vezes, não respondem tão bem.”

Quando o tratamento é considerado eficaz, a orientação é mantê-lo, com acompanhamento periódico de segurança e estratégias para sustentar a perda de peso no longo prazo. Já quando a resposta é insuficiente, a estratégia pode ser ajustada com reforço das mudanças de estilo de vida, refinamento da dose ou troca do medicamento.

Classificação Indicativa: Livre

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