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“Painho e Papaizinho”: Conheça a história da pequena Lis Bella e seus dois pais

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"Ela criou, por conta própria, uma certa nomenclatura, para mim é painho e para ele papaizinho", contou Lui, um dos dois pais de Lis  |   Bnews - Divulgação Arquivo Pessoal


Ter um pai é bom, mas ter dois, é ainda melhor. E esse privilégio é de crianças, adolescentes e até adultos, oriundos de uma relação homoafetiva, onde a paternidade foi uma escolha, mas, sobretudo, um ato de amor. São filhos adotados ou consanguíneos — resultado de uma fecundação tradicional ou por meio de reprodução assistida, em uma barriga solidária — que dão o sentido de “família” para muitos desses casais.

Fred Soares, de 44 anos, diretor artístico e produtor cultural; Lui, de 39, artista e também produtor cultural; e a pequena Lis Bella, de sete anos, são exemplo de uma dessas famílias. Residindo em Salvador, na Bahia, a menina foi adotada por Fred quando tinha alguns dias de vida e, desde então, são inseparáveis. Acontece que a genitora de Lis fez o parto já a encaminhando para a adoção, pois, devido às suas condições, já previa que não conseguiria cuidar da criança.

Pouco mais de um ano depois, ao começar a se relacionar com Lui, deixou bem claro: “olha, se você quiser namorar, ok. Mas não quero saber de ‘fica aqui, fica ali’, é para namorar. E eu já tenho um pacote completo”, disse o diretor ao se referir a suas duas filhas; Lis Bella e Bella, sua pet. Mas quem conta os detalhes dessa história ao BNews é o “painho” de Lis, Lui.

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Reprodução/ redes sociais

“Quando eu o conheci [Fred], ele já era pai. Ele decidiu ser pai solo um pouquinho antes. Então, eu digo, inclusive, que na verdade, Lis que me adotou. Quando eu cheguei, ela tinha um ano e pouquinho e eu consegui pegar um pouco da fase dela dando, literalmente, os primeiros passos, conhecendo o mundo, organizando a fala. E, para mim, foi um processo bem particular, porque ela e ele, naturalmente, já tinham uma relação muito afinada”, recorda o artista.

Entretanto, isso não foi um problema para Lis, que logo achou um espaço em seu coração. “Eu fui aquele estrangeiro, né? O de fora, o diferente, e eu lembro muito que eu às vezes pegava Lis Bella, por exemplo, no colo, para ninar, e é uma coisa que Fred não fazia e, para ela, era muito estranho, então ela chorava e eu dizia: ‘meu Deus do céu, ela não está me aceitando’ (...) para mim, isso era uma dor, uma coisa bem difícil (...) Tanto que primeiro dia que ela olhou para mim e falou, painho, ela me desmontou".

A partir dali, ela criou, por conta própria, uma certa nomenclatura, para mim é painho e para ele papaizinho”, revelou Lui.

Essa naturalidade faz parte daquilo que Fred e Lui propõem em sua família. “Ela tem isso muito organizado na cabeça. Na escola, não é uma questão. Claro, a gente buscou uma escola que tivesse uma abordagem que fosse de inclusão, que tivesse diversidade como um dos pilares e tal. Ela já passou por três instituições e toda elas tinham essa perspectiva de maneira muito afirmativa, com outras famílias homoafetivas. Na verdade, pensar a família de um modo mais plural, não é só diferença de gênero e sexo, é diferença de composição mesmo; tem famílias que só tem o pai, famílias que só tem mãe— a maioria das famílias só tem mãe– ou avó, ou uma tia, e essa é uma condição do nosso país”, pontuou o pai de Lis.

Mesmo a escola não sendo um problema, Lui revela que esse assunto também não é um tabu em casa: “Lis Bella fez sete anos, então já tem uma consciência, ela já pergunta; como nasceu? Da barriga de quem? E a gente explicou que ela não nasceu da minha barriga, nem da de Fred (...) que ela nasceu da barriga de uma mulher que não pôde cuidá-la, então a entregou para que a gente pudesse dar amor, carinho, uma condição de vida boa para ela viver. A gente não trata isso de um modo ‘infantilóide’, sabe? A gente trata de uma maneira direta e objetiva, porque não nos interessa esconder nada para ela. Muito pelo contrário, a gente quer que as coisas na nossa casa possam ser cada vez mais transparentes, não adianta a gente construir segredos”.

Estigmas

Por falar em tabu, a paternidade também pode ser um para homens gays a depender do seu contexto social, como explica o produtor cultural. “Eu nunca pensei em ser pai e acho que tem a ver um pouco com essa nossa construção social, do ponto de vista dos corpos LGBTQIAPN+. Nós somos privados de afetividade. Às vezes (...) as pessoas são expulsas de casas, ou seja, os nossos pais não nos querem como filhos. E, por outro lado, talvez até em decorrência disso, nós não nos enxergamos como construtoras, construtores de família”.

