BNews Agro
“A maquiagem dela agora é poeira, a patricinha virou boiadeira”. Esse é o trecho inicial do refrão da música ‘Boiadeira’, interpretada pela cantora Ana Castela, e que, além de ser sucesso do sertanejo brasileiro, chama a atenção para um olhar que a sociedade por muito tempo teve em relação ao agro: de domínio predominantemente masculino e incompatível com a atuação feminina.
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Infelizmente, por muitos anos as mulheres tiveram um papel de mero suporte ao homem no campo, sempre sendo a personagem responsável pelo lar e pela família. A dona de casa, encarregada dos filhos, da manutenção e zelo do núcleo familiar. No máximo, para além das residências, atuavam apenas em laboratórios ou em atividades meramente administrativas das empresas vinculadas ao setor agrícola.
Neste universo, inclusive, as filhas de grandes fazendeiros sempre foram vistas como desprivilegiadas na sucessão das atividades relacionadas à gestão dos negócios familiares no agro, apontada como coisa de “filho homem”. Eram reduzidas àquelas que eram enviadas à capital ou à cidade grande mais próxima para estudar, formar em áreas alheias ao campo e que viviam às custas do dinheiro da família. Do dinheiro do agro. E voltariam anos mais tarde para a cidade de onde saiu para casar com algum filho de outro fazendeiro. De um tempo pra cá, o panorama é outro.
“Essa visão estereotipada das mulheres no agro, infelizmente, existia e ainda pode existir em alguns contextos. Cresci observando o trabalho duro da minha família e apesar de demorar um pouco para querer dar continuidade no negócio, a minha realidade sempre foi bastante diferente. Claro, existiram momentos em que as pessoas ao redor talvez esperassem que eu seguisse outro caminho, mas dentro de casa sempre recebi muito apoio. E quando tomei a decisão de atuar, as portas estavam abertas. Quando comecei a me envolver com associativismo, a certeza sobre essa missão, se concretizou.”
Essas são as palavras de Alessandra Zanotto, que irá assumir a presidência de uma associação de produtores rurais das mais importantes do país, a Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), a partir de janeiro de 2025. Em conversa exclusiva com o BNews, ela comenta o que essa mudança diz respeito à representatividade, mas que também ainda gera alguns olhares de estranheza, desconfiança e preconceito.
Atual vice-presidente da associação, Alessandra não é a primeira mulher a assumir a presidência da Abapa, que já foi comandada por Isabel da Cunha, de 2011 a 2014. Mas, ela assume em um momento social de maior efervescência e encorpamento das discussões e lutas por paridade de gênero, equiparação salarial e de políticas igualitárias, e também em um cenário econômico-produtivo sem precedentes do algodão baiano, considerado uma das produções mais importantes e um dos maiores pilares de sustentação do agro brasileiro e da economia estadual e nacional.
Isso porque o Brasil, além de ser o maior exportador de algodão do mundo, é o terceiro maior produtor do planeta, ficando atrás somente da China e da Índia, com a Bahia respondendo pela segunda maior produção do país, perdendo apenas para o Mato Grosso.
Ainda que o preconceito permaneça grande, a presença de mulheres no setor agrícola tem evoluído satisfatoriamente nos últimos anos, o que representa um avanço significativo para a sociedade, muito embora os números gerais ainda apontem que há um grande caminho a ser percorrido.
Aqui, outra produção musical vem à mente: ‘Mulher do Agro’, de Bruna Viola, que, em um dos seus trechos, diz: “Ela já foi chamada de sexo frágil. Agora é conhecida como a mulher do agro. Ela planta e colhe, anda de caminhonete. Porque a meta bateu”.
De volta aos números, os dados do último Censo Agropecuário, realizado no Brasil em 2017 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que, dos 5,07 milhões de estabelecimentos rurais, 947 mil eram dirigidos por mulheres, o que correspondia a apenas 19%. Isso quer dizer que 30 milhões de hectares eram administrados por elas, cerca de 8,5% do total cultivado no país. No Censo de 2006, o percentual de liderança feminina alcançava 12,68%, o que demonstra um crescimento de apenas pouco mais de 6% em 11 anos.
