Polícia

Carro de motorista baleado por suposto policial segue no local horas após o crime em Salvador

Arquivo Pessoal
Família afirma que perícia no carro foi cancelada após delegado determinar mudança no registro da ocorrência  |   Bnews - Divulgação Arquivo Pessoal
Adelia Felix

por Adelia Felix

adeliafelix@bnews.com.br

Publicado em 24/08/2026, às 19h48 - Atualizado às 20h30



O carro do motorista por aplicativo Cirilo Carvalho, de 27 anos, baleado na perna após um acidente de trânsito na Avenida São Rafael, em Salvador, permanecia no local por volta das 19h desta segunda-feira (24), cerca de sete horas após o ocorrido. O autor seria um policial identificado como Vanderlei Ramos Bonfim, que estava de folga.

Ao BNEWS, familiares relataram que o veículo ainda não havia passado por perícia e a cápsula do disparo, encontrada dentro do automóvel, foi colocada por eles em um saco plástico. O tio da vítima, Augusto César Souza, relatou à reportagem que permaneceu no local do crime até o início da noite, aguardando a perícia, que não compareceu.

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À reportagem, a assessoria do Departamento de Polícia Técnica (DPT) informou que a Polícia Civil não solicitou a realização da perícia. Sobre o motivo, a recomendação feita é que a reportagem mantenha contato com a assessoria da Polícia Civil, que ainda não se manifestou.

Cirilo está internado no Hospital Geral do Estado (HGE), com estado de saúde estável. O projétil permanece alojado na perna, segundo a esposa dele, Samile Sahade.

Carro ficou horas sem perícia

O acidente aconteceu por volta das 12h. De acordo com os familiares, por volta das 19h o carro de Cirilo ainda permanecia no mesmo local, sem ter sido removido e sem passar por perícia. Segundo Samile Sahade, esposa da vítima, uma cápsula do disparo foi encontrada sobre o banco do passageiro. O material foi colocado pelos familiares dentro de um saco plástico.

“A cápsula da bala ainda está dentro do carro, em cima do banco do passageiro, a gente está aguardando mais informações, mas eles cancelaram a perícia, o carro está lá parado”, disse.

Segundo a esposa, a perícia teria sido cancelada após uma mudança no registro da ocorrência, inicialmente solicitada pela família como tentativa de homicídio e posteriormente registrada como lesão corporal.

“Fizemos o boletim de ocorrência no próprio HGE. Só que tentamos a abertura do boletim de ocorrência para tentativa de homicídio, até porque o lugar onde a bala está alojada é muito próximo à artéria femoral, então, a chance de morte era muito grande. Mas, o delegado chamado Dermeval Amado Júnior ligou para lá diversas vezes, ele ligou para lá e mandou trocar de tentativa de homicídio para lesão corporal. Inclusive, isso fez com que a perícia no veículo fosse cancelada”, lamentou.

Vídeo mostra homem saindo de Corolla

O vídeo gravado por Cirilo durante a ocorrência também mostra o momento em que o suposto policial sai do Corolla. Na gravação, é possível ouvir o barulho de um giroflex no momento em que ele deixa o veículo.

O homem também aparece com um objeto na região do peito que, segundo a contextualização apresentada pela família, seria semelhante a um distintivo funcional.

Esse tipo de acessório pode ser utilizado por policiais que atuam sem farda para identificação. Na Polícia Militar, por exemplo, policiais do serviço reservado, conhecido como P2, podem trabalhar à paisana e usar o distintivo quando necessário. O acessório também pode ser utilizado em atividades de policiamento velado e por integrantes de corregedorias.

A imagem, no entanto, não permite afirmar apenas pelo vídeo qual corporação o homem integraria.

Em áudio gravado pela própria vítima no hospital e compartilhado com o BNEWS pela esposa, Cirilo relatou que o homem que conduzia um Corolla teria provocado a colisão, saído do veículo armado e efetuado o disparo.

“Ele bateu na lateral do carro, eu perdi o controle, freei e, depois, ele bateu também de novo na minha porta do motorista. Ele já saiu do carro armado, apontando a arma para mim e me xingando, mandando eu descer do carro, só que eu não tinha como descer, porque o a parte frontal do carro dele estava grudada na minha porta, e eu mostrei para ele. Ele tentou me tirar pela porta do passageiro, mas não conseguiu, porque o local estava cheio de pacotes. E, assim que ele terminou a filmagem, ele sacou a arma e disparou contra mim”, disse a vítima.

