Salvador
por Lucas Pacheco
Publicado em 02/09/2026, às 06h00 - Atualizado às 06h01
Durante muitos anos, a capital dos baianos não foi lembrada somente pelos seus famosos cartões-postais, suas igrejas históricas ou belas praias. Grandes hotéis construídos em diferentes pontos de Salvador, inclusive de forma estratégica, e que hoje já não existem mais, marcaram gerações, virando verdadeiros símbolos da cidade. Hospedados neles, turistas, artistas, empresários, políticos e celebridades, movimentavam o comércio e ajudavam a consolidar a primeira capital do Brasil como um dos principais destinos turísticos do país.
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Os anos foram passando e, pelos mais variados motivos, parte desses empreendimentos perdeu espaço. Dificuldades financeiras, alterações no perfil do turismo, envelhecimento das estruturas, problemas de gestão e transformações no mercado imobiliário levaram ao fim dos hotéis tradicionais. Alguns ficaram abandonados por anos, outros foram demolidos, alguns mantiveram suas estruturas de pé, mas sem a mesma função que os tornou conhecidos.
Uma reportagem publicada pelo BNews em fevereiro de 2019 expôs que um levantamento da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis Bahia (ABIH-BA) apontou que cerca de 30 hotéis havia encerrado as atividades em Salvador em um período de cinco anos até 2019, com a redução de aproximadamente 1,8 mil apartamentos e 4,4 mil leitos.
No ano anterior, em 2018, ainda de acordo com a ABIH, Salvador foi apontada como a segunda capital no país, entre as que sediaram a Copa do Mundo de 2014, que fechou o maior número de hotéis naquele intervalo de quatro anos. Foram 21 unidades fechadas.
Letreiros luminosos, recepções movimentadas e varandas que não existem mais. No Rio Vermelho, o Pestana e o Le Méridien. Em Ondina, o Bahia Othon Palace. Na Barra, o San Marino. No Jardim de Alah, o Hotel Atlântico. Em Armação, o Oceânico. No Costa Azul, o Belmar. Em Jaguaribe, o Jaguaribe Praia. Em Patamares, o Sol Bahia Atlântico. E muitos outros. Para quem viveu a Salvador que contava com esses equipamentos, cada prédio guarda mais do que concreto, mas também o som de uma época, o movimento de uma cidade e a lembrança de trechos de uma capital onde o passado ainda parecia ter lugar para ficar.
Embora o registro de encerramento das atividades de vários equipamentos antigos e que marcaram épocas e gerações em Salvador, a capital baiana manteve um bom desempenho no primeiro semestre de 2026. Houve um crescimento no valor médio das diárias e na receita estimada gerada pelos meios de hospedagem. Os dados são da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Secult) de Salvador.
No intervalo entre janeiro e junho, a diária média dos hotéis da capital baiana foi 9,2% superior à registrada no mesmo período do ano anterior 2025. Esse foi o melhor resultado para um primeiro semestre dos últimos anos.
Em relação à estimativa de receita dos meios de hospedagem, o montante registrado no primeiro semestre de 2026 ficou em torno de R$ 1,2 bilhão, 8,3% maior do que entre janeiro e junho de 2025.
O BNews mergulha agora no baú de memórias afetivas do soteropolitano e relembra alguns desses emblemáticos hotéis.
Bahia Othon Palace
Por mais de quarenta anos, o Bahia Othon Palace foi uma das referências da hotelaria de Salvador. Fincado na orla de Ondina, o hotel encerrou suas atividades em novembro de 2018, demitindo 180 funcionários.
E o Othon era mais que um hotel. Quem não lembra da sua famosa Área Verde? O espaço fez parte da vida cultural da cidade, recebendo diversos shows, ensaios de verão e eventos que fizeram do local um dos pontos mais conhecidos do circuito de entretenimento de Salvador.
Mesmo fechado em 2018, sua estrutura permaneceu intacta por anos como se estivesse praticamente congelada no tempo. Em 2024, uma exposição lá realizada revelou ao público objetos, documentos, telefones, livros e outros itens.
Após a compra do imóvel pela Moura Dubeux, o cenário começou a mudar. Também em 2024 a construtora recebeu autorização para demolir toda a estrutura que dará espaço a um empreendimento de uso misto, com unidades residenciais, hospedagem e espaços comerciais. Pelo projeto, haverá um retrofit da torre existente, além de novas estruturas.
Salvador Praia Hotel
Ainda em Ondina, o Salvador Praia Hotel teve um destino mais radical. O empreendimento encerrou suas atividades há quase 20 anos, quando a empresa administradora deixou o local e cerca de 120 funcionários foram demitidos.
