Salvador

Barraqueiros deixam faixa de areia do Porto da Barra vazia em protesto contra decisão da Semop: 'Ninguém nos respeita'

Arquivo pessoal
Em conversa com o BNews, um dos barraqueiros mais antigos da Praia do Porto da Barra desabafou sobre a limitação de kits  |   Bnews - Divulgação Arquivo pessoal

Publicado em 28/01/2025, às 10h18 - Atualizado às 12h01   Victória Valentina



A faixa de areia da Praia do Porto da Barra, uma das mais famosas de Salvador, amanheceu mais vazia nesta terça-feira (28). As tradicionais mesas, cadeiras e sombreiros que ocupam parte do local foram retiradas pelos próprios barraqueiros como forma de protesto contra as novas regras impostas pela Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), que limitou a quantidade de kits por ambulantes. Um dos trabalhores é Carlinhos, que trabalha na região há 50 anos e está indignado com a nova determinação.

Banhistas passaram a denunciar o excesso de ocupação na faixa de areia da praia, que é um dos pontos turísticos da capital baiana. Entre as novas medidas impostas, a Semop determinou um espaço delimitado para os trabalhadores que atuam entre o Forte São Diogo e o Forte de Santa Maria, além de fixar em 10 a quantidade de kits padronizados por ambulante. Em cada kit, há uma mesa, um sombreiro e quatro cadeiras.   

Em entrevista ao BNews, o barraqueiro Carlinhos, que já ajudava a mãe na região quando tinha apenas 10 anos, expressou sua revolta com a decisão. Segundo ele, a nova quantidade de kits não é suficiente para atender os banhistas que enchem a praia durante o verão, tampouco para gerar renda. Alguns agentes, inclusive, foram flagrados realizando a fiscalização nesta manhã.

"A gente não tem condições de sobreviver com essa quantidade. A Barra é uma região cara, não vai cobrir a nossa necessidade. Sou a favor de tirar as nossas cadeiras vazias da areia, aí tudo bem. Quando o cliente chegar, é só colocar. Deixa passar o verão para a gente conversar. Agora é a nossa hora de ganhar dinheiro. Passou o Carnaval, acabou a praia. Dificilmente vou alugar 10 ou 20 cadeiras, vai começar a chover", desabafou.

O trabalhador relatou que poucos banhistas chegavam para ele ou para colegas para reclamar sobre os kits ocupando a faixa de areia. "No meu caso, quando reclamava, eu tirava a cadeira, fechava até o sombreiro. Mas tem gente que é ignorante. Eu tenho 80 cadeiras, e isso tá me prejudicando", frisou.

Carlinhos
Carlinhos e a mãe, que trabalhava como ambulante no Porto da Barra, em 1983. Foto: Arquivo Pessoal

"Desde os anos 80, sempre tentaram tirar a gente daqui. Inventam que não pode vender tira-gosto, caipirinha. A gente não pode fazer nada. Ninguém nos respeita. Aqui tem tudo: regata, travessia, filmagem de um monte de coisa, e tiram a gente do nada. Tem morador que se incomoda com a gente. Tráfico de drogas e assalto ninguém liga, mas vê a gente e se incomoda. Tem gente que faz até abaixo-assinado para tirar a gente daqui", disse.

Mesmo sem nenhuma barraca, equipes da Semop estão no local para fazer a fiscalização. Apesar da mobilização realizada nesta terça, Carlinhos afirmou que espera que amanhã eles voltem a trabalhar normalmente, "mas com dignidade".

"Não quero trabalhar com pressão em cima da gente, entendeu? O que eles querem não tem lógica, não tem condições. Pode chegar cliente meu do Rio de Janeiro, de São Paulo, de todo canto. Gringo não traz cadeira de praia. Se o morador quer descer com cadeira e canga, que desça. A gente só quer trabalhar em paz, ninguém trabalha aqui  porque gosta. A gente trabalha porque precisa. Eu estou aqui desde 1974", desabafou.

Resposta da SEMOP

Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Ordem Pública informou que a fiscalização está acontecendo diariamente e que agentes realizaram apreensões no último fim de semana.

"A Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEMOP) informa que, após denúncias de moradores e turistas sobre a falta de espaço nas praias do Porto da Barra para que banhistas pudessem acomodar seus pertences pessoais, foi necessária a intensificação das ações de fiscalização na área. As reclamações apontaram excessos na ocupação da faixa de areia por alguns permissionários, resultando em reuniões e reforço das equipes para garantir a organização e o equilíbrio no uso do espaço público", iniciou em nota.

"Durante as fiscalizações, foram identificados casos de descumprimento das normas, e os permissionários envolvidos foram devidamente notificados. A SEMOP ressalta que a legislação e as novas regras visam assegurar uma convivência harmoniosa entre comerciantes, frequentadores e a comunidade local, promovendo o uso ordenado da orla", prosseguiu a pasta.

Ainda de acordo com a secretaria, no contexto da Operação Verão, "medidas como a montagem de sombreiros após às 9h, a instalação de kits apenas na chegada dos clientes e a proibição do uso de garrafas de vidro têm contribuído para maior segurança e conforto dos frequentadores".

Os permissionários têm o prazo de 15 dias para regularizar seus cadastros. Após o Carnaval, uma nova reunião será realizada para reavaliar as medidas implementadas e discutir possíveis ajustes, buscando atender às necessidades de todas as partes envolvidas.

"A secretaria reforça seu compromisso com o diálogo e destaca que o cumprimento das normas é fundamental para garantir a organização e o bem-estar de todos que utilizam o Porto da Barra", finalizou.

Classificação Indicativa: Livre

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