Família aponta suspeito como policial militar

A família afirma que o homem apontado como autor do disparo seria o policial militar Vanderlei Ramos Bonfim. Segundo os familiares, ele estaria de folga no momento do episódio e, por isso, não usava farda.

“Ele é um policial militar, a gente sabe só até o momento que o nome dele é Vanderlei, não temos muito mais informações que isso”, disse Sahade.

A esposa de Cirilo também afirmou que o homem não teria se identificado formalmente como policial durante a abordagem. “Não, não se identificou. Ele só saiu do carro e a linguagem dele foi apenas de violência”, declarou.

Segundo Sahade, Cirilo contou que o homem não teria estabelecido diálogo antes do disparo. “O agressor não falou nada. Ele só saiu do carro e atirou em meu marido. Ele não falou, ele não teve comunicação. Porque o que a gente sabe foi, primeiro, o que as testemunhas que estavam no local falaram pra gente, e segundo, o que meu marido me disse no caminho da ambulância. Mas ele não estava conseguindo falar muito porque ele estava com muita dor”, detalhou.

Família relata sequência da abordagem

Segundo a família, a discussão começou depois que o outro veículo teria atingido a traseira do carro de Cirilo. O motorista teria fechado o veículo da vítima, impedindo a saída pela porta do motorista.

Samile relatou ao BNEWS o que o marido teria contado enquanto era levado para o hospital.

“Ele disse que não brigou. Ele disse ‘não briguei e eu não sei o que eu fiz de errado’. Aparentemente, ele [Cirilo] estava andando devagar, o motorista de trás se estressou e bateu no fundo do carro dele. Aí, ele fechou o carro do meu marido com o próprio veículo, fechou a porta do motorista, né? Então, meu marido não conseguia sair pela porta do motorista, ele deu a volta no carro, abriu a porta do passageiro, foi, nesse momento que foi registrado em câmera, meu marido filmou ele, e aí ele tomou o celular, bateu em meu marido e deu um tiro na coxa direita dele”, relatou Sahade.

Cirilo estava realizando entregas no momento do episódio e usava a roupa de entregador de uma plataforma de e-commerce. Após ser baleado, foi socorrido por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e levado ao HGE.

Testemunha procurou família

A irmã de Cirilo, Luísa Carvalho, afirmou que uma testemunha teria procurado a família depois de presenciar a ocorrência. Segundo ela, a mulher fez uma chamada de vídeo e contou o que havia acontecido.

“Tinha testemunhas, tanto que foi uma moça que me ligou. Foi como eu soube o que tinha acontecido, ela fez uma chamada de vídeo. Foi uma covardia que meu irmão não reagiu a nada e, mesmo assim, meu irmão tomou um tiro. Tem essa testemunha que pode provar”, acrescentou.

Família cobra responsabilização

Samile afirmou que espera a responsabilização do homem apontado pela família como autor do disparo.

“A gente quer a exoneração dessa pessoa e que ele seja preso. Porque não tem como uma pessoa que tem o poder de arma de fogo ser tão desequilibrado a ponto de atirar em alguém por conta de uma briga de trânsito”, lamentou.

A esposa também afirmou que pessoas ligadas ao suspeito estariam tentando impedir o avanço do caso.

“É absurdo como a gente não pode contar com a nossa própria segurança pública para nos defender, a gente ainda está lidando com o fato de que ele tem contatos e esses contatos estão tentando abafar a situação”, suspeitou a esposa da vítima.

O que dizem PM, PC e DPT

O BNEWS procurou a Polícia Militar e a Polícia Civil para esclarecer as denúncias apresentadas pela família de Cirilo e questionar as circunstâncias da ocorrência, incluindo a identificação do policial apontado como autor do disparo, a situação do veículo e a mudança no registro da ocorrência.

A reportagem também procurou o Departamento de Polícia Técnica (DPT) para saber se o órgão foi acionado para realizar a perícia no veículo, por qual motivo o procedimento não foi realizado ou acabou sendo cancelado no local e se uma equipe será enviada para recolher os vestígios balísticos ainda presentes no carro.

Até a publicação desta matéria, as corporações e o DPT não haviam respondido aos questionamentos. O espaço segue aberto para manifestações.

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