Economia & Mercado
Publicado em 17/09/2026, às 11h10 - Atualizado às 11h14 Divulgação / PC-BA Redação Bnews
Relógios de luxo estão entre os bens apreendidos pela Polícia Civil nesta quinta-feira (17), durante a Operação Valor Venal, que investiga uma fraude no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) em Salvador.
A investigação também identificou uma ocultação patrimonial superior a R$ 1,2 bilhão, considerando a diferença entre os valores reais dos imóveis e aqueles registrados no sistema da Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz) após as alterações investigadas.
Ao todo, quatro pessoas foram presas e quatro tiveram o afastamento do serviço público determinado pela Justiça. A operação também cumpriu mandados de busca, inclusive na sede da Sefaz, e resultou na determinação de bloqueio de até R$ 20 milhões em bens e valores dos investigados.
Vários relógios de luxo foram apreendidos durante o cumprimento dos mandados da Operação Valor Venal. Os bens estão entre os materiais recolhidos pela Polícia Civil no decorrer da investigação.
A operação também apreendeu equipamentos, dispositivos de armazenamento de dados e outros materiais. Na sede da Sefaz, os policiais estiveram no setor onde trabalhavam uma servidora investigada e uma ex-funcionária terceirizada. O Departamento de Polícia Técnica (DPT) deu apoio à coleta e à extração dos dados.
Segundo as investigações, entre dezembro de 2024 e janeiro de 2026, cerca de 700 imóveis foram beneficiados por alterações consideradas indevidas no cadastro imobiliário municipal.
A ocultação patrimonial superior a R$ 1,2 bilhão corresponde, segundo a apuração, à diferença entre os valores reais dos imóveis e aqueles que passaram a constar no sistema da Sefaz após as alterações investigadas.
Em alguns casos, as mudanças provocavam redução de até 90% no valor venal dos imóveis.
Um dos casos analisados envolve um imóvel cujo valor venal real era de aproximadamente R$ 2,481 milhões. Após a alteração cadastral, o imóvel passou a constar no sistema por cerca de R$ 287 mil.
Com a mudança, o IPTU, que era de aproximadamente R$ 29 mil, caiu para cerca de R$ 2,8 mil.
Segundo a investigação, o município deixou de arrecadar aproximadamente R$ 20 milhões em razão das fraudes durante o período analisado.
A investigação aponta que o grupo procurava proprietários de imóveis e terrenos de alto padrão e oferecia serviços de revisão do IPTU. Os honorários eram calculados sobre o benefício obtido com a redução do tributo.
Um dos investigados era responsável pela captação dos clientes e encaminhava os proprietários para outros integrantes do grupo. Na sequência, duas mulheres que se apresentavam como sócias de uma empresa de consultoria participavam das negociações e formalizavam os contratos.
Os valores pagos pelos clientes eram posteriormente divididos entre os integrantes do esquema, segundo a investigação.
A etapa central da fraude ocorria no cadastro imobiliário da Sefaz. Dados utilizados para calcular o valor venal dos imóveis eram alterados para que as propriedades passassem a aparecer no sistema com valores inferiores.
Entre as informações modificadas estavam o ano de construção e outros atributos utilizados no cálculo do valor venal. Com a redução do valor cadastrado, o IPTU também diminuía.
Até a última atualização divulgada pela Polícia Civil, quatro dos cinco mandados de prisão haviam sido cumpridos. Foram presos dois homens e duas mulheres.
Lavínia Maria Valle Oliveira é apontada como integrante do núcleo de liderança, comando, coordenação e intermediação do esquema.
Jeã Nascimento Moreira é apontado como responsável pela captação de clientes e pela intermediação dos serviços.
Mariuza de Carvalho Souza é apontada como principal executora das fraudes e está relacionada a 627 intervenções cadastrais indevidas.
Cláudio Luiz de Oliveira Pinto Passos é apontado como intermediador entre os clientes e o núcleo de liderança, com atuação em reuniões e contratos.
O quinto mandado de prisão, contra Maria Isabel Regueira Regueira, ainda não havia sido cumprido.
A Justiça também determinou o afastamento de quatro pessoas do serviço público.
Rosiclea Sabino dos Santos, auditora fazendária da Sefaz e chefe do Setor de Vistoria (Sevis), está entre os afastados. Segundo a investigação, Rosiclea é suspeita de facilitar o acesso ao sistema utilizado para modificar os dados dos imóveis.
Também foram afastados Luiz Borges Lima Júnior, servidor público efetivo e agente fazendário lotado na Ouvidoria da Sefaz; Leonardo Velasco Bastos Dalcum, servidor ocupante de cargo comissionado na Sefaz; e Simone Aleluia Couto, servidora terceirizada.
Além das prisões, buscas e afastamentos, a Justiça determinou o bloqueio de até R$ 20 milhões em bens e valores relacionados aos investigados.
A Operação Valor Venal é conduzida pelo Núcleo Especializado no Combate aos Crimes Econômicos e Contra a Ordem Tributária (NECCOT), unidade vinculada ao Departamento de Repressão e Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (DRACO-LD).
Em nota, a Secretaria Municipal da Fazenda informou que a investigação teve origem em uma denúncia apresentada pela própria pasta à Polícia Civil em fevereiro de 2026.
Segundo a Sefaz, o caso foi identificado por meio de denúncia e de auditoria interna. A secretaria afirma que comunicou as autoridades policiais e instaurou uma sindicância para apurar as ocorrências e responsabilizar os agentes possivelmente envolvidos.
A pasta informou que foram identificados indícios de irregularidades atribuídos a colaboradores e despachantes que se apresentavam indevidamente como procuradores autorizados pela Sefaz. Também foram constatados acessos não autorizados realizados por funcionários terceirizados, que foram desligados de suas funções.
Ainda segundo a secretaria, os processos relacionados aos casos foram revertidos e as cobranças foram recalculadas com os valores legalmente devidos e encaminhadas aos respectivos contribuintes.
A Sefaz informou também que foram instaurados Processos Administrativos Disciplinares (PADs) contra servidores, conduzidos pela Controladoria-Geral do Município por solicitação da pasta.
Como funcionava o esquema que reduzia em até 90% o valor do IPTU de imóveis de luxo em Salvador
Saiba quem é a auditora da Sefaz apontada em esquema que barateava IPTU de imóveis de luxo em Salvador
Saiba quem são os alvos da operação que mira grupo suspeito de reduzir IPTU de imóveis de luxo em Salvador
Após operação policial, prefeitura diz que denunciou fraude no IPTU de imóveis de bairro nobre de Salvador e demitiu terceirizados