Geral
É impossível imaginar a Bahia sem as baianas, suas roupas brancas, seus acarajés e quitutes. A presença delas nos mais diversos espaços, largos, praças e esquinas do território baiano reforçam o significado da cultura negra, da mulher negra e das religiões de matriz africana, reafirmando a diversidade cultural brasileira em todos os seus sentidos.
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As baianas de acarajé são muito mais do que suas vestes, contas, águas de cheiro e tabuleiros. Elas são as verdadeiras guardiãs de uma história marcada por muita luta e diversas dores, que atravessa séculos, territórios e gerações, com um ofício que se traduz diariamente em expressão de fé, trabalho e resistência cultural.
Muitos se enganam, sobretudo os turistas, ao imaginarem que encontrarão esses verdadeiros símbolos da Bahia, de sua cultura e de sua fé, apenas nas ruas do Centro Histórico de Salvador. Elas estão nas esquinas, praças, ruas e nas avenidas de grande circulação da primeira capital do Brasil e também no interior do estado, contando suas histórias, replicando rituais, receitas e crenças, mantendo viva a religiosidade e a cultura que fazem da Bahia um território único.
Esbanjando simpatia, elas laçam a todos pelo estômago e pelo carisma, desempenhando um papel fundamental na preservação da memória afro-baiana. No fundo, cada fio de conta, cada turbante, cada bolinho de feijão mergulhado no legítimo azeite de dendê quente carrega uma história iniciada com as primeiras mulheres negras livres, após anos de escravidão, abusos, violências, indignidades, e que encontraram no tabuleiro sustento, autonomia e esperança, ainda que hoje a profissão demande longas jornadas e enfrente os desafios do empreendedorismo e a luta contra o preconceito e a intolerância.
O BNews foi às ruas de Salvador e de algumas cidades do interior do estado conhecer as histórias de algumas dessas mulheres marcadas por força, ancestralidade e orgulho.
Fátima França, ou simplesmente Zita do Acarajé, trabalha no bairro de Narandiba, na capital. Para ela, ser baiana de acarajé é sinônimo de amor.
“Eu sou do Candomblé. Então, eu sempre tive uma paixão pela culinária baiana, pelos Orixás. Então, assim, eu sempre quis vender a carajé. Não só por, vamos dizer assim, por necessidade, mas sim porque eu gosto. E aí eu comecei a fazer, tomei o curso no Senac. Tomei dois cursos no Senac, na verdade. E aí abri um pequeno espaço. Aqui é o melhor que tem. Então assim, pra mim é gratificante, entendeu? Muito, muito gratificante você fazer uma coisa, o povo gostar e pedir referência. Então pra mim foi assim. Pra mim foi e é tudo de bom, sabe? É uma coisa que eu amo fazer porque eu amo. Eu não tenho nem palavras pra explicar a sensação de você fazer o que você gosta, porque eu acho assim, independente da necessidade, de você fazer porque você precisa de dinheiro, você tem que fazer o que você gosta. É minha paixão mesmo. Eu faço meu acarajé, frito minha passarinha, faço meu peixinho, faço caldo de sururu, caldo verde, entendeu? Eu faço o que eu gosto”, disse.
Citando a religião, Zita, em lágrimas, falou do orgulho da profissão e da missão.
Eu sou filha de santo, né? Então, assim, meu orixá é Iansã. Eu me vejo nisso, eu me vejo muito, muito. Então, a minha referência hoje é minha mãe. E ela me disse uma vez incorporada que era pra eu nunca parar de vender. Isso aí é a raiz, é a minha raiz com ela, entendeu? É o que ela me deu de presente. Minha palavra é gratidão, sabe? Porque eu ter conseguido, por minha família ter me apoiado. Ter meu filho, meu marido, minha família me apoiando, eu só tenho que agradecer. Então, eu fiquei até emocionada porque assim, sem eles não posso fazer nada, né?”, desabafou emocionada.
Para muitas, o tabuleiro é uma missão espiritual que, ao toque do atabaque e com a força das ialorixás, honra suas antepassadas que aprenderam e ensinaram os valores da tradição e os significados da cultura e religião.
Liliane Rodrigues tem 39 anos, atua em Madre de Deus, na Região Metropolitana de Salvador. Ela se diz baiana “por essência” e se orgulha de ter criado um filho e constituído sua família a partir do tabuleiro.
“Sou baiana de essência, isso quer dizer baiana desde a barriga da mãe, onde tenho orgulho em dizer que essa profissão é de herança familiar, onde carrego esse amor por minha essência. Desde os 14 anos de idade assumi um tabuleiro que minha mãe tinha na praia em Jaguaribe, em Salvador. E quando me tornei maior de idade, procurei família, hoje tenho um filho de 14 anos, foi criado também do tabuleiro de acarajé e toda família trabalha nessa mesma empresa que hoje, em homenagem a minha mãe, dei como nome de "Acarajé da Lúcia" e fica localizada na praia de Madre de Deus”, disse.
Liliane conta ainda como perdeu praticamente tudo no período da pandemia e como recuperou sua vida a partir do tabuleiro.
