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‘Tem que matar, ele mereceu tomar uns tiros’: Mensagens de ex-atacante do Vitória assustam a polícia em investigação sobre tráfico

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David Corrêa teria trocado mensagens com ex-agente apontado como chefe do tráfico na Serra; conversas sobre tiros, armas e dinheiro chamaram atenção  |   Bnews - Divulgação Reprodução / Redes Sociais
Tiago Di Araújo

por Tiago Di Araújo

tiago@bnews.com.br

Publicado em 04/09/2026, às 07h49



O atacante David Corrêa, do Vasco, tornou-se um dos principais nomes envolvidos na investigação da Operação A Tropa, deflagrada pela Polícia Civil do Espírito Santo para apurar uma organização criminosa suspeita de atuar com tráfico de drogas e armas e lavagem de dinheiro.

O nome do jogador apareceu durante a análise do celular de Édson Vander da Silva Júnior, que era agente e responsável pela gestão da carreira e da vida financeira de David. Segundo a Polícia Civil, Édson também exercia posição de liderança no tráfico de drogas do bairro Serra Dourada III, na Serra, na Grande Vitória.

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david correa e agente
David Corrêa, Edson Vander da Silva Júnior, investigado por tráfico, e Hayner, do Vila Nova

Entre as mensagens encontradas no aparelho estão três diálogos que chamaram especialmente a atenção dos investigadores. Em um deles, David teria afirmado que uma vítima de tentativa de homicídio “mereceu tomar uns tiros”. Em outro, após receber a fotografia de uma pistola, respondeu: “Tem que matar um pra ver de qual é”. No terceiro, o nome do jogador aparece em um pedido de dinheiro para a troca do carro usado no crime.

Para a polícia, o conjunto das conversas levantou a suspeita de que o atleta poderia estar financiando o tráfico de drogas na região.

Investigação começou após tentativa de homicídio

A apuração teve origem em uma tentativa de homicídio ocorrida em 15 de março de 2024, no bairro Novo Porto Canoa, na Serra.

Segundo o delegado Rodrigo Sandi Mori, chefe da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Serra, a vítima havia sido sequestrada em Serra Dourada III e levada até Novo Porto Canoa.

Quando os executores chegaram ao local, a vítima aproveitou um momento de distração para sair do veículo e tentar fugir. Durante a fuga, foi atingida por um disparo e caiu no chão.

Um dos criminosos teria se aproximado para verificar se ela estava morta. Mesmo assim, o homem se fingiu de morto e acabou atingido novamente, desta vez nas costas. A vítima sobreviveu e posteriormente colaborou com a investigação.

A polícia descobriu que o ataque teria sido motivado pela suspeita de que o homem estivesse repassando informações sobre as atividades do tráfico para um grupo rival.

“Quem organizou e mandou matar a vítima foi o Edson Vander da Silva Júnior, que, à época do crime, era agente do principal investigado na operação”, afirmou Rodrigo Sandi Mori.


Celular do ex-agente revelou conversas com David

A partir da prisão de Édson e da extração, autorizada pela Justiça, dos dados de seu celular, os investigadores encontraram conversas diretas entre ele e David.

O material passou a ser analisado pela DHPP, que identificou três diálogos considerados relevantes para a investigação.

No primeiro, Édson teria informado David sobre a tentativa de homicídio, relatando inclusive o motivo pelo qual a vítima teria sido atacada e seu estado de saúde.

A resposta atribuída ao jogador foi direta:

“Mereceu tomar uns tiros mesmo.”

Em seguida, segundo a polícia, surgiu outro diálogo que chamou a atenção dos investigadores. Édson enviou uma fotografia de uma pistola para David.

A resposta teria sido:

“Tem que matar um pra ver de qual é.”

As duas mensagens foram apresentadas pelo delegado Rodrigo Sandi Mori durante a coletiva da Polícia Civil.

david

Polícia investiga possível financiamento do tráfico

O terceiro diálogo considerado relevante envolve dinheiro e o veículo usado na tentativa de homicídio.

Três dias depois do crime, Ruan de Freitas Camargo Cruz, apontado como um dos envolvidos no ataque, teria enviado um áudio para Édson pedindo que ele intermediasse uma negociação com David.

O objetivo seria conseguir dinheiro emprestado para trocar o veículo utilizado na tentativa de homicídio.

Tratava-se de um Fiat Argo que, segundo os próprios envolvidos, estaria “queimado” por ter sido usado no crime.

Édson teria encaminhado o áudio para David. Para a Polícia Civil, essa conversa, somada aos outros dois diálogos, levantou uma suspeita específica sobre a participação financeira do jogador.

“Esses fatos chamaram a nossa atenção para um possível financiamento do tráfico de drogas do bairro Serra Dourada III pelo investigado”, explicou Rodrigo Sandi Mori.

Diante da descoberta, a DHPP compartilhou a extração dos dados do celular de Édson com o Centro de Inteligência e Análise Telemática (CIAT), responsável por aprofundar a apuração.


Ex-agente de David também comandava tráfico

A relação entre David e Édson ganhou ainda mais importância porque, segundo a investigação, o ex-agente ocupava simultaneamente duas posições distintas.

De um lado, administrava a carreira e as finanças do jogador. Do outro, teria assumido, junto com Ruan, o controle do tráfico em Serra Dourada III.

De acordo com Rodrigo Sandi Mori, a liderança criminosa teria começado após a morte de um homem conhecido como Leleto, ocorrida em 6 de março de 2024.

