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Agrotóxicos: 50 bebês são intoxicados por ano no Brasil, aponta pesquisadora da USP

Divulgação/Cenipa

Larissa Bombardi é responsável por organizar a nova edição de um atlas

Publicado em 05/05/2022, às 16h52    Divulgação/Cenipa    Redação BNews

As intoxicações por agrotóxicos atingem, em média, 50 bebês de 0 a 1 ano por ano Brasil. Já entre os adultos, a média é de 15 contaminações. A informação é da especialista em agrotóxicos Larissa Bombardi, responsável por organizar uma nova edição do atlas "Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia". Segundo o g1, os dados foram consolidados a partir de registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.

"Agravos de notificação são doenças que precisam ser reportadas pelos estados de forma obrigatória, como doenças infecciosas, Aids", explica Larissa. "No Brasil, as notificações por intoxicação por agrotóxicos são obrigatórias desde 2011", destaca.

Larissa é professora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), e publicou o primeiro relatório no Brasil em 2017, com dados de 2007 a 2014. O documento foi lançado há três anos na União Europeia e chegou a gerar um boicote de uma rede de supermercados escandinava a produtos brasileiros.

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A nova edição do atlas trará um panorama das intoxicações entre 2010 e 2019. Na nova pesquisa, ela identificou um aumento dos casos. "Os números me chocaram, pois só aumentaram. Pela média, são 15 pessoas intoxicadas por ano. No antigo levantamento, eram 10. Entre os bebês de 0 a 1 ano, a média de intoxicações passou de 43 para 50 (ao ano). Essa alta tem se mantido para todos os recortes que tenho feito", afirma Larissa.

A CropLife Brasil, entidade que representa as fabricantes de defensivos agrícolas, disse ao g1 que o critério para a liberação de agrotóxicos no Brasil é "baseado em ciência" e "orientado por metodologias consolidadas internacionalmente".

Mortes por agrotóxicos

A reportagem aponta que no Brasil são dois óbitos a cada dois dias e cerca de 20% das vítimas são crianças e adolescentes de até 19 anos. O relatório, que é assinado em parceria com a especialista holandesa em comércio Audrey Changoe, também usa a base de dados do Sinan, do Ministério da Saúde.

Segundo a especialista, para Larissa, um dos pontos centrais deste debate, atualmente – e que, para ela, está por trás do aumento das intoxicações – é a aliança entre grandes empresas europeias que fabricam e exportam os agrotóxicos para o Brasil e o agronegócio nacional.

"Empresas europeias, como a Bayer/Monsanto e a Basf, que estão liderando os fabricantes europeus de agrotóxicos, têm promovido o acordo comercial UE-Mercosul através de grupos de lobby. Esse lobby tem buscado aumentar o acesso ao mercado para alguns de seus agrotóxicos mais danosos ao unir forças com associações brasileiras do agronegócio", afirma.

De acordo com o documento da rede ambientalista, nos últimos três anos, Bayer e Basf juntas, tiveram 45 novos agrotóxicos aprovados no Brasil, sendo que 19 deles contêm substâncias proibidas na União Europeia.

Uma delas é o Fipronil, que é neurotóxico e está associado à morte de abelhas. Tem ainda o Dinotefuran, que também impacta abelhas; o Imazethapyr, que causa problemas respiratórios em humanos e é tóxico para plantas aquáticas e o Clorfenapir, que é altamente prejudicial para aves e abelhas.

O documento cita ainda que uma estratégia de lobby usada pelas empresas de agrotóxico da União Europeia é "financiar vozes de terceiros para promover seus interesses comerciais".

"Do lado brasileiro, o laboratório de ideias Instituto Pensar Agro promove mais uso de agrotóxicos e minimiza o papel do agronegócio no desmatamento. O Instituto Pensar Agro trabalha em parceria com tomadores de decisão do influente bloco do agronegócio no Congresso brasileiro", destaca o relatório.

As pesquisadoras citam um levantamento feito pela rede "De Olho nos Ruralistas" que apontou que, entre 2019 e 2021, mais de 200 reuniões foram feitas entre o Instituto Pensar Agro e membros do governo Jair Bolsonaro.

"Fazendo isso, eles têm apoiado uma agenda legislativa que procura minar direitos indígenas, remover proteções ambientais e legitimar o desmatamento. Através dos poderosos grupos de lobby do agronegócio do Brasil – como o CropLife Brasil, fundado pela Bayer – as empresas europeias de agrotóxicos apoiam esforços que enfraquecem medidas de proteção ambiental", acrescenta.

Uma dessas medidas, segundo o relatório da rede ambientalista, seria o apoio à aprovação do projeto de lei dos agrotóxicos (PL 6299/02), que muda as regras de liberação desses produtos. O texto, que tramita no Congresso, é chamado por ambientalistas de “PL do Veneno”.

O g1 procurou a Bayer, a Basf e Syngenta, que afirmaram reforçar o posicionamento da CropLife Brasil, organização que representa todo o setor. Em nota, a entidade disse que, em sua avaliação:

"[...] a modernização da legislação vigente, por exemplo, é condição para a garantia de um futuro sustentável. Nesse cenário, a aprovação do PL 6299/02 permitirá o acesso mais rápido a tecnologias mais modernas, seguras e eficazes, que, em geral, têm sido disponibilizadas aos produtores agrícolas de países desenvolvidos de cinco a oito anos antes do que aos nossos agricultores, o que reduz a competitividade do agronegócio brasileiro".

Quem discorda do projeto, ressalta, por exemplo, que a legislação proposta dá menor poder ao Ibama e à Anvisa no processo de autorização de novos registros – as duas entidades avaliam o risco ambiental e aos humanos, respectivamente, do uso dos agrotóxicos.

Já quem concorda, afirma que o projeto moderniza a legislação, ao agilizar os registros e seguir padrões internacionais de aprovações.

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