Entretenimento
por Cauan Borges
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Publicado em 05/11/2026, às 06h00 - Atualizado às 06h50
Conhecido como o “Rei do WhatsApp”, humorista baiano saiu de uma pequena cidade do Recôncavo, conquistou milhões de admiradores e deixou bordões que continuam vivos seis anos após sua morte. Bastava um áudio com uma voz aguda e uma provocação bem-humorada para José Luiz Almeida da Silva, eternizado na memória dos baianos como Jotinha, arrancar gargalhadas de pessoas que sequer conheciam seu rosto.
Antes dos influenciadores digitais dominarem as redes sociais, dos memes se transformarem em moeda corrente na internet e de os vídeos curtos ocuparem a tela dos celulares, o saudoso Jotinha já havia descoberto uma maneira particular de fazer o Brasil inteiro rir.
Natural de Elísio Medrado, no Recôncavo Baiano, o humorista transformou a própria espontaneidade em uma marca registrada. Com comentários debochados, brincadeiras sobre futebol e um repertório de bordões, conquistou espaço em grupos de WhatsApp, ultrapassou as fronteiras da Bahia e ficou conhecido nacionalmente como o “Rei do WhatsApp”.
No entanto, a trajetória começou muito antes de sua voz se tornar presença frequente nos celulares brasileiros. Por trás do personagem que divertia milhões de pessoas havia um homem profundamente ligado à cidade onde nasceu, apaixonado pelo Esporte Clube Bahia, fã de lambada e que tinha na mãe, Teresinha Cezar, uma das principais companheiras de vida.
Sem surpresas, a fama de Jotinha no ‘zap-zap’ começou de maneira despretensiosa. Em entrevista à Rede Bahia, o próprio humorista contou que tudo teve início quando amigos o adicionaram a um grupo de WhatsApp. A partir dali, seus áudios e vídeos começaram a circular entre conhecidos e, pouco a pouco, alcançaram pessoas de diferentes partes do país.
Tudo começou através de um grupo de WhatsApp, feito pelos meus amigos. Me botaram nesse grupo e aí que aconteceu tudo”, relembrou.
O sucesso foi tão expressivo que o celular do baiano passou a receber entre duas e cinco mil mensagens por dia. Mesmo diante do volume de contatos, ele fazia questão de manter a proximidade com os admiradores: “Sou muito conectado. Quando eu tenho tempo suficiente, eu respondo”, afirmou na ocasião.
A voz aguda, o jeito debochado e a facilidade para transformar situações cotidianas em piadas fizeram de Jotinha um personagem facilmente reconhecível. Seus comentários sobre futebol, especialmente as provocações direcionadas aos torcedores, ajudaram a ampliar o alcance dos conteúdos. Não demorou para que os áudios ultrapassassem os grupos de amigos e chegassem a páginas de humor e perfis de celebridades.
O fenômeno também chamou a atenção de artistas conhecidos nacionalmente. Entre os nomes que mantinham contato com o humorista estavam Ivete Sangalo, Neymar e Anitta. A popularidade era tamanha que Jotinha chegou a contar, em uma reportagem televisiva, que recebia mensagens de personalidades que antes pareciam distantes da realidade de um morador de uma pequena cidade do interior baiano.
A repercussão em todos os cantos do Brasil também mudou a relação do público com Elísio Medrado. A cidade, que possui pouco mais de oito mil habitantes, passou a ser reconhecida por muita gente como a terra do humorista. Segundo relatos de pessoas próximas, a partir de 2015, tornou-se comum apresentar o município como o lugar de origem de Jotinha.
Embora tenha ficado conhecido nacionalmente pelo apelido artístico, José Luiz Almeida da Silva já havia experimentado diferentes personagens antes de se transformar em fenômeno da internet. Em 2012, por exemplo, entrou na política e disputou uma vaga na Câmara Municipal de Elísio Medrado. Na época, utilizou o nome Zé Pequeno na candidatura pelo PMDB e recebeu 67 votos.
O apelido, ao contrário do que poderia sugerir, não tinha relação com o personagem do filme "Cidade de Deus". A explicação era muito mais simples: fazia referência à baixa estatura do humorista, que nasceu com uma condição rara que limitou seu crescimento a menos de 1,50 metro.