Durante os anos de abandono em que ficou fechado e sem qualquer utilização, o imóvel passou a apresentar sinais claros de deterioração, com janelas quebradas, móveis estragados e pichações. Um cenário que transformou um antigo endereço de luxo em um retrato do declínio de parte da hotelaria da cidade.
Dez anos após o fechamento, em 2019, após negociações que envolveram a Prefeitura de Salvador e a Moura Dubeux, o prédio foi demolido. A área deu lugar a um novo projeto imobiliário, com contrapartidas previstas para a requalificação do entorno e melhoria do acesso à praia.
O hotel deixou de existir fisicamente por completo. Nada dele foi reaproveitado em uma tendência que ainda se repetiria pela cidade: a transformação em empreendimentos de uso misto.
Pestana Bahia
Impossível não lembrar do Pestana no Rio Vermelho, não é? O antigo Pestana Bahia esteve por décadas entre os principais hotéis cinco estrelas de Salvador, chegando a operar com cerca de 430 apartamentos.
Após começar um processo de redução da operação, inclusive com o fechamento de parte dos andares, a decisão de encerrar as atividades veio em 2016. A estrutura permaneceu fechada durante quase dez anos devido a uma série de entraves judiciais e imobiliários.
Em maio deste ano, a Moura Dubeux concluiu a aquisição do imóvel e anunciou que a estrutura também será transformada por meio de retrofit. Virará um empreendimento de uso misto com 438 unidades destinadas a hospedagem, moradia, trabalho, lazer e conveniência. No mesmo terreno também está prevista a construçaõ do residencial de alto padrão Cyano, com 68 apartamentos.
San Marino
Já o antigo San Marino Hotel & Suites, na Barra, viveu uma história diferente. Quase em frente ao Morro do Cristo, o hotel encerrou definitivamente as atividades em 2014 e a partir daí viveu uma situação dramática. O prédio passou por diversas tentativas de venda, foi levado a leilão por decisão da Justiça do Trabalho, mas mesmo assim permaneceu durante anos sem uma destinação.
O antigo hotel chegou a uma situação degradante. Abandono, presença de animais e problemas estruturais mostraram como um endereço turístico passa da representação de prosperidade ao abandono em um piscar de olhos.
Hoje, o local está passando por um processo de retrofit e também será lançado como um complexo imobiliário.
Hotel Atlântico
O antigo Hotel Atlântico também desapareceu da paisagem ao longo da história. Inaugurado nos anos de 1980, o equipamento marcou época no Jardim de Alah, com 49 apartamentos, restaurante com vista para o mar, bar, piscina, deck de madeira e salão para convenções. Era um hotel de três estrelas, de menor porte que os outros já mencionados nesta reportagem, mas que também fazia parte da estrutura turística da orla de Salvador.
Após o fechamento, o prédio passou por um longo período de abandono, chegou a ser ocupado por famílias ligadas ao Movimento dos Sem Teto e também serviu como sede de um centro de formação profissional para catadores de material reciclável.
Em junho de 2023, o prédio começou a ser demolido, deixando de existir e deu lugar a um novo projeto.
Le Méridien
O Le Méridien foi um dos mais importantes símbolos de uma Salvador sofisticada dos anos 1970, 1980 e 1990. Ele foi Inaugurado em 1974 como o primeiro hotel cinco estrelas da Bahia e recebeu artistas, chefes de Estado e celebridades, ajudando a colocar a capital baiana no circuito internacional do turismo de luxo.
No espaço, no alto das pedras do Rio Vermelho, funcionou também a famosa boate Régine’s, onde a alta sociedade soteropolitana e turistas do Brasil e do mundo inteiro se encontravam.
Após enfrentar uma grave crise financeira, o hotel fechou em 2000 e foi adquirido pelo grupo Pestana. Passou a se chamar Carlton Bahia e posteriormente Hotel Pestana. Na época do encerramento das atividades, o Le Méridien Salvador havia contraído uma dívida de mais de R$1,2 bilhão da empresa administradora, a Sisal Bahia Hotéis Turismo, com o Banco do Brasil
Sol Bahia Atlântico
Inaugurado em 1996 e com 191 apartamentos, o Sol Bahia Atlântico passou por anos de movimento intenso, com turistas, famílias e eventos em uma das áreas que estavam em expansão da hotelaria e da ocupação da orla: o bairro de Patamares.
