Geral
por Leonardo Oliveira
Publicado em 26/05/2025, às 14h42 - Atualizado às 14h53
Uma pesquisa do Instituto de Biociências (IB) da Universidade de São Paulo (USP) revelou uma interação significativa entre humanos pré-históricos e mamíferos gigantes da megafauna brasileira. O estudo, baseado na análise de materiais paleontológicos coletados em cavernas no sul de São Paulo, especificamente no Vale do Ribeira de Iguape, sugere que dentes de Toxodontes (Toxodon platensis) eram utilizados como adereços ou ornamentos.
Os fósseis, incluindo 26 dentes de quatro indivíduos e um osso da mandíbula, foram encontrados em expedições nas cavernas Abismo Ponta de Flecha, Abismo do Fóssil e Abismo Juvenal. Coletados principalmente nas décadas de 1970 e 1980, esses materiais estavam guardados no Instituto de Geociências e no Museu de Zoologia da USP antes de serem reexaminados no Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos (LEEH) da mesma universidade.
Evidências de uso como adorno
A pesquisa, publicada na Revista Brasileira de Paleontologia, destaca incisões em dois dentes de Toxodon platensis que são compatíveis com a manipulação por ferramentas líticas (de pedra) usadas por grupos pré-históricos. Segundo o pesquisador do IB, Artur Chahud, existem "indícios claros de que alguém, no passado, tentou remover um dente da mandíbula do animal". Ele ressalta que, ao contrário de vestígios de outros animais com marcas de consumo alimentar, "no caso do Toxodon parece improvável que o dente tenha sido de intenção alimentar". A hipótese principal é que os dentes, extraídos após a morte do animal, serviam para ornamentação.
O Toxodonte, um mamífero que podia pesar cerca de 1.330 kg e medir 3 metros de comprimento, além de uma cauda de 50 cm, teve sua extinção possivelmente influenciada por mudanças ambientais e caça humana. Paulo Ricardo de Oliveira Costa, aluno de Iniciação Científica no LEEH e primeiro autor do estudo, explicou a provável motivação para a extração dos dentes: "Essa espécie (toxodonte) tem dentes muito grandes, com um formato único e chamativo, nossa hipótese é que tenham encontrado o corpo do animal se sentiram atraídos pelos dentes e tentaram extraí-los".
O valor simbólico desses adornos também foi considerado. "Imagine o impacto visual de um adorno confeccionado com um dente de Toxodon, um dente enorme que possui dimensões comparáveis às de um smartphone. Certamente se tratava de um objeto chamativo, que poderia carregar significados diversos, seja de status, identidade ou pertencimento social", ponderou Chahud.
Essa descoberta é particularmente relevante, pois, como aponta Mercedes Okumura, coordenadora do LEEH, no Brasil não havia evidências claras de consumo de megafauna, diferentemente de outros locais na América do Sul, o que reforça a ideia de uma interação manipulativa para outros fins.
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Outras descobertas e implicações
Além da interação humana, a análise dos dentes revelou a presença de hipoplasia do esmalte dentário em um dos exemplares de Toxodonte. Costa explicou que essa condição, caracterizada por uma deficiência na deposição do esmalte, "pode ser desencadeada por vários fatores, mas uma causa que parece ser comum para o surgimento dela é o animal ter passado por algum episódio muito estressante ou ter tipo algum problema nutricional durante a fase de formação dos dentes na infância".
O estudo também registrou a presença da espécie Mixotoxodon larensis em uma região mais ao sul do que se conhecia anteriormente, ampliando o entendimento sobre sua distribuição geográfica na América do Sul.
Os pesquisadores enfatizam a importância da preservação de acervos de museus, pois materiais coletados há décadas ainda podem gerar novos conhecimentos com o avanço de tecnologias e metodologias de análise. "Impressionante como materiais guardados em museus tem o potencial de revelar novos conhecimentos. Isso reforça a importância da preservação dos nossos museus", destacou Mercedes Okumura.
Esses estudos são cruciais para entender as transformações ecológicas do passado e como elas moldaram a biodiversidade, contribuindo para a área da Paleobiologia da Conservação.
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