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Do auge ao preconceito: como os motéis tentam se reinventar e conquistar uma nova geração em Salvador

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Empresários enfrentam preconceito e buscam novas estratégias para revitalizar o setor de motéis em Salvador  |   Bnews - Divulgação Reprodução/BNews
Mariana Bamberg

por Mariana Bamberg

Publicado em 20/05/2026, às 05h00



Se antes eles faziam fila de carros na rua, estampavam outdoor e entoavam jingles na rádio, hoje seu espaço no imaginário soteropolitano é bem mais discreto. O fervor do mercado dos motéis não é mais o mesmo em Salvador. Os próprios empresários reconhecem isso e tentam novas estratégias para enfrentar o maior adversário do setor: o preconceito. 

Motel é cafona? Perdeu o sentido? A equipe do BNews foi às ruas ouvir a opinião da população e saber se ela iria a um dos 28 motéis registrados na Secretaria da Fazenda de Salvador.

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A jovem Vitória é direta ao afirmar que nunca iria: “saiu de moda [...] já virou algo sujo”. O amigo dela, Cauã, também demonstra aversão: “acho ultrapassado, não tenho problema com quem gosta, mas não gosto”.  A opinião não é restrita aos jovens. Gilma, de 60 anos, também diz que jamais iria a um motel se fosse convidada pelo marido.

Mas nem sempre foi assim. A própria Gilma conta que, quando era jovem, ia e gostava muito. “Preconceito [naquela época]? Não. Por que [teria]? Um lugar maravilhoso, tem até piscina”, diz. As histórias que Cauã escutava do avô também trazem os motéis em destaque: “ele gastava o dinheiro sempre assim, indo para os motéis”, conta.

A fase de ouro dos motéis durou da década de 70 até os anos 2000. Nesse período, eles nos intervalos para almoço, em ruas movimentadas, como a Avenida Pinto de Aguiar (conhecida como Rua dos Motéis) em Salvador e até nas rádios. O jingle de um deles virou até sucesso da MPB na voz de Maria Bethânia. A letra de “Cheiro de Amor” é, na verdade, um jingle escrito pelo publicitário baiano Duda Mendonça para uma campanha de Dia dos Namorados do Motel Le Royale. Explodiu tanto que Bethânia quis gravar. 

Mas muita coisa mudou dos anos 70, quando essa música estourou, até aqui. A maneira de se relacionar, os espaços e até a forma de se expor. Cauã, por exemplo, cita que prefere ser chamado para um Airbnb ou até para a casa da pessoa na hora da paquera. Já outro jovem, Davi, diz que prefere substituir motéis por lugares improvisados, como um carro ou uma praia deserta, “preservando, claro, a intimidade do casal”.

Ainda assim, o setor não acredita que a mudança nas formas de se relacionar e as outras alternativas de hospedagem sejam os principais adversários do mercado hoje. Dono de motel e conselheiro da Associação Brasileira de Motéis (ABMotéis), Adroaldo Neiva defende que o maior concorrente é o preconceito criado a partir da acomodação do setor. 

Aconteceu muito por conta dos próprios motéis, porque se deixou de investir, eles passaram a envelhecer. Então é óbvio que uma pessoa que vem a um motel, em uma suíte que há 30 anos era super moderna, bacana e hoje está velha, ela não volta mais. Na cabeça dela, ela fica até com receio se aquele ambiente é limpo, seguro. Com certeza os motéis tem a preocupação com a limpez, mas a percepção que fica com o cliente é isso”, explica.

Mas, para acompanhar as mudanças e o perfil dos clientes, que passaram a ser formados majoritariamente por casais estáveis, os motéis precisaram revolucionar, em um movimento conhecido no setor como nova motelaria. Investiram em arquitetura, estética, experiência, conforto, cardápio e em um novo tipo de cliente. Há agora nos quartos até espaços instagramáveis, para jogar o segredo direto nas redes.

“Hoje as pessoas não vão pro motel só para fazer sexo, até porque ninguém faz sexo a noite inteira. Você vai jantar, vai assistir a um filme, vai tomar um café da manhã legal [...] Então gente investiu não só na qualidade da suíte, mas também em gastronomia, desenvolver um cardápio bacana, padronização. Esse conjunto de reformas feitas é que o mercado chama de nova motelaria”, afirma Adroaldo, pontuando que, aos poucos, os clientes vêm percebendo essa mudança e voltando a frequentar os motéis.

O desafio agora, segundo ele, é fazer com que todos os empresários entrem no movimento, para assim modificar o preconceito existente contra o setor como um todo.

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