Economia & Mercado
por Bruna Rocha
Publicado em 31/08/2025, às 07h00
De piadas a coleções de memes sobre ansiedade, burnout e depressão, o humor nas redes sociais transforma em riso uma dor que, na realidade, afasta milhares de trabalhadores de suas funções. Dados do Ministério da Previdência Social (MPS), obtidos com exclusividade pela BNews Premium, revelam que mais de 30 mil pessoas receberam licenças médicas por transtornos mentais na Bahia nos últimos quatro anos. O estado lidera o ranking do Nordeste. Os dados ainda apontam que afastamentos por questões mentais geram perda de mais de bilhões para economia global.
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Conforme os números compilados pelo MPS, a ansiedade e depressão estão entre as principais enfermidades que mais afastam trabalhadores no estado. Só a primeira foi responsável por mais de 10 mil afastamentos entre 2021 e 2024. No ano passado, a Bahia registrou o cenário mais alarmante, o CID41 -código que corresponde à ansiedade- atingiu mais de 4 mil profissionais em 2024, o que representa 40% de todos os afastamentos por questões relativas à saúde mental últimos quatro anos.
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Na série histórica, 2024 aparece como o ano com maior número de afastamentos previdenciários no estado baiano. Em 2021, foram registrados 5.737 casos, e esse total quase triplicou em apenas três anos, alcançando 14.065 licenças médicas por problemas psicológicos no ano passado.
Os dados do Ministério da Previdência também revelam que a Bahia lidera o ranking de afastamentos médicos na região Nordeste, com 34.026 casos. Em seguida, aparecem Ceará (28.753 mil) e Pernambuco (28.550 mil). No total, o Nordeste registrou mais de 127 mil afastamentos por doenças mentais.
Em nível nacional, os números do MPS mostram que somente em 2024 foram registrados 3,5 milhões de afastamentos previdenciários no INSS por motivo de doenças. Desse total, mais de 470 mil estiveram relacionados a questões de saúde mental. Em comparação com 2023, houve um aumento de 68% nos pedidos, passando de 283 mil para 472 mil benefícios concedidos por esse motivo.
À BNews Premium, o gestor regional do Programa Trabalho Seguro do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da Bahia (TRT-5), Luís Carneiro, destacou quais são as profissões mais associadas ao adoecimento mental dos trabalhadores. Entre elas estão: telemarketing, educação (especialmente professores), saúde (com destaque para a enfermagem), transporte (motoristas de ônibus), segurança pública (policiais e agentes de trânsito) e comunicação (jornalistas).
Nessas áreas, o risco de burnout e outros transtornos é maior devido à pressão constante, ao contato intenso com o público e à sobrecarga de trabalho”, explica o desembargador à reportagem.
Uma dessas profissionais é Maria, nome fictício para preservar a identidade da pessoa, de 30 anos, professora da rede estadual. Em entrevista à BNews Premium, ela contou que recebeu diagnóstico psiquiátrico de ansiedade, depressão e burnout, o que levou ao afastamento no ano passado.
Maria, atua na rede estadual há 18 anos e trabalha na área de letras com alunos acima de 15 anos. Há nove meses foi “parar no hospital psiquiátrico” e entrou em licença médica da instituição de ensino.
Eu tive a ansiedade, depois eu tive o burnout e por último foi a depressão e foram as exigências por parte da minha chefia junto aos ambiente de trabalho que contribuíram para esse quadro”.
A professora destaca que, em muitos momentos, principalmente após a pandemia, aumentou consideravelmente a necessidade dos alunos de conversar sobre suas relações interpessoais no intervalo ou após as aulas. Ela relata que chegou a presenciar um aluno tentando tirar a própria vida. Em entrevista à reportagem, ela afirmou ainda que, ao marcar consultas médicas, sofreu assédio por parte da gestão da instituição.

“Durante as aulas, comecei a sentir uma tristeza muito grande, com vontade de chorar, e cheguei a chorar várias vezes na sala. Percebi que a direção da escola não se importava com essas questões, e isso me doía muito. Vi que, enquanto os professores davam o melhor de si, a gestão exigia ainda mais”, lembra a profissional.
Quando precisávamos ir ao médico, já éramos notificados. Nos diziam que o dia da consulta não era dia de aula, era dia de folga, mas mesmo assim tínhamos que preparar aulas, elaborar atividades e corrigir muito material em casa, na prática, nunca temos um verdadeiro dia de folga”, narra.
Maria também contou à BNews Premium, que já ouviu repetida vezes que dia de aula é dia do professor estar presente, mas para ela isso ignora a necessidade de cuidar da saúde e do bem-estar.
“Há uma pressão constante, a mensagem é clara, ‘se você não gosta de trabalhar aqui, pode sair, pois sempre haverá alguém pronto para ocupar seu lugar", lembra a professora sobre um dos discursos que ouviu da gestão da instituição de ensino. Hoje, a profissional desabafa que, há um mês, tenta contato com a diretoria do colégio, mas não recebe retorno. “Sinto como se não fosse mais útil”.
A ausência de um ambiente de trabalho saudável eleva os casos de adoecimento e gera prejuízos financeiros expressivos. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão e a ansiedade provocam a perda de R$ 12 bilhões de dias de trabalho, com impacto econômico estimado em até US$ 1 trilhão (o equivalente a mais de R$ 5 trilhões na cotação atual).
No recorte por profissões e ocupações, os benefícios por incapacidade temporária ligados à saúde mental mais que dobraram nos últimos dois anos, saltando de 201 mil em 2022 para 472 mil em 2024, o que representa um aumento de 134%.
Entre os afastamentos acidentários, os principais motivos foram reações ao estresse (28,6%), ansiedade (27,4%), episódios depressivos (25,1%) e depressão recorrente (8,46%). Já entre os afastamentos em geral, destacaram-se episódios depressivos (25,6%), ansiedade (20,9%) e depressão recorrente (12,0%).
Segundo o desembargador do TRT-5 Luís Carneiro, o grupo mais afetado por problemas mentais são mulheres, “devido ao acúmulo de funções, e entre jovens trabalhadores, especialmente nos setores de teleatendimento e tecnologia”.
Como medida para conter o avanço de ambientes insalubres e reduzir os impactos econômicos, a Norma Regulamentadora 1 (NR-1), atualizada em 2024 e com vigência a partir de maio de 2026, passa a exigir que as empresas adotem métodos para diminuir a insalubridade no ambiente de trabalho. Inicialmente, a medida estava prevista para começar a ser válida neste ano, mas acabou prorrogada.
A alteração na norma obriga as empresas a adotar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), incluindo os riscos psicossociais. Na prática, isso significa que o empregador deve identificar fatores que possam gerar adoecimento mental e implementar ações preventivas efetivas.
A promoção de um ambiente laboral mais seguro e sadio é fundamental para qualidade de vida das trabalhadoras e dos trabalhadores, de modo que as alterações na NR-1 trazem importantes avanços para as relações sociais”, destaca o desembargador.
Com a vigência das alterações da norma, a fiscalização caberá ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e ao Ministério Público do Trabalho (MPT), além de sindicatos e trabalhadores, que também poderão denunciar irregularidades.
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