A análise do celular de Édson, segundo o delegado, revelou conversas relacionadas à compra de drogas, armas de fogo, munições, valores e divisão de tarefas.

“Ele controlava toda a vida financeira do investigado à época do crime”, afirmou Mori sobre a relação entre Édson e David.

O delegado foi questionado se a atuação poderia ser comparada à de um empresário. “Exatamente, controla a vida financeira, a carreira do investigado, e era um traficante também”, respondeu.

Na sequência, Mori reforçou a convicção da polícia sobre a atuação de Édson no tráfico: “Posso afirmar com absoluta certeza diante das provas que temos nos autos”.

Édson foi preso em operação anterior

Após a investigação da tentativa de homicídio, a Polícia Civil representou pela prisão temporária dos suspeitos.

Em 20 de agosto de 2024, uma operação prendeu Ruan e Édson. O ex-agente de David foi localizado em um apartamento no bairro Itaparica, em Vila Velha, imóvel apontado como de sua propriedade.

ruan e edson

Foi a partir do celular apreendido com Édson que a polícia encontrou o material envolvendo o jogador.

Segundo Rodrigo Sandi Mori, os investigados pela tentativa de homicídio já são réus em ação penal. A denúncia foi recebida pela Justiça, e eles aguardam presos as próximas etapas do processo, incluindo a pronúncia e, posteriormente, eventual julgamento pelo Tribunal do Júri.

Operação A Tropa ampliou investigação

A análise do aparelho de Édson não terminou nos três diálogos envolvendo David. O material foi encaminhado ao CIAT, que aprofundou a investigação e identificou novos elementos relacionados à organização criminosa.

O trabalho resultou na Operação A Tropa, deflagrada na segunda-feira (31), com o cumprimento de quatro mandados de prisão temporária e 15 mandados de busca e apreensão.

As ações ocorreram simultaneamente no Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e Distrito Federal. A operação mobilizou aproximadamente 120 policiais civis, além do apoio aéreo do Núcleo de Operações e Transporte Aéreo (NOTAER).

Segundo o delegado-geral da Polícia Civil do Espírito Santo, Jordano Bruno, a operação foi resultado de um trabalho baseado em inteligência e análise de provas.

“Houve uma mobilização de aproximadamente 120 policiais civis, colaboração do NOTAER através do apoio aéreo, tivemos policiais civis atuando em conjunto com outros estados da Federação, como Goiás, Distrito Federal, Rio de Janeiro”, afirmou.

O delegado destacou ainda a integração entre as forças policiais. “Tudo de forma simultânea, muito bem coordenada. Um trabalho realizado a partir de inteligência, provas técnicas robustas, mostrando a eficiência e a capacidade operacional das Polícias Civis de se articularem e atuarem no combate e enfrentamento à criminalidade”, disse.

Vasco não é alvo da investigação

Durante a coletiva, o CIAT fez questão de esclarecer a situação dos clubes que tiveram endereços submetidos a buscas.

Segundo Augusto Giorno, os clubes não possuem qualquer relação com a investigação. “Em relação aos clubes que foram objeto das buscas, eles não têm qualquer tipo de relação com a investigação e foram extremamente colaborativos”, afirmou.

No caso do Vasco, os policiais estiveram no centro de treinamento do clube, em Jacarepaguá, após o cumprimento do mandado relacionado ao jogador.

Segundo as informações divulgadas anteriormente, nenhuma apreensão foi realizada no CT.

Dois celulares de David foram apreendidos

A residência de David, em um condomínio na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, também foi alvo de busca durante a Operação A Tropa.

Os policiais apreenderam dois celulares do atacante. O jogador acompanhou a ação e depois seguiu para o centro de treinamento do Vasco, onde os agentes também realizaram buscas.

A apreensão dos aparelhos poderá permitir que os investigadores confrontem as informações já encontradas no celular de Édson com eventuais dados existentes nos dispositivos do jogador.

O delegado Augusto Giorno afirmou que a investigação continuará contando com a colaboração das polícias dos quatro estados envolvidos na operação.

Polícia ainda tenta descobrir alcance da relação

Apesar das mensagens já divulgadas, a Polícia Civil afirma que ainda há elementos sob sigilo que podem ajudar a esclarecer o real alcance da relação entre David e os investigados.

O CIAT deverá aprofundar a análise dos dados compartilhados pela DHPP, incluindo outros diálogos e eventuais movimentações financeiras.

A investigação também busca determinar se os contatos e possíveis transferências de dinheiro mantidos por David com antigos conhecidos tinham caráter exclusivamente pessoal ou alguma relação com as atividades criminosas investigadas.

Até o momento, a Polícia Civil não apresentou uma conclusão pública de que David Corrêa tenha participado diretamente dos crimes investigados.

A existência de mensagens, amizade ou movimentações financeiras, isoladamente, não é suficiente para estabelecer responsabilidade criminal, e o conteúdo dos demais elementos permanece sob sigilo judicial.

O Vasco informou que colabora com as autoridades e, enquanto a investigação estiver em andamento, David seguirá trabalhando normalmente. O atacante chegou a entrar em campo contra o Vitória, pela Copa do Brasil, na noite de quarta-feira (2).

As investigações da Operação A Tropa continuam sob coordenação do Centro de Inteligência e Análise Telemática da Polícia Civil do Espírito Santo.

Classificação Indicativa: Livre

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