Justiça

Pacientes denunciam 'visitas surpresa' de planos de saúde em casa após internações

Tânia Rêgo / Agência Brasil
Pacientes denunciam abordagens sem aviso prévio após internações e processos judiciais por tratamento  |   Bnews - Divulgação Tânia Rêgo / Agência Brasil
Antonio Dilson Neto

por Antonio Dilson Neto

Publicado em 07/03/2026, às 09h00



Segurados de planos de saúde na Bahia têm relatado uma prática considerada invasiva: visitas inesperadas de representantes das operadoras nas residências dos clientes, sem aviso prévio ou consentimento.

Segundo denúncias de usuários ao Bnews, as abordagens teriam como objetivo questionar procedimentos médicos realizados e investigar tratamentos, inclusive em casos em que pacientes recorrem à Justiça para garantir atendimento.

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Uma segurada do Bradesco Saúde, identificada na reportagem apenas pelas iniciais ESM, contou ao BNews que foi surpreendida pela visita após receber alta de um tratamento realizado no Hospital da Obesidade.

“Quando voltei para casa depois da alta, recebi uma visita de um representante do plano. Achei que fosse para saber se eu tinha alguma dúvida sobre o atendimento, mas começaram a fazer várias perguntas sobre o tratamento”, relatou.

Segundo ela, o tom das perguntas causou estranhamento.

Eles perguntavam se eu realmente tinha feito o tratamento no hospital, se tinha tomado medicamentos lá, se estava acompanhada durante a internação. Parecia que estavam colocando em dúvida o atendimento que eu recebi

ESM disse que tentou entender o motivo da visita posteriormente. “Depois entrei em contato para saber o porquê daquilo. Disseram que era apenas uma pesquisa, mas achei tudo muito estranho”.

Abusos e quebra de sigilo

O advogado especialista em Direito Médico e da Saúde, Leonardo Martinez, afirma que a prática foge dos procedimentos comuns de auditoria realizados por planos de saúde.

“Eu atuo exclusivamente em demandas de saúde e direito médico e, infelizmente, presencio diariamente abusividades praticadas por planos de saúde. Confesso que essa modalidade de ‘visitas de confirmação’ me surpreendeu”, disse.

Segundo ele, as abordagens podem configurar irregularidades graves. “Estamos diante de situações que podem envolver vazamento de dados sensíveis, quebra de sigilo médico, assédio moral e abuso de direito. O paciente é surpreendido com a própria residência e intimidade invadidas”, afirmou.

De acordo com Martinez, relatos recebidos por seu escritório indicam que representantes dos planos chegam a sugerir consequências graves caso o segurado não colabore.

Há casos em que os prepostos dizem que é melhor colaborar para não correr o risco de ter tratamentos cancelados ou até responder a processos

Martinez ressalta que auditorias são legítimas, mas devem ocorrer por meios formais. “Todos os procedimentos custeados por planos de saúde possuem documentação, como notas fiscais, contas médicas e relatórios. Caso haja necessidade de confirmação, isso pode ser feito por e-mail, carta ou telefone”, explicou.

Ele defende que investigações mais profundas devem ser conduzidas por autoridades. “A prerrogativa de investigar é do Ministério Público e da Polícia Judiciária. Se houver suspeita de irregularidade, o plano deve acionar esses órgãos”, declarou.

Impacto psicológico

Outro relato é de Marcos Vinícius Nascimento Oliveira, responsável legal por um plano Bradesco Saúde Top Empresarial com seis beneficiários.

Segundo ele, a família viveu uma situação que gerou forte impacto emocional. “Pagamos mais de R$ 7 mil por mês. Tenho uma dependente com obesidade severa, causada por uma medicação que fez ela ganhar mais de 40 quilos. Isso trouxe problemas de pressão, depressão e dificuldade de locomoção”, contou.

Ele afirma que buscou na Justiça autorização para um tratamento em um hospital de referência indicado por médicos. Durante o processo, a família teria sido surpreendida por uma visita.

“Uma suposta representante do plano apareceu no prédio dizendo ao porteiro que precisava esclarecer dúvidas sobre o processo. O que aconteceu depois foi uma situação de coerção e invasão de privacidade”, relatou.

Segundo Marcos, o tom da conversa rapidamente mudou. “As perguntas começaram formais, mas viraram um interrogatório para contestar relatórios médicos. Em determinado momento, ela chegou a dizer que aquilo servia para ‘compor provas’ e nos fazer desistir do processo.”

Ele afirma que a situação gerou crise psicológica em familiares. “Meu sobrinho, que tem Transtorno Opositivo Desafiador (TOD) e fobia de polícia, teve uma crise nervosa por causa da abordagem. Minha mãe, de 75 anos, teve pressão alta, e minha irmã e meu sobrinho entraram em pânico”, disse.

Marcos afirma que pretende recorrer à Justiça.

Assim que for possível, entrarei com processo contra o banco e a empresa terceirizada pelos danos morais e psicológicos.

Responsabilização criminal

Para o advogado criminalista e professor de Direito Penal Felipe Marcone, representantes de operadoras podem ser responsabilizados criminalmente dependendo da abordagem.

“Quando prepostos do plano vão até a casa do segurado para tentar inibir a busca por tratamentos ou medicamentos, a conduta pode se enquadrar em crimes como constrangimento ilegal”, explicou.

Segundo ele, também pode haver outras tipificações a depender situação concreta: "pode haver enquadramento em extorsão, coação no curso do processo, violação de domicílio ou ameaça”, afirmou.

Marcone ressalta que a responsabilidade não se limita ao representante que realiza a visita e é extensiva a todos que planejam ou determinam a conduta.

Por fim, o advogado orienta que segurados procurem autoridades caso se sintam intimidados pelas empresas.

Não estamos diante de um mero aborrecimento administrativo, mas de uma prática criminosa organizada. O objetivo é claro: obter vantagem econômica indevida ao deixar de custear a saúde do segurado. Além disso, a reiteração dessas visitas pode caracterizar o crime de perseguição, ou stalking

O BNews procurou a assessoria do Bradesco Saúde mas, até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para o posicionamento da empresa.

Classificação Indicativa: Livre

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