Já em 2021, a pesquisa “Todas as Mulheres do Agronegócio”, da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), evidenciou que 59,2% das mulheres que atuavam no agro, à época, eram proprietárias ou sócias; 30,5% faziam parte da diretoria e atuavam como gerentes, administradoras ou coordenadoras; 10,4% eram funcionárias e colaboradoras; e 57% participavam ativamente de sindicatos e associações rurais.
É notória a maior presença feminina em postos de liderança no agro, o que demonstra que as lutas por equidade de gênero têm surtido efeito mesmo em um ambiente no qual a testosterona sempre foi o combustível motriz. Entretanto, nem tudo são flores e um caminho repleto de barreiras ainda há de ser percorrido.
As mulheres, além das dificuldades para ingresso no agro tão masculino ou masculinizado, quando rompem esses primeiros obstáculos, enfrentam outros, como burocracias maiores e até negativas de acesso a créditos e empréstimos, por vezes também a tecnologias e equipamentos, precisam conciliar as funções com as responsabilidades familiares e o maior de todos: uma estrutura fincada em uma base machista, conservadora, que sequer está preparada para ser comandada por uma mulher.
No bate-papo com o BNews, Alessandra Zanotto ainda destaca a representatividade e o significado da presidência feminina, inclusive para inspirar outras mulheres.
“Assumir a presidência da Abapa, para mim, vai além de um marco pessoal. É um reflexo de que o setor está evoluindo e reconhecendo o valor da diversidade. Não sou a primeira mulher a ocupar essa posição, mas cada vez que uma mulher assume um papel de liderança no agro, reforçamos que o talento, a competência e a dedicação não têm gênero. É uma oportunidade de inspirar outras mulheres e mostrar que, independentemente das barreiras, é possível construir um caminho sólido e impactante nesse setor”, diz Alessandra.
Divulgação
Sobre uma eventual dificuldade em ser aceita em um ambiente de predominância masculina e permeado pelo machismo, Alessandra afirma que, quando decidiu se dedicar aos negócios da família, nunca permitiu que o “ceticismo ou atitudes veladas” a desviasse do seu foco.
“Como em qualquer ambiente predominantemente masculino, houve momentos em que percebi um certo ceticismo ou atitudes veladas, mas nada que tenha me desviado do meu caminho. O mais importante foi me manter focada e mostrar, pelo meu trabalho e resultados, que minha contribuição é baseada em competência. Isso quebra qualquer resistência com o tempo. Não posso dizer que foi e é sempre fácil, mas acredito que toda dificuldade traz uma oportunidade de crescimento, além de nos fazer ter certeza do que queremos”, ressalta.
A atual vice-presidente da Abapa faz questão de salientar que um dos objetivos da sua gestão será exatamente a diversidade e o equilíbrio.
“Sou uma pessoa muito focada em resultados, mas acredito que o caminho para alcançá-los é através das pessoas. Tenho uma visão muito clara da importância da diversidade e do equilíbrio nas equipes, e isso será um ponto central da minha gestão. Além disso, minha experiência tanto no campo quanto na gestão me dá uma visão ampla e estratégica dos desafios e oportunidades da cotonicultura”, enfatiza.
Desde que o mundo é mundo, como diz um velho dito popular, as mulheres são preparadas desde cedo para mudanças e processos mais sensíveis ao longo da vida: menstruação, maternidade, condução do lar, menopausa, assim como também para a misoginia e o androcentrismo. Por conta disso tudo, segundo Carmen Perez, pecuarista e colunista da Forbes, elas desenvolvem “um olhar mais afetivo, humano e sensível ao bem-estar animal e à gestão”.