“Durante toda minha trajetória, meu maior desafio foi quando vivemos o tempo da pandemia. Fechou tudo e me deparei sem ‘eira e beira’, sem como me sustentar. Tive que morar no ginásio Poliesportivo em Madre de Deus por conta que não tinha condições de pagar meu aluguel e nem água, luz. Depois, fizemos uma ocupação em um terreno da prefeitura em Madre de Deus. Hoje, tudo o que tenho vem do meu tabuleiro de acarajé. Não é fácil chegar onde almejamos, mas a nossa resistência e coragem de nos tornarmos uma pessoa reconhecida, nos motiva, dá esse gás de prosseguir. Além de ter meu trabalho como baiana, me tornei coordenadora da ABAM (Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivos da Bahia) aqui no município de Madre de Deus, onde hoje me tornei referência pra muitas baianas. Procuro viver na forma que nosso patrimônio exige”, alegou.
Em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, Rosilene Santana exerce seu ofício com muita dedicação e respeito.
“Comecei e aprendi dentro do terreiro, mas só vim colocar tabuleiro quando precisei estudar e cuidar da minha família. Comecei a trabalhar como baiana para manter a família e pagar meus estudos. Ser baiana de acarajé é ser mulher, preta e resistente. Sou pós-graduada em Psicologia Social e Antropologia, cannabis medicinal, fitoterapia e prescrição fitoterápica e mestra em Antropologia da População Afro-Brasileira e assessora parlamentar”.
Rosilene, faz um desabafo duro sobre a falta de valorização da profissão pelo Poder Público.
“O maior desafio é ver que os governantes não se importam com a primeira profissão feminina pós-escravatura e até hoje a gente vê sendo vendido o acarajé e a baiana caracterizadas e sem fiscalização dos órgãos públicos. Mais um racismo religioso, cultural e estrutural. Tenho o maior orgulho de ser baiana de acarajé e associada da ABAM. Em Vitória da Conquista eu sou a única baiana que se veste a caráter. Ser baiana é ter dendê dentro das veias, ter resistência da mulher negra e orgulho de ser baiana. A baiana é a cara do Brasil e da Bahia. Lembro que o acarajé é comida sagrada de Oyá e outras e outros orixás”, desabafou.
Cada relato dessas baianas expõe narrativas de superação, pertencimento e identidade. Essas mulheres encontraram na tradição o sustento dos filhos, dos estudos, a possibilidade de conquistar independência e ocupar espaços onde antes eram invisíveis.
Símbolo em Feira de Santana, Ana Angélica encontrou no tabuleiro a chance de fugir de humilhações e gritos durante a vida e o trabalho.
“Minha história começou com meus 15 anos, comecei trabalhando para os outros, para uma senhora lá. E trabalhava, era muito humilhada por ela. Gritava muito. Mas aí eu fui aprendendo, aprendendo. E aí, comecei a trabalhar para mim. Botando um pouquinho dali, um pouquinho daqui, com meio quilo de feijão ali, meio quilo aqui. E aí comecei trabalhando para mim mesmo. Eu construí família através do meu trabalho. Criei meus filhos, eu tenho três filhos, criei uma neta e, por honra e glória ao Senhor, criei todos eles através do meu trabalho de baiana de acarajé. Eu comecei com 15 anos, eu tenho 52 anos, mais ou menos. Criei meu filho, criei meu sobrinho, criei meu filho, ajudei criando meu sobrinho, ajudei muitos amigos, ajudo ainda. Quando eu olho para minha caminhada, eu me sinto orgulhosa de saber que eu, sendo uma mulher, uma baiana, cheguei até onde eu estou, através do meu trabalho, porque ser baiana é uma excelente profissão, é ser uma mulher guerreira. As baianas são guerreiras, são mulheres corajosas, são mulheres que têm o dom de seguir adiante. Trabalhadeiras, todas as baianas, são guerreiras. Eu olhar para minha casa, saber que foi ali fruto do meu trabalho. Olhar para meu filho, ver meu filho trabalhando, tudo bem. Saber que foi fruto do meu trabalho, fruto do meu tabuleiro de acarajé. Sendo uma baiana”, contou emocionada.
De Lauro de Freitas, Cida Paim comemora que criou suas filhas e fez duas faculdades a partir to tabuleiro de quitutes.
“Aprendi a fazer acarajé dentro do terreiro de candomblé com o meu pai de santo, pela vontade de preparar a comida do meu orixá de cabeça. Cheguei até aqui porque sou símbolo de resistência. Mais do que um trabalho, é um ofício sagrado, um empreendedorismo muitas vezes solitário, que exige dedicação diária, conhecimento profundo dos ingredientes (como o azeite de dendê o feijão certo) e habilidade manual. Quando me separei, coloquei o tabuleiro na rua e fui correr na frente do meu prejuízo, terminei de criar meus filhos e fiz duas faculdades. Passei o ofício para minhas filhas, hoje trabalham com outra coisa, porém se eu precisar sei que posso contar com elas", afirmou.
Cida celebra ainda a possibilidade de ser referência e passar seus conhecimentos para outras mulheres.
“Hoje estou Coordenadora da ABAM em Lauro de Freitas e faço oficinas de comida de tabuleiro em associações e escolas. É um desafio ser guardiã de uma tradição afro-brasileira, símbolos vivos da cultura baiana e da resistência. O acarajé que vendo carrega consigo história, identidade e um sabor único que representam a alma de um povo. A minha vida e o significado de ser baiana de acarajé se tornou para mim um universo fascinante de tradição, resiliência e cultura.É prazeroso ver a transformação na vida das mulheres que passam pelas oficinas que ministro”.
As histórias de Zita, Liliane, Rosilene, Ana Angélica e Cida se entrelaçam em um mesmo significado que atravessa o tempo: ser baiana de acarajé é muito mais do que vender um quitute. É carregar no corpo e no tabuleiro a memória, a cultura, a religiosidade, a força e o saber de um povo.
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