O hotel fechou em 2020 e desde então a antiga estrutura permaneceu sem funcionamento. Entretanto, agora em 2026, 30 anos após sua abertura, veio a informação de que o terreno deverá receber o Mood Sol Bahia, um residencial com três torres, encerrando quase três décadas de história.
Relembrar esses grandes equipamentos e reviver os motivos que levaram aos fechamentos parece gerar um paradoxo difícil de engolir: os antigos hotéis não conseguiram acompanhar o ritmo do modelo de turismo e de negócios que, um dia, havia ajudado a transformá-los em referências e símbolos.
Aos poucos, de forma silenciosa, porém cruel e implacável, os grandes letreiros se apagaram, as malas deixaram de chegar, os salões perderam a vida, um checkout definitivo foi realizado e os corredores, que um dia testemunharam histórias diversas, passaram a guardar apenas o eco de uma época que ninuguém jamais ousaria dizer que chegaria ao fim.
O BNews conversou com algumas pessoas que fizeram parte do legado que alguns desses equipamentos deixaram na história de Salvador. Entre elas, está Cristiane Simões, ligada ao setor de eventos e que durante anos trabalhou no Le Méridien e no Pestana.
Questionada qual sentimento ao perceber que esses locais não mais fucionam, ela é enfática.
São dois sentimentos. Primeiro, o de tristeza e, o segundo, de abandono. A gente vê Salvador como um grande polo turístico, tanto da área de lazer, quanto da área corporativa, de congress. E vê que esse polo não tem grandes empreendimentos hoteleiros para abraçar esse turismo. O de abandono é ver que o governo federal, estadual, municipal não dá incentivos a esses empresários, de manter esses empreendimentos vivos e ativos. Sem falar da nostalgia de você passar pela frente. Por exemplo, eu moro no Horto Florestal. Então, meu apartamento é de frente para o antigo Pestana, antigo Méridien. E você vê aquele prédio imponente, com 430 apartamentos, hoje se transformar numa residência e não mais um empreendimento hoteleiro é de partir o coração. Da mesma forma o que está acontecendo com o Othon Palace. Esses três, que eram os grandes ícones da hotelaria de Salvador. É muito triste. Infelizmente, Salvador perde muito quando esses empreendimentos morreram. Quem perde é a cidade, infelizmente", disse ela.
Sobre como era chegar para trabalhar, o que ela via e ouvia, Cris relembrou como, naquela época, bairros como Rio Vermelho tinham mais força.
Primeiro que o bairro era muito mais vivo. O Rio Vermelho tinha uma vida. A Rua Fonte do Boi, o comércio era muito ativo. Era muito forte. Com o fechamento do Méridien, se não me engano, em abril de 2000, eu saí um mês antes, você viu que a rua meio que deu uma mornada, mas ela não morreu. Porque logo em seguida começou o processo de reestruturação do prédio com a compra do Pestana. Então, quando o Pestana surgiu, a Rua Fonte do Boi, o entorno ali do Rio Vermelho, ele tinha muita vida. O comércio, o trânsito, tudo isso. Em 2015, 16, quando o Pestana fechou, a rua meio que morreu. Várias lojas fecharam. O comércio ficou triste, infelizmente. Eu dizer: eu trabalho no Méridien, trabalho no Pestana, era uma sensação não só de status, mas também muito prazerosa. Quantas pessoas iam para o Méridien para ver a Iemanjá que estava desenhada em mosaico no fundo da piscina? E quando o Pestana reformou o prédio, também manteve o desenho da imagem de Iemanjá, de uma outra forma e muitas pessoas diziam: Eu quero conhecer a Iemanjá que está desenhada na piscina do Méridien e do Pestana. O Bar Canoa deixou de existir com o Pestana, mas era também um ponto de encontro, um ponto de boa música, um ponto de ouvir um bom teatro que tinha também".
Ela também reviveu uma história que virou lenda urbana na capital baiana.
Tinha o Saint-Laurent também, que ficava no 23º andar, com as histórias da época do Méridien, da "Loura do 23". Não sei se vocês já ouviram falar disso. E é um fato verídico. Eu não ia, porque tinha essa lenda urbana, "A Loura do 23", contou Cris.
E Cris não hesitou quando lhe foi feito um desafio: Se você pudesse, como funcionária ou hóspede, fazer um último check-in, o que gostaria de encontrar quando abrisse a porta?