Essa visão é compartilhada por Alessandra Zanotto, que acredita que o olhar feminino, sua sensibilidade e atenção aos detalhes, complementa o que já está sendo feito no setor, já que não se trata de um confronto de visões, mas de um equilíbrio que enriquece a tomada de decisão e que traz novas formas de lidar com os desafios, principalmente em questões relacionadas à sustentabilidade e bem-estar das pessoas envolvidas.
A cotonicultura baiana sob liderança feminina a partir de janeiro de 2025 apresenta perspectivas de tecer um futuro diverso e plural não somente para a cultura específica do algodão, mas para o agro como um todo. E em um olhar mais diverso e contemplativo, esse marco social e de gênero e o algodão têm tudo a ver, já que uma das maiores e/ou melhores características da fibra é a sua sensibilidade, suavidade e capacidade de proporcionar conforto ao toque, ao passo em que o olhar feminino, mais terno, mais atento, mais detalhista, proporciona um ambiente mais afetivo e humano e permite observar criteriosamente situações de oportunidades e de crise, ainda que latentes. Ou seja, o ponto de intercessão entre ambos é a essência de delicadeza, minúcia e cuidado.
Rumos da cultura de algodão na Bahia
Com esse olhar e sem perder tempo, Alessandra indica quais os principais problemas da cotonicultura baiana que pretende solucionar.
“O setor já evoluiu muito, mas ainda temos desafios importantes. A logística sem dúvida, é uma delas, assim fomentando o escoamento via Salvador. O controle da praga do algodoeiro, o bicudo, o que pode contribuir de maneira impactante no custo da produção. Treinamento e capacitação de pessoas. Além de seguir fortalecendo as certificações que garantem a qualidade do nosso algodão e ampliar a rastreabilidade. O equilíbrio entre eficiência e sustentabilidade será fundamental para garantir a viabilidade econômica do setor a longo prazo”, alega.
O Brasil ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o maior exportador mundial de algodão com a safra 2023/2024, uma meta prevista pelo setor para ser batida apenas em 2030, o que aumenta ainda mais a responsabilidade da nova gestão. O anúncio foi feito em julho durante a 75ª reunião da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Algodão e seus Derivados, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
O atual presidente da Abapa, Luiz Carlos Bergamaschi, que termina seu mandato em dezembro próximo, também ao BNews, exalta a liderança feminina e confia na manutenção dos bons resultados da associação.
“A formação da diretoria sempre se pautou por critérios de competência e talento, e a maior parte da equipe foi composta por mulheres, o que considero um marco importante na nossa trajetória. Agora, com a transição para a presidência de Alessandra Zanotto, temos a continuidade da nossa linha de sucessão, que segue prezando pela solidez e crescimento da instituição. Desejo a Alessandra uma gestão próspera e bem-sucedida. Ela já possui uma experiência significativa, com oito anos de atuação na Abapa, e conta com uma equipe preparada para apoiá-la em todos os desafios. Tenho plena confiança de que ela seguirá avançando e colocando mais um tijolo nessa grande edificação que é a Abapa”, ressalta Bergamaschi.
O papel das mulheres na agricultura atravessa os séculos e a história, ainda que essa atuação tenha sido subestimada e invisibilizada por muito tempo. Porém, em um contexto social em que tanto se discutem mudanças climáticas, transição energética, ESG, sustentabilidade, segurança alimentar e escassez de recursos, é forçoso e necessário reconhecer que as mulheres tendem a dar um enfoque mais sustentável e inclusivo em todos os aspectos, não tendo apenas a produtividade e as metas econômicas como foco, mas também a preservação ambiental e o bem-estar das comunidades e populações diretamente afetadas pela atividade rural.
Assim, um futuro diverso e plural para a cotonicultura baiana está em um horizonte muito próximo, com o desenvolvimento de práticas agrícolas mais responsáveis e resolução de problemas e desafios de forma mais diversa, criativa e eficaz através de um olhar empoderado que somente uma personagem feminina possui.
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