BNews Pet
por Leonardo Oliveira
Publicado em 07/11/2026, às 07h00
O que era para ser uma semana de celebração para uma jovem advogada baiana, que se preparava para receber sua tão sonhada carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), tornou-se uma tragédia que já dura um ano. Em 4 de novembro de 2025, sua chihuahua Miyeon, de apenas dez meses e 1,3 kg, morreu de forma suspeita durante um banho em um pet shop de luxo no bairro dos Jardins, em São Paulo.
Um ano após o caso, a morte da pequena cadela ainda é alvo de investigação criminal e de uma ação civil. As provas reunidas, incluindo imagens das câmeras de segurança, laudos veterinários e depoimentos, apontam para uma série de questionamentos sobre o atendimento no estabelecimento. O caso tramita no 78º Distrito Policial (Jardins), que apura a prática de maus-tratos com morte e falsidade ideológica.
A tutora da chihuahua deixou a cachorrinha em uma creche de confiança pela manhã, devido à sua volta ao trabalho presencial. Durante o dia, autorizou que Miyeon fosse levada a um pet shop parceiro da creche para tomar banho. No entanto, horas depois, ela recebeu uma ligação desesperadora com a notícia de que a cachorrinha teria "desmaiado" durante o procedimento e estava sendo levada para um hospital veterinário.
Ao chegar à clínica, a tutora recebeu a triste notícia. O prontuário médico revelou que Miyeon deu entrada no local já sem pulso e sem movimentos respiratórios. O laudo ainda apontou que o óbito havia ocorrido pelo menos 10 minutos antes da chegada à clínica, o que tornou as tentativas de reanimação ineficazes.
O relatório oficial de necropsia apontou como causa da morte um colapso cardiorrespiratório (choque neurogênico). O documento evidenciou que o animal possuía um quadro grave de hidrocefalia, mas ressaltou que não era possível excluir o estresse agudo dos procedimentos de banho como fator desencadeante.
Um parecer técnico-veterinário particular ainda concluiu que a hidrocefalia gerava vulnerabilidade, mas encontrava-se estabilizada, uma vez que a cadela já havia passado por banhos anteriores sem problemas. Segundo a análise, o gatilho para o choque neurogênico fatal foi o estresse extremo e a dor aguda causados pelos traumas na cabeça.
As imagens do circuito interno do pet shop mostraram que o profissional que atendia Miyeon estava dando banho em dois cães ao mesmo tempo. A pequena chihuahua foi colocada na mesma banheira que um cachorro de grande porte. Em seguida, os vídeos mostram o banhista realizando gestos bruscos e até desferindo supostos tapas na cabeça da cadelinha.
O funcionário confessou em depoimento que conteve fisicamente o animal após a cadela tentar mordê-lo. Segundo o processo, ele segurou a cadela na água por cerca de 20 segundos após ela perder os sentidos.
A veterinária do local afirmou ter feito ressuscitação no animal, mas as imagens não mostram a realização de nenhum procedimento de primeiros socorros antes de transportá-la à clínica. Durante mais de uma hora de vídeo, nenhum responsável do pet shop apareceu para fiscalizar a sala de banho.
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A investigação ainda aponta para uma tentativa de ocultação de provas por parte do pet shop. As donas do estabelecimento, que alegaram problemas técnicos, não entregaram as imagens integrais das câmeras no dia da tragédia. À noite, enviaram apenas 53 minutos de vídeo previamente editado, escondendo a câmera frontal que pegava o banho de Miyeon. A Polícia Militar precisou intervir para garantir a entrega de todos os vídeos.
A defesa do pet shop argumentou que a cachorrinha tinha uma "condição pré-existente", com a moleira (fontanela) aberta, o que justificaria o desfecho. No entanto, especialistas explicaram que a condição é normal em filhotes da raça chihuahua, e que, justamente por isso, a cabeça do animal não pode ser submetida a força física ou jatos d'água fortes. Em depoimento, o banhista assumiu que sabia sobre essa vulnerabilidade da raça, mas ainda assim continuou com o manejo.
O inquérito policial foi finalizado em dezembro de 2025 sem o indiciamento do banhista e da médica-veterinária. Após a conclusão da Polícia Civil, os autos foram remetidos à Justiça.
Em meados de janeiro de 2026, o juiz abriu vista para o Ministério Público (MP). Insatisfeita com a falta de indiciamentos, a defesa da tutora protocolou uma petição exigindo que a Promotoria atue. O processo criminal encontra-se travado, no qual se espera a manifestação oficial do MP, que decidirá se oferece a denúncia contra os investigados, se pede o arquivamento do caso ou se solicita novas diligências à polícia.
Enquanto a esfera criminal aguarda os desdobramentos do MP, a disputa já avançou para a área cível. Baseada no Código de Defesa do Consumidor (CDC), a tutora ingressou com uma ação indenizatória no final de janeiro de 2026. É cobrado um montante superior a R$ 83 mil, que inclui R$ 23.647,76 em danos materiais, referentes à aquisição do animal, custos da necropsia e cremação, além de R$ 60.000,00 por danos morais, alegando abalo psicológico severo.
A advogada relata que a dor da perda da companheira com quem compartilhava sua vida e seu luto são irreparáveis e gerou danos psicológicos profundos. Em busca de justiça, se recusou a aceitar qualquer acordo financeiro. Além disso, a tutora garantiu que 100% de qualquer indenização recebida será doada a instituições de proteção animal. O objetivo maior é que o pet shop tenha seu alvará de funcionamento cassado e os responsáveis sejam devidamente penalizados pelas autoridades de São Paulo.
Enquanto o processo avança lentamente, o pet shop passou por mudanças e saiu de "Bicho de Pet", para "Vilati Clínica e Pet Shop", em uma nova denominação social. A empresa segue operando no mesmo local, mas o banhista foi desligado. Além disso, houve uma reestruturação em seus perfis nas redes sociais.
A defesa da empresa argumenta que os relatos divulgados ignoram os elementos objetivos e técnicos já anexados aos processos. O foco do estabelecimento recai sobre as provas científicas, como o laudo de necropsia que apontou que o animal sofria de uma grave hidrocefalia ventricular bilateral, fator que a defesa usa para afastar a tese de maus-tratos. Segundo o estabelecimento, a versão da tutora não dialoga com os laudos e busca responsabilizar criminalmente os funcionários sem aguardar o provimento da Justiça.
"O Petshop Vilati informa que os relatos publicados sobre o incidente em questão não correspondem a um retrato fiel dos fatos, tal como ocorreram. Trata-se de narrativa unilateral, sensacionalista e estrategicamente tendenciosa, que não dialoga com os elementos objetivos já produzidos no âmbito dos procedimentos judiciais em curso, instaurados justamente para aferir as devidas esferas de responsabilidade de cada um dos agentes envolvidos, incluindo a responsável pelo animal", afirmou em nota.
A defesa da empresa argumenta que os relatos divulgados ignoram os elementos objetivos e técnicos já anexados aos processos. O foco do estabelecimento recai sobre as provas científicas, como o laudo de necropsia que apontou que o animal sofria de uma grave hidrocefalia ventricular bilateral, fator que a defesa usa para afastar a tese de maus-tratos.
"As informações que têm circulado, maliciosamente, deixam de fora elementos técnicos relevantes, como laudos periciais já constantes dos autos, que destoam frontalmente da narrativa apresentada e que, atualmente, aguardam provimento jurisdicional", afirmou a defesa do estabelecimento. Confira a nota na íntegra:
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