Artigo

O filho real, o filho fantasiado e o impossível de ser reparado

Joilson Pereira
Karolina Rangel é psicóloga do Hospital Dia da Holiste Psiquiatria  |   Bnews - Divulgação Joilson Pereira
Mariana Cedrim

por Mariana Cedrim

Publicado em 23/10/2026, às 20h28



Recentemente, navegando pelas redes sociais, deparei-me com o corte de um filme publicado como “O Filho”. Ao procurar pela obra, descobri que o título correto era “Um Filho”. A diferença, aparentemente pequena, imediatamente me chamou a atenção. Não se trata de “o” filho como figura universal, mas de “um” filho: singular, atravessado por uma história própria, assim como existe “um” pai, igualmente marcado por sua filiação.

O filme acompanha Peter, um advogado de 50 anos, que, após se separar do primeiro casamento, une-se a uma mulher mais jovem, com quem tem um bebê. No rastro dessa nova vida, permanece Nicolas, um adolescente de 17 anos, tímido e ensimesmado, que vivencia intenso sofrimento após a ruptura familiar, abandona a escola, sente-se desconectado do mundo e incapaz de encontrar um lugar nele. Diante de tanta dor, passa a se mutilar.

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Peter então o leva para morar com a nova família, acreditando que poderá restaurá-lo. Interpreta momentos fugazes de alegria como sinais de melhora, enquanto parece não conseguir reconhecer a dimensão do sofrimento do filho. Seu desejo é que Nicolas retome a escola e, quem sabe, siga seus passos. Ao tentar resgatá-lo, Peter parece também buscar reparar aquilo que acredita ter recebido ou não do próprio pai.

O corte que vi nas redes sociais apresenta justamente um diálogo entre esses dois personagens. Em uma visita a Anthony (seu pai), Peter compartilha seus planos profissionais e revela estar inclinado a recusar uma oportunidade de carreira diante das dificuldades enfrentadas pelo filho. Em um diálogo marcante, Anthony confronta Peter expondo a necessidade de superar as marcas do passado.

Após uma tentativa de suicídio, Nicolas é internado em uma ala psiquiátrica. Na primeira visita, utiliza todos os recursos emocionais de que dispõe para ser levado para casa. Chora, promete não repetir o ato e pede para não ser abandonado. O apelo captura a culpa em Peter, que, ainda preso à fantasia de que deve e pode salvá-lo, contraria as orientações médicas e assina sua alta. O desfecho da história precisa ser assistido.

A força do filme não está tanto na explicação objetiva da depressão de Nicolas, mas naquilo que se apresenta como impossível: salvar completamente alguém, preencher o vazio do outro ou escapar integralmente das marcas herdadas. O filho real fica encoberto pelo filho fantasiado. Nicolas passa a ocupar, para Peter, um lugar psíquico específico: o de uma oportunidade de reparação. Salvá-lo talvez significasse também salvar a si mesmo da dor de ter sido emocionalmente abandonado

Nicolas, por sua vez, parece ocupar o lugar daquele que não consegue sustentar as exigências do “outro”. Escola, futuro, desempenho e adaptação social se tornam difíceis de habitar. Ele não consegue responder à pergunta que o mundo lhe dirige: “o que você vai ser?” Seu sofrimento parece ganhar corpo justamente nesse desencontro com o laço social e com as expectativas parentais. Por isso, a cena do pedido para sair da internação é tão insuportável. Ela mobiliza um dos pontos mais vulneráveis dos pais: a culpa. Nicolas fala como filho abandonado, e Peter responde. Ele não consegue suportar ocupar, nem por um instante, o lugar daquele que frustra, limita ou separa.

É nesse ponto que a psicanálise rompe com uma expectativa bem contemporânea: a de que presença, escuta e boa intenção seriam suficientes para eliminar o sofrimento psíquico. Peter tenta oferecer tudo aquilo que acredita não ter recebido: acolhimento, tempo, cuidado e a escolha pelo filho acima da carreira. Ainda assim, Nicolas permanece diante de algo que não consegue ou não pode ser simbolizado. Nesse sentido, o diálogo com o pai funciona quase como uma interpretação analítica, evidenciando a diferença entre ambos e a difícil constatação: não há uma exterioridade simples em relação aos pais. A herança psíquica não é feita apenas daquilo que aprovamos, mas também daquilo que recusamos. Muitas vezes, nos organizamos justamente em torno daquilo que tentamos não repetir.

Amar alguém também implica suportar não ocupar para o outro um lugar de completude. Talvez, por isso, o final seja tão impactante: ele rompe com a fantasia de redenção emocional. Não há reconciliação suficiente, amor suficientemente puro ou pai perfeitamente reparador. É também por isso que a psicanálise dialoga tão profundamente com a arte. Um filme pode nos fazer experimentar conceitos antes mesmo de formulá-los teoricamente. Não substitui a teoria, mas encarna aquilo que ela nomeia: falta, repetição, desejo, culpa, desamparo e fantasia. A dramaturgia pode oferecer uma via de simbolização para questões que atravessam a experiência humana.

Talvez seja justamente por isso que a obra permaneça conosco depois dos créditos. Não porque resolva o sofrimento, mas porque nos obriga a reconhecer seus limites. O filme e a psicanálise não oferecem redenção; proporcionam um encontro com aquilo que não pode ser plenamente reparado.

Classificação Indicativa: Livre

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