Meio Ambiente

Água da baía de Guanabara piorou nos últimos dois anos, indica levantamento

Folhapress

De acordo com os dados do Inea, 13 dos 20 pontos monitorados dentro da baía tiveram uma média considerada péssima no último biênio.

Publicado em 26/06/2022, às 17h58    Folhapress    Ítalo Nogueira/ FolhaPress

Monitoramento feito pelo Inea, órgão ambiental do governo do Rio de Janeiro, indica que a qualidade da água da baía de Guanabara piorou nos últimos dois anos.

Todos os pontos de coleta no espelho d'água apresentaram médias consideradas ruins ou péssimas durante o monitoramento feito nos anos de 2020 e 2021. É a primeira vez que isso ocorre desde 2014, início da série histórica do levantamento.

Nem o Inea nem especialistas sabem explicar com exatidão a razão do resultado. Foram apontadas como hipóteses a piora na manutenção dos sistema de esgoto pelo estado na iminência da concessão do serviço de saneamento básico, realizado no ano passado, e um eventual efeito das condições climáticas no momento da coleta.

O pior resultado da série histórica foi registrado justamente quando a promessa de despoluição da baía de Guanabara foi renovada com o plano de investimento exigido da nova concessionária, Águas do Rio, que atuará no entorno dela.

A empresa assumiu o saneamento básico da região no fim do ano passado e prevê melhora nos resultados em cinco anos.

De acordo com os dados do Inea, 13 dos 20 pontos monitorados dentro da baía tiveram uma média considerada péssima no último biênio. Os demais sete locais de coleta foram considerados ruins.

O relatório do órgão estadual se refere à média das sete coletas feitas entre 2020 e 2021. O levantamento costuma ser anual, mas sofreu interrupções há dois anos em razão das medidas de prevenção durante a pandemia do novo coronavírus. Por esse motivo, o boletim se refere ao biênio.

Nas análises, o instituto verifica 15 parâmetros físico-químicos e biológicos das águas, como a presença de coliformes fecais e de fitoplânctons, microrganismos indicadores da presença de poluição.

O resultado é o pior já apresentado na série histórica. Antes, o ano com médias inferiores era o de 2014, o primeiro, quando 13 pontos foram considerados péssimos, 5 ruins e 2 regulares.

O melhor resultado foi atingido no biênio 2016/2017, posterior à realização da Olimpíada no Rio de Janeiro, quando apenas cinco pontos foram considerados péssimos, três ruins, nove regulares e três bons. Este foi o único período com algum ponto com índice positivo. Desde então, as águas da baía voltaram a apresentar progressiva piora.

Apesar de associada, por completo, ao despejo de esgoto das 16 cidades que compõem sua bacia hidrográfica, o espelho d'água da baía é diverso.

As áreas próximas à área de proteção ambiental de Guapimirim costumam ter águas melhores, em razão da preservação ambiental do entorno dos rios da região. Além disso, a baía tem um canal central profundo que favorece à troca de água com mar de forma mais intensa, diluindo a sujeira. Contudo, mesmo esses pontos apresentaram resultados ruins no último biênio.

O ponto de coleta próximo à praia de Icaraí, em Niterói, registrou pela primeira vez uma média considerada péssima. Nos cinco levantamentos anteriores, o local foi considerado regular por três vezes, uma vez boa e outra, ruim.

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Até mesmo o ponto de monitoramento externo próximo à boca da baía, já em área oceânica, teve seu resultado considerado ruim pela primeira vez na série histórica.

Procurado, o Inea afirmou que "não foi evidenciada alteração significativa na qualidade de água dos pontos monitorados na baía da Guanabara".

Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo não identificam uma razão específica para os resultados. Todos afirmam, contudo, que a tendência de piora permanecia no período analisado.

O deputado estadual Carlos Minc (PSB-RJ) aponta como uma das hipóteses a redução de investimento da Cedae, estatal até o ano passado responsável pelo sistema de esgoto de quase toda a região metropolitana, em razão da expectativa da concessão do serviço de saneamento básico do estado.

"De fato, ouvi relatos de que houve uma orientação para reduzir o gasto em manutenção e contratação de equipes, já que a iniciativa privada iria assumir", disse o deputado.

O biólogo Mário Moscatelli afirma não ver uma redução na atuação da Cedae no período. Para ele, a empresa sempre privilegiou a produção de água em detrimento à coleta de esgoto. "Não me parece ter ocorrido mudança, mas sim uma cultura da empresa."

Em nota, a Cedae afirmou que não procede a informação de que reduziu investimentos antes da concessão. "Em 2020, a Cedae investiu 11 vezes mais do que o investido no ano anterior. Já no ano de 2021, os investimentos aumentaram três vezes em relação a 2020."

Minc também aponta o afrouxamento na fiscalização de órgãos ambientais do estado e da União como outra possível razão para a piora no resultado.

"A fiscalização está mais fraca. O Inea está com menos gente. E, nos órgãos federais, há uma orientação política para não atuar. O Ibama está completamente amordaçado, com as mãos atadas", afirmou Minc.

O professor Paulo César Rosman, da Coppe/UFRJ, afirma que o monitoramento feito pelo Inea tem limitações que dificultam a comparação dos resultados na série histórica.

"Elas [coletas] são feitas quando dá tempo. É quase que um sorteio. Num sistema de águas controlado por eventos regulares, como as marés, e irregulares, que são as condições climáticas, um padrão é essencial", afirmou ele.

Todos afirmam ter expectativa de melhora nos resultados nos próximos cinco anos, após o início da operação da Águas do Rio. Um investimento emergencial de R$ 2,7 bilhões neste período está previsto para acelerar o fim do despejo de dejetos na baía.

A concessionária já decidiu desviar o curso do rio Carioca, que deságua na baía na praia do Flamengo. As águas poluídas serão direcionadas para um interceptador que as encaminhará para o emissário submarino de Ipanema. A intervenção durará até que o curso d'água seja limpo.

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