Política

Governo Bolsonaro deixa riscos ao impulsionar Telegram em órgãos oficiais

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Especialistas questionam o ato de impulsionar a plataforma  |   Bnews - Divulgação Divulgação

Publicado em 19/03/2022, às 08h33 - Atualizado às 08h50   Redação BNews



O governo de Jair Bolsonaro (PL) impulsionou o acesso da população ao Telegram por meio de órgãos oficiais. Ministérios e instituições públicas oferecem o aplicativo como um canal para serviços. A estratégia é questionada por especialistas da área de tecnologia, que identificam riscos para quem aderir a esses serviços pelo aplicativo.

Nesta sexta-feira (18), o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou a suspensão do aplicativo a pedido da Polícia Federal, em decisão classificada por Bolsonaro como "inadmissível".

Quem acompanha a área de tecnologia afirma que não é possível dissociar esse avanço do fato de o Telegram ser o aplicativo para onde Bolsonaro migrou em janeiro de 2021, convocando a sua militância.


O Laboratório de Humanidades Digitais, da UFBA (Universidade Federal da Bahia), pode dar uma dimensão do contingente. Ele acompanha mais de 500 grupos de extrema direita no Telegram. Um grupo pode ter até 250 mil integrantes, e uma boa parte deles tem 80 mil em média.

O coordenador desse estudo, professor Leonardo Nascimento, que atua no novo campo da sociologia digital, se declarou "abismado" quando viu os canais com bots do governo federal. "Estão colocando o cidadão para dentro da estrutura de desinformação da direita", afirma. "É como se você desse de presente um aparelho de TV para que as pessoas pudessem ver os programas que você vai produzir."

Segundo Nascimento, apesar de o sistema de bots do Telegram ser muito eficiente, tudo que é oferecido pelo governo no aplicativo poderia ser desenvolvido pelo Estado. "Mas por alguma razão, que precisam explicar, preferem mandar as pessoas para o Telegram", diz ele.

Nascimento e outros especialistas são unânimes em afirmar que o Telegram não é seguro para a prestação de serviços públicos por questões técnicas. O Telegram é híbrido. Envia mensagens e tem o seu sistema de armazenamento em nuvem. Tudo que é postado fica nos servidores, ainda que seja posteriormente apagado. Não é como no WhatsApp, onde os dados são criptografados.

Para piorar, não existe clareza sobre como essa massa de informações é resguardada ou utilizada e o aplicativo não faz moderação de nada que é publicado. "Diferentemente do WhatsApp, o Telegram não é só um serviço de mensagens, é também um serviço de armazenamento em nuvem, e qualquer uso de plataforma privada para a prestação de serviço público é complicado", diz Ronaldo Lemos, diretor do ITS (Instituto de Tecnologia e Sociedade) do Rio de Janeiro e colunista da Folha. "Ele também não tem sede no Brasil e consistentemente se nega a obedecer a ordens judiciais. Outros aplicativos, por mais problemas que possam apresentar, têm representação no Brasil", afirma.

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