Entretanto, a limitação física nunca impediu sua relação com o esporte. Desde criança, Jotinha era apaixonado por futebol e costumava disputar partidas com os amigos. Mesmo sem participar das divididas mais intensas, era reconhecido pela habilidade com a bola e pelo espírito competitivo.
É claro que a gente não dividia um lance com ele, mas o cara jogava bem demais. Passava bem e sacaneava quando vencia”, contou José Lapa Alves, conhecido como Dégo, amigo de Jotinha por aproximadamente 35 anos.
Quando os amigos cresceram e as partidas ficaram mais disputadas, ele encontrou outra maneira de permanecer próximo do futebol. Passou a atuar como presidente e técnico do time de ‘baba’ da comunidade de Sapucaia, onde nasceu. A equipe chegou a adotar um uniforme azul, vermelho e branco, em referência ao Bahia, sua grande paixão no esporte.
O amor incondicional pelo Tricolor de Aço também ultrapassou as brincadeiras entre amigos. Com a fama, Jotinha se aproximou ainda mais do clube e chegou a se tornar garoto-propaganda do Esquadrão, participando de campanhas e ações relacionadas à equipe, como o programa de sócios-torcedores. A identificação de Jotinha com o futebol baiano ajudou a fortalecer sua imagem entre os torcedores, que encontravam nos áudios do humorista uma maneira divertida de provocar os torcedores do Vitória, maior rival do Bahia.
É importante destacar que a paixão de Jotinha não se limitava às quatro linhas futebolísticas. Outro grande amor do “Rei do Whatsapp” era a lambada, especialmente as músicas de Beto Barbosa. Fã declarado do cantor, o comediante costumava dançar sucessos como "Adocica", "Beijinho na boca" e "Sol de verão" sempre que tinha oportunidade.
Já conhecido do grande público, o ícone nascido no Recôncavo Baiano conseguiu realizar o sonho de conhecer o ídolo. O encontro aconteceu diante das câmeras, durante uma participação no programa de Geraldo Luís, na TV Record.
Assista:
Antes de alcançar a popularidade nas redes sociais, Jotinha também encontrou espaço na comunicação tradicional. Seu carisma e a habilidade com frases engraçadas renderam uma oportunidade na Paraíso FM, considerada a principal rádio de Elísio Medrado.
A experiência ajudou a consolidar o estilo que posteriormente conquistaria a internet. A voz inconfundível, as respostas rápidas e a maneira espontânea de interagir com as pessoas fizeram com que o deixasse de ser apenas uma figura conhecida na cidade para se tornar um nome reconhecido em diferentes regiões do país.
Com a popularidade, vieram oportunidades comerciais. Jotinha passou a estrelar campanhas publicitárias de farmácias, pizzarias, autoescolas, armarinhos e padarias em municípios do interior baiano, especialmente na região sudoeste do estado.
O dinheiro conquistado com os trabalhos realizados permitiu que realizasse alguns sonhos pessoais. Entre eles, comprar terrenos em Elísio Medrado e proporcionar à mãe uma casa grande no centro da cidade.
Além disso, a fama também abriu portas inesperadas, quando o humorista recebeu convites para participar de programas de televisão e esteve no "The Noite", apresentado por Danilo Gentili, no SBT. As aparições ajudaram a apresentar seu jeito peculiar de fazer humor a quem ainda não acompanhava seus conteúdos pela internet.
Mesmo com a projeção nacional, Jotinha não abandonou suas raízes e continuou vivendo em Elísio Medrado e mantendo a relação próxima com os amigos e familiares que acompanharam sua trajetória desde antes da fama.
De forma curiosa, depois da experiência como candidato a vereador, recebeu um convite para disputar uma vaga de deputado federal, com a perspectiva de conquistar muitos votos, mas preferiu recusar.
Segundo Dégo, a decisão também teve influência da mãe, que não queria ver o filho envolvido novamente na política. Os dois tinham uma relação muito próxima e passaram boa parte da vida juntos.
Jotinha fazia tudo que Dona Terezinha pedia. Ele morou a vida toda com ela e um cuidava do outro”, relatou o amigo.
Assista:
Uma das pessoas mais importantes na trajetória de Jotinha foi justamente quem acompanhou de perto sua vida antes e depois da popularidade: a mãe, Teresinha Cezar. Em uma reportagem da TV Bahia, o humorista recebeu a visita da repórter Briza Menezes e apresentou um pouco de sua rotina em casa.
Ao lado da mãe, contou como os primeiros conteúdos começaram a circular e revelou detalhes da relação com os admiradores.
Teresinha também participava da produção dos vídeos do filho, acompanhando de perto a construção do personagem que conquistou o país. A participação dela ajuda a compreender que o sucesso não surgiu de uma estratégia elaborada de divulgação, mas de uma dinâmica familiar e de amizades que acabou ganhando proporções nacionais.
Segundo Dégo, Jotinha permaneceu ao lado da mãe durante praticamente toda a vida, e ela também era uma referência importante em suas decisões pessoais e profissionais. Mesmo quando a fama abriu possibilidades para uma mudança de vida, o humorista preferiu permanecer na cidade natal.
Há 6 anos, em 5 de novembro de 2020, a trajetória de Jotinha foi interrompida de maneira inesperada. O humorista morreu aos 52 anos, no começo da noite de uma quinta-feira, em decorrência de complicações da Covid-19.
O comediante estava internado desde a terça-feira (3) em uma unidade particular de saúde em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano. O quadro clínico se agravou após apresentar problemas respiratórios, e o humorista precisou ser colocado em coma.
Na tarde do dia da morte, o perfil oficial de Jotinha divulgou o resultado positivo para a Covid-19. A publicação foi acompanhada da mensagem: "Acabamos de receber o resultado do exame. Infelizmente, deu positivo para a Covid-19".
O humorista Tirullipa chegou a fazer um apelo público para que as autoridades providenciassem a transferência de Jotinha para Salvador. O então secretário estadual da Saúde, Fábio Vilas-Boas, respondeu que a condição clínica não permitia o transporte por UTI aérea.
Infelizmente, Tirullipa, a situação clínica do nosso Jotinha é muito grave e não há condições de remoção por UTI aérea para Salvador. Felizmente, o Hospital Incar, onde está internado em Santo Antônio de Jesus, possui todos os recursos", escreveu.
Após a confirmação da morte, Vilas-Boas também lamentou a perda nas redes sociais. Segundo o secretário, o humorista morreu em decorrência de falência múltipla de órgãos provocada pela doença: "Meus sentimentos à família enlutada e a todos que o admiravam", declarou.
A notícia também foi comunicada aos seguidores por meio de um vídeo publicado no Instagram do próprio humorista. A pessoa responsável pela gravação demonstrou a dificuldade de transmitir a informação.
Eu venho contar uma notícia que nenhum de vocês queria ouvir. E eu também não queria dar para vocês. Mas ele faleceu gente. Acabei de saber", afirmou.
O sepultamento aconteceu na manhã de 6 de novembro, às 8h30, no cemitério de Elísio Medrado. Por causa dos protocolos sanitários da pandemia, o caixão permaneceu lacrado. Familiares não puderam acompanhar a cerimônia, pois estavam isolados em casa enquanto aguardavam os resultados de testes para a Covid-19.
Mesmo diante das restrições, a despedida foi marcada pela comoção dos moradores. Uma carreata acompanhou o pequeno caixão pelas ruas do município, que decretou luto oficial de três dias. ‘Adeus, papá’!
A notícia foi recebida com muito pesar, sobretudo, no futebol nordestino. Vários clubes expressaram suas condolências a Jotinha, um torcedor emblemático do Bahia. Até o Leão da Barra, maior rival do Tricolor de Aço, lamentou a morte do humorista nas redes sociais.
Confira abaixo as homenagens:
Valeu, Jotinha! #DescanseEmPaz https://t.co/BpZFd1qHR4
— EC Bahia (@ecbahia) November 5, 2020
O Esporte Clube Vitória deixa a rivalidade de lado e lamenta o falecimento do humorista baiano Jotinha. Nossos sentimentos à família, amigos e fãs. Vá em paz, papá! 🖤 https://t.co/ECeAQUyWSf
— EC Vitória (@ECVitoria) November 5, 2020
Classificação Indicativa: Livre
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