Lui conta ainda que, apesar de não ter vivido no contexto de ser expulso de casa, nunca se enxergou na possibilidade de ser pai ou mesmo ter uma família, por bloqueios psicológicos: “aos poucos eu fui descobrindo essa paternidade e eu nem sei te dizer por quais vias, mas acho que ao ficar mais velho, eu fui tendo acesso ao meu afilhado, meu sobrinho, e comecei a pensar, mas nunca foi algo palpável”.

O mesmo aconteceu com Fred. Apesar de ter decidido ser pai, inclusive de modo solo, antes de Lui aparecer, ele também não tinha a paternidade como um objetivo de vida, foi o contato com outras crianças, quando já estava adulto e mais maduro, que despertou nele esse desejo.

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Reprodução/ redes sociais

“Hoje tudo que eu faço na minha vida, como artista, como produtor, tudo que eu fizer, tudo perpassa por ela, tudo é para ela, tudo é com ela. Então, se eu vou construir um espetáculo, gravar uma música, um álbum, vou fazer um show, eu tô pensando: ‘qual discurso que eu tô querendo trazer para o mundo, que seja para contribuir com o mundo dela amanhã’. Essa noção de paternidade, como algo que desdobra, que vai além de nós, eu acho que muito de nós, LGBTQIAPN+, não temos tanto disso, não temos essa perspectiva em nós, e isso é muito duro, muito cruel”, lamenta o pai de Lis, pouco antes de pontuar que isso vai além daqueles que se encaixam na sigla.

“É uma construção macro, né? Porque quando eu me torno pai, a minha família toda vai se encaixar (...). Eu enxergo que a minha mãe talvez não tivesse essa perspectiva [de ser avó] por eu ser um homem gay. E acho que a ficha caiu aos poucos”, disse o produtor cultural ao recordar um momento em que viveu, logo após o início da sua relação com Fred, quando sua mãe, ao se referir a Lis, disse que se tratava da filha de um amigo de Lui.

Quando ela me contou isso eu falei: ‘não, minha mãe. Ela não é a filha de Fred. Fred não é o meu amigo. Fred é o meu companheiro. Vamos alinhar esse discurso. Nós somos um casal. Mais do que isso, nós somos uma família. Fred é o meu companheiro. Lis Bella é a minha filha (...) e a senhora é a vó dela”, contou o artista, ressaltando que a avó tem muito orgulho da menina e sempre faz questão de dizer para todos que Lis é sua neta.

Adoção

Assim como Lis Bella, 50.838 crianças brasileiras foram registradas por casais homoafetivos, entre 2021 e 2023, no Brasil, segundo dados da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-BR). Claro, nesses casos, estamos falando de todo tipo de relação homoafetiva, o que inclui filhos de duas mães, mas, ainda assim, se trata de um número expressivo e que tem tudo para continuar a crescer, principalmente com a adoção.

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Reprodução/ Freepik- Ilustrativa

Acontece que a escolha feita por Fred e abraçada por Lui tem sido cada vez mais frequente, apesar de sempre ter existido. Antes da autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2015, apenas um integrante do casal ingressava com o pedido de adoção. A habilitação de casais homoafetivos gerou um aumento significativo no número de crianças e adolescentes que saíram dos lares provisórios, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Somente nos últimos quatro anos o número geral de adoções subiu 113%.

De acordo com dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) do CNJ, há poucos anos, a adoção era mais focada em crianças de até três anos, mas esse perfil tem se expandido para oito anos, exatamente por causa de casais homoafetivos. Das 21.292 crianças e adolescentes adotados entre 2019 e abril de 2024, 1.353 foram por casais homoafetivos. “O número vem crescendo a cada ano, e passou de 143 adoções em 2019 para 401 em 2023”, revelou uma reportagem da Agência Brasil publicada em maio deste ano.

Eu acho que a gente está no passo dessa geração, de construir ‘o amanhã’”, destaca Lui.

"Essas discussões todas são muito recentes; de gênero, de paternidade, de maternidade LGBTQIAPN+. Então tudo está acontecendo agora; a gente tá definindo conceitos, a gente tá buscando leis, conquistando, mas tudo isso está na transformação do agora, do social. Então, uma família LGBTQIAPN+, quando surge, seja em qual contexto; solo ou de paridade, é, sem dúvida, é um passo de transformação do amanhã”, finalizou Lui, companheiro de Fred, ambos, pais de Lis Bella.

Classificação Indicativa: Livre

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