Salvador

Concessionária de ônibus em Salvador recebeu dinheiro de empresa de fachada investigada pela PF por desvio milionário

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Investigação do TCU aponta que a OT Trans recebeu R$ 124 mil de empresa envolvida em esquema de desvio milionário em 2018  |   Bnews - Divulgação Divulgação / Secom PMS
Thiago Teixeira

por Thiago Teixeira

thiago.teixeira@bnews.com.br

Publicado em 22/03/2026, às 07h00 - Atualizado às 07h05



A BNews Premium revelou que a concessionária de transporte OT Trans, responsável pelo sistema de ônibus em Salvador, recebeu cerca de R$ 124 mil em transferências feitas pela empresa M.C. Félix Comunicação e Eventos Ltda., citada em investigações da Polícia Federal no âmbito da Operação Fantoche, que apura um esquema milionário de desvio de recursos.

De acordo com análise do Tribunal de Contas da União, os repasses ocorreram em setembro de 2018 e não tiveram o fato gerador identificado, nem comprovação de prestação de serviços ou vínculo com o projeto cultural "Comida com Sotaque", financiado por meio da Lei Rouanet.

A reportagem identificou ainda que os valores transferidos à OT Trans têm origem em recursos pagos à M.C. Félix no âmbito do projeto cultural, executado pelo Instituto Origami. A Corte de Contas considerou a execução do projeto irregular, apontando indícios de simulação de serviços e fragilidades no uso dos recursos incentivados.

Resumo gerado por IA

O nome da Ótima Transportes de Salvador, a OT Trans, é citado em uma investigação do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o desvio de dinheiro apurado pela Operação Fantoche, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em 2019. A empresa é uma das responsáveis pelos ônibus do transporte público de Salvador desde janeiro de 2015, após a criação do sistema Integra pela Prefeitura de Salvador.

Documentos obtidos com exclusividade pela BNews Premium apontam que a OT Trans recebeu duas transferências bancárias, realizadas em 4 e 6 de setembro de 2018, no valor total de R$ 124 mil (R$ 124.057,92), feitas pela M.C. Félix Comunicação e Eventos — apontada como uma das empresas de fachada envolvidas no esquema criminoso.

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Antiga linha Estação Pirajá x Castelo Branco (1366) gerida pela OT Trans | Foto: Divulgação

A Félix Comunicação possuía sede na cidade de Olinda, em Pernambuco, antes de ser liquidada em janeiro de 2025. Ela é apontada parte de um esquema estruturado de desvio de recursos públicos que usava projetos culturais e entidades de fachada como intermediárias por meio de contratos de superfaturados e com indícios de inexecução parcial.

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Já a OT Trans, por sua vez, administra os ônibus do transporte público de Salvador ao lado da Plataforma, compondo o sistema Integra, criado na gestão do então prefeito ACM Neto (União Brasil)Inicialmente, a gestão era realizada por três empresas: a própria OT Trans (verde), a Plataforma (amarelo) e a extinta CSN (azul) — que faliu e teve seu contrato rescindido com a prefeitura de Salvador em março de 2021.

A Operação Fantoche foi conduzida à época pela PF em parceria com o TCU e com o Ministério Público Federal (MPF). As autoridades investigavam um grupo de empresas que lucrou mais de R$ 400 milhões através de contratos firmados desde 2002 por meio de convênios com o Ministério do Turismo e entidades paraestatais do "Sistema S" — como o Sesi, por exemplo.

A BNews Premium deste domingo (22) vai mostrar como a OT Trans, uma das principais concessionárias de Salvador e com capital social de R$ 17 milhões, teve seu nome ligado à folha de pagamentos de uma das investigadas pela Polícia Federal por desviar recursos captados via Lei Rouanet em setembro de 2018.

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A OT Trans recebeu R$ 124 mil em setembro de 2018 da empresa investigada pela PF | Foto: Bruno Concha / Secom

Siga o dinheiro

Para determinar a natureza dos repasses realizados pela Félix Comunicação para a OT Trans, a BNews Premium analisou transações, notas fiscais e contratos extraídos de processos do TCU sobre o projeto cultural "Comida com Sotaque" — um festival de música e gastronomia nordestina.

A Félix Comunicação foi contratada pelo Instituto Origami — entidade pernambucana que também foi investigada na Operação Fantoche — para prestar serviços de produção, comunicação e execução do evento que ocorreu entre 27 e 28 de junho de 2018, durante o período junino em Campina Grande, na Paraíba.

O projeto foi autorizado a captar cerca de R$ 1,8 milhão por meio da Lei Rouanet e conseguiu levantar aproximadamente R$ 820 mil com patrocínio de grandes empresas, como Cielo e Visa. Porém, R$ 632 mil não tiveram comprovação adequada, possuindo indícios de desvio de recursos.

Foram encontradas notas fiscais frias ou simuladas, serviços não executados e repasses sem justificativa — e é aqui que a OT Trans entra na história. A investigação identificou o repasse de R$ 124 mil feito pela Félix Comunicação para a concessionária de Salvador, nos dias 4 e 6 de setembro de 2018, cerca de três meses após a realização do Comida com Sotaque.

Confira o fluxo financeiro que identificou os repasses feitos para a OT Trans:

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Os repasses de R$ 124 mil foram feitos nos dias 4 e 6 de setembro de 2018 | Foto: TCU 

Da Lei Rouanet à OT Trans

A BNews Premium verificou que os valores recebidos pela OT Trans têm origem na mesma nota fiscal que registra o pagamento de R$ 326 mil feito à Félix Comunicação pelo Instituto Origami com recursos da Lei Rouanet. Os valores foram pagos em 23 e 30 de agosto de 2018 — poucos dias antes de uma parcela desses recursos ser repassada à concessionária de Salvador.

A reportagem ainda apurou que não há histórico de serviços prestados pela empresa pernambucana na capital baiana ou em outras regiões da Bahia no período. Além disso, conforme apontado pelo TCU, não há registro contratual ou fiscal que comprove a origem da relação ou justifique os repasses entre a Félix Comunicação e a OT Trans.

Não foi identificado o fato gerador das transações realizadas entre a empresa M.C. Félix e a empresa Ótima Transportes de Salvador SPE S.A., ocorridas em 4 e 6/9/2018, no montante total de R$ 124.057,92, financiadas por recursos oriundos do pagamento da nota fiscal 113.991,tampouco se estaria relacionado ao projeto Comida com Sotaque", diz o documento do Tribunal de Contas da União.
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Não foram encontrados documentos que justifiquem a origem da relação entre a Félix Comunicação e a OT Trans | Foto: Lucas Moura / Secom PMS

OT Trans diz que metade do dinheiro foi para a prefeitura

Questionada pela BNews Premium sobre o caso, a OT Trans, por meio de nota, esclareceu que "não possui e nunca possuiu qualquer relação comercial ou contratual com a Félix Comunicação, tendo atuado integralmente em conformidade com a legislação vigente e com estrita observância às normas de compliance".

A concessionária destacou que os valores foram recebidos como pagamento após um contrato de publicidade firmado em 2017 com a empresa pernambucana Brasil Mais Soluções — que teria utilizado a Félix Comunicação para realizar os pagamentos de maneira terceirizada.

Ainda por meio de nota, a OT Trans destacou que, nos termos de seu contrato de concessão com a Prefeitura de Salvador, estava autorizada a explorar os espaços publicitários em seus veículos, como receita acessória (complementar), sendo que 50% do valor arrecadado, obrigatoriamente deveria ser repassada ao município.

Nesse contexto, em 2017, foi celebrado instrumento contratual com a empresa Brasil Mais Soluções LTDA, com a devida autorização do Poder Público, para a realização desse serviço. Em 2018, a própria Brasil Mais Soluções LTDA autorizou que os pagamentos decorrentes desse contrato fossem realizados por terceiros (empresa do seu grupo econômico ou clientes), dentre eles a empresa M.C. Félix", destacou a OT Trans.

A empresa ainda ressaltou à BNews Premium que "tal circunstância não estabelece, em hipótese alguma, qualquer vínculo comercial ou contratual entre a OT Trans e a M.C. Félix, limitando-se a uma forma de pagamento indicada pela contratada principal", no caso, a Brasil Mais Soluções que, posteriormente, "se tornou