Saúde

Especialistas e mães revelam os benefícios da amamentação prolongada e os desafios enfrentados

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A amamentação não é apenas nutrição; é um ato de amor que constrói memórias e vínculos afetivos duradouros entre mãe e filho.  |   Bnews - Divulgação Ilustrativa/Freepik
Juliana Barbosa

por Juliana Barbosa

juliana.barbosa@bnews.com.br

Publicado em 18/08/2025, às 06h00



Agosto é o mês dedicado à conscientização sobre a importância do aleitamento materno, e a campanha Agosto Dourado reforça não apenas os seis meses de amamentação exclusiva recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), mas também o incentivo para que mães mantenham o ato até, no mínimo, os dois anos, e, se desejarem, por mais tempo.

O BNews conversou com especialistas e mães que viveram a experiência da amamentação prolongada para entender os benefícios, os desafios e o papel do apoio social. 

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O vínculo que vai além do alimento 

Para Luani Oliveira, 32 anos, atendente da Central de Relacionamento do SENAI Bahia, mãe de Laura, amamentar após os dois anos sempre foi uma escolha consciente. 

"Mesmo depois dos dois anos, a amamentação não é só alimento, mas acolhimento, segurança e conexão", conta. Ela revela que, embora receba alguns “pitacos”, teve o privilégio de contar com apoio.

Reprodução: Arquivo Pessoal
Luani amamenta a filha Laura, de dois anos. Reprodução: Arquivo Pessoal

Hoje, a filha mama para dormir, durante a noite e em momentos de insegurança:

"Sempre tem espaço para o 'tete'. Nos dias cansativos, penso em desmamar, mas percebo que ainda é importante para ela. Quero que o fim seja natural, no tempo dela". 

Já Marina de Luca, mobilizadora no Fashion Revolution Brasil, amamentou a filha Iara até os dois anos e meio — hoje, ela tem quatro. "Era o maior tesouro que eu podia dar, algo que vinha do meu corpo", lembra.

A amamentação, para Marina, também foi essencial para lidar com o desafio de se desprender gradativamente da filha. Apesar do apoio da rede de amigas e familiares, o desmame foi difícil. "Foram nove meses de preparação, muita conversa e acolhimento. Ela chorou no início, mas seguimos firmes. Até hoje ela pede para ver meu peito e lembra desses momentos". 

A pressão social e o peso do julgamento 

A psicóloga perinatal Rafaela Lyra, mãe de Arthur, explica que a amamentação prolongada não é apenas um ato de nutrição, mas também uma experiência emocional profunda para mãe e filho:

"O contato pele a pele, a troca de olhares, a interação entre a díade fortalecem esse vínculo. Para a mãe, há uma sensação de bem-estar, de estar oferecendo algo valioso e único, o que aumenta a autoconfiança no maternar", afirma.

Ela destaca que esses momentos funcionam como pausas necessárias na rotina exaustiva da maternidade, favorecendo atenção plena e conexão emocional.

"Para o bebê, é muito mais do que alimentar-se. É sentir acolhimento, segurança e regulação emocional. É um espaço seguro, que contribui para o desenvolvimento socioemocional e para a construção de um apego seguro", explica.

Ela reforça que o vínculo criado pela amamentação prolongada fortalece a autonomia da criança. "Crianças que crescem em relações seguras tendem a explorar o mundo com mais confiança". 

A indústria das fórmulas e o impacto na decisão das mães 

A OMS e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) alertam para a influência do marketing de fórmulas infantis na redução das taxas de amamentação. De acordo com um relatório da OMS de 2023, a publicidade agressiva, muitas vezes disfarçada de orientação médica, induz famílias a substituir o leite materno por fórmulas antes do tempo recomendado. Isso pode comprometer a saúde infantil, já que o leite materno continua sendo fonte de nutrientes, anticorpos e enzimas protetoras mesmo após os dois anos. 

A SBP reforça que o desmame não deve ocorrer por pressão externa, mas por decisão conjunta da mãe e da criança, com acompanhamento profissional quando necessário. 

Benefícios fonoaudiológicos e nutricionais 

A fonoaudióloga  e consultora de amamentação Leila Bomfim reforça que a amamentação prolongada vai muito além do aspecto nutricional. "O ato de sugar no peito exige um trabalho muscular intenso de língua, lábios e mandíbula, fortalecendo essas estruturas para funções como mastigação, deglutição e fala", explica.

Ela acrescenta que a sucção correta ajuda na respiração nasal, prevenindo problemas como ronco e apneia do sono.

  "Quando a criança mama no peito, a língua se posiciona de forma adequada e o céu da boca se desenvolve com o formato ideal. Isso reduz a chance de desalinhamentos dentários e, consequentemente, diminui a necessidade de uso de aparelhos ortodônticos no futuro", completa. 

Além disso, Leila lembra que a amamentação também é um momento rico de interação, no qual a criança recebe estímulos auditivos, visuais e emocionais. "O contato olho no olho, a troca de sons e palavras durante a mamada favorecem o desenvolvimento da linguagem e a comunicação precoce". 

Para a nutricionista materno-infantil Lorena Menezes, o leite materno, mesmo após os dois anos, continua rico em proteínas, gorduras boas, vitaminas e minerais. "Ele não vira água", reforça.

No entanto, alerta para o equilíbrio: "Se a criança mama em excesso antes das refeições, pode reduzir o apetite e comprometer a alimentação sólida". Ela ressalta ainda que a amamentação prolongada, aliada a uma dieta equilibrada e estilo de vida ativo, ajuda a reduzir o risco de obesidade infantil e na vida adulta. 

Mais do que alimento, um ato de conexão 

A amamentação prolongada ainda é cercada de mitos e julgamentos, mas, como reforçam especialistas e mães, trata-se de uma escolha amparada por evidências científicas e por recomendações de instituições como a OMS e a Sociedade Brasileira de Pediatria. É um gesto que nutre o corpo e também o afeto, construindo memórias, vínculos e segurança emocional que podem acompanhar a criança por toda a vida. 

Sobre o pitacos e preconceitos, a psicóloga Rafaela Lyra lembra: "Muitos julgamentos partem do desconhecimento técnico científico. Isso pode gerar impactos emocionais negativos, como culpa, insegurança, ansiedade e até levar a um desmame precoce, abrupto e não planejado".

Ela reforça que o apoio e a informação de qualidade são fundamentais para que a mãe se sinta confiante em sua decisão.

E, como lembra a nutricionista materno-infantil Lorena Menezes:

"o desmame não é uma obrigação social, é um processo entre você e a criança". 

Classificação Indicativa: Livre

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