No Méridien, eu gostaria de encontrar aquele lobby cheio de lojas, descer as escadas e encontrar o Bar Canoa, a Le Zodiaque. Isso é muito marcante no Méridien. No Pestana, já queria ver aquele lobby clean, aquela piscina bonita, com Iemanjá desenhada ao fundo, o restaurante Cais da Ribeira completamente com vista para o mar e visitar a Catarineta e ver a cidade no ângulo de 360. Já aperta o coração", desabafou.
Cristiane Simões compartilhou com o BNews algumas fotos retiradas do fundo do baú. O Méridien era tão presente na cidade de Salvador que ele tinha um bloco de carnaval com hóspedes e funcionários.
As festas de Iemanjá também eram tradicionais por lá.
O contador Paulo Gil, frequentador assíduo de boa parte desses espaços emblemáticos da capital dos baianos, relembrou ao BNews alguns momentos.
O Le Méridien tinha uma das mais famosas boates da Bahia, que é a Régine's, muito frequentada pela alta sociedade. E tinha grandes, grandes festas nela, finais de semana, promoções, que todo mundo ia, por ser um local seguro, um hotel de nome, tradicional e da alta sociedade. O Othon Palace, ali em Ondina, que há pouco tempo foi vendido, ele era também conhecido pelas feijoadas de finais de semana e por aquela coisa do 'day use', que na época não era exatamente 'day use', mas você pagava pra passar o dia lá e nisso incluía as feijoadas, maravilhosas, muito bem frequentadas. E o Salvador Praia, também tinha uma boate, com show dentro dessa boate, algumas festas tradicionais, temáticas, entendeu? Então foram três hotéis muito que marcaram Salvador".
Sinto saudade e boas lembranças. Por exemplo, o Salvador Praia e o Othon faziam um grande camarote, porque quando começou a passar a Carnaval na Ondina, ali era o point dos camarotes. O Salvador Praia e o Othon faziam camarote. Inclusive nesses camarotes a gente se hospedava no hotel por causa da visibilidade, a passagem. E assim, a recordação que você passa ali, hoje, por exemplo, o Salvador virou um prédio residencial. Então, nos traz lembranças, aquela vista para mar, você tinha acesso, você não descia, mas tinha a vista pro mar. Ali na parte de lazer você tinha essa visão bonita, o por do sol. O Othon fazia festas temáticas, inclusive por do sol no Othon. Eu vivi leilão de animais no Othon, eu já vivi isso. Os salões do Othon mesmo, de eventos grandes, palestras e tal, aqueles salões enormes. Então, nos traz lembranças antigas que, vamos dizer assim, de um lugar tranquilo, seguro, bem frequentado e tudo com acessibilidade, porque hoje você não tem mais isso. O Le Méridien tinha o café da manhã, muito tradicional, conhecido, com aquela paisagem, aquela vista pro mar, era linda, não tem nada que pague isso. Eu não sei como é que um hotel daquele faliu, não entendo até hoje", contou.
Chris Bruni foi gerente de vendas no Pestana Bahia e também no Hotel da Bahia. Ela explicouo que mais chama atenção na sua memória afetiva.
Como consumidora e não como colaboradora, eu diria que as discotecas, né, na época falávamos discoteca, as discos, porque a gente tinha, por exemplo, no Othon Palace Hotel, em Ondina, a famosa Hippopótamus, que tanto tinha a matinê, 16 horas, pra quem era menor de idade, e pra maior de idade, à noite, terminando altas horas, né? O próprio Salvador Praia Hotel também teve a boate Champagne, que também era icônica, né", disse.
A gerente de vendas também comentou sobre como com o tempo se foi percebendo que os hotéis já não eram mais os mesmos.
Eu fui Othon início da minha carreira, estou falando aí nos anos de 1988. Ele fechou há pouco tempo, né, ele inclusive passou por uma reestruturação, aumentou a área de eventos, na época o diretor-geral, Aldo Campos, fez aquela mudança efez aquela área de eventos na frente, então ele deu uma guinada. Mas, assim, Salvador, realmente, ela não consegue viver de lazer, ela tem que viver da área do MICE, que é o que a gente chama de Meeting, Incentive Convention and Events. Então, essa área de eventos, né, acontecendo, mas eu digo eventos de grande porte, acontecendo no centro de convenções, para gerar hospedagem, né, eventos como já teve na cidade, de cardiologia, de 6 mil pessoas, 7 mil pessoas, o FDI, que era um evento de odontologia internacional. Então, a gente começa a perceber, e aí já quando eu estava no Pestana, eu posso dizer isso, e aí já foi na época aí de 2011, 12, entrei no Pestana em 2008, e já lá para 2012, a gente já percebia isso, que os hotéis começavam, né, já tinha saído Salvador Praia Hotel, o Othon já dava sinais, porque teve aquela parada de eventos, porque a gente teve um problema também no centro de convenções, né, que fechou (...) O que é mais importante dentro de um hotel é a hospedagem, é a hospitalidade e esses indícios começaram a aparecer quando a gente percebia que só o turismo de lazer, como a gente chama, ele não já gerava hospedagem para atender 421 apartamentos no Pestana, uns 300 no Othon. O Salvador do Praia já não existia".
O BNews buscou a Prefeitura de Salvador para comentar as mudanças no setor hoteleiro nos últimos anos, com alguns hotéis tradicionais encerrando as atividades, mas também com a chegada de novos empreendimentos.
Segundo a administração municipal, houve uma completa mudança de paradigma no mercado de turismo e hospedagem ao longo dos últimos dez anos e com o surgimento e o fortalecimento das plataformas online de aluguel por temporada, os visitantes passaram a contar com outras opções de hospedagem além da hotelaria tradicional.
A prefeitura pontua que, com isso, a disponibilidade tanto de hotéis e serviços de aluguel por temporada trouxe uma nova dinâmica para o setor e, por isso, considerar exclusivamente o número de hotéis em funcionamento e de leitos tradicionais não reflete fielmente a capacidade de hospedagem da cidade.
O fechamento de hotéis tradicionais, como o Pestana e o Othon Palace, faz parte dessa transformação pela qual passa o mercado de hospedagem em Salvador e em outras cidades turísticas do Brasil e do mundo. Ao mesmo tempo, a cidade continua atraindo novos empreendimentos, inclusive de alto padrão, como o Fera Palace e o Fasano, no Centro Histórico, além da chegada do Grupo Wish ao Hotel da Bahia e da implantação de hotéis de perfil funcional no Hangar Business Park, na Avenida Paralela, próximo ao Aeroporto. Há ainda a previsão de um hotel seis estrelas no Palácio Rio Branco e outros empreendimentos no Centro Histórico, região que vem recebendo grandes investimentos deste setor econômico", disse.
A gestão soteropolitana exaltou os grandes empreendimentos que marcaram Salvador.
A Prefeitura reconhece a importância histórica dos hotéis tradicionais para a construção do turismo de Salvador. São empreendimentos que fazem parte da memória da cidade e contribuíram para sua consolidação como destino turístico. Ao mesmo tempo, é preciso compreender que essa transformação não é um fenômeno exclusivo de Salvador ou do Brasil. Ela ocorre em escala mundial e de maneira ainda mais acelerada em cidades com grande movimentação turística."
Sobre os estimulos para novos investimentos no setor hoteleiro e incentivo a modernização e a permanência de empreendimentos tradicionais, a prefeitura afirmou que mantém, desde 2019, o Proturismo, programa de incentivo que oferece redução de 40% do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) anual para unidades imobiliárias que exerçam atividades de hotelaria, pousada ou motelaria, com ou sem serviço de alimentação e que o benefício não contempla flats, apart services, administração de hotéis e empreendimentos similares.
A gestão defendeu que combina incentivo à atividade econômica e qualificação profissional, criando melhores condições para o desenvolvimento e a competitividade do setor turístico e hoteleiro de Salvador, trabalhando na diversificação dos segmentos que movimentam o turismo da cidade, com atenção especial ao turismo de negócios e de eventos, que contribui para ampliar o fluxo de visitantes para além dos períodos tradicionalmente associados ao turismo de lazer.
O BNews também tentou conversar com a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis Bahia - ABIH e com a Secretaria de Turismo da Bahia (Setur). A ABIH não retornou até a conclusão da reportagem e a Setur se limitou a responder aos questionamentos afirmando que informações sobre abertura e fechamento de hoteis seria com a associação mencionada.
Salvador não perdeu apenas hotéis e grandes símbolos do turismo, perdeu pedaços da própria história e da memória. Carnavais, réveillons, casamentos, encontros, reecontros, matinés, baladas, shows, festas... E os artistas que se hospedavam, os Chefes de Estado? E as famílias que batiam ponto todos os anos? E os trabalhadores que fizeram daqueles lugares uma segunda casa?
Alguns foram demolidos e desapareceram por completo. Outros permanecem de pé, mas não têm a mesma essência. Agora, novas histórias nesses mesmos lugares estão sendo escritas, mas, uma coisa jamais será apagada, demolida, destruída e nem 'retrofitada': a certeza e a memória de que esses hotéis não eram apenas lugares para hospedagem. Eram lugares onde a cidade acontecia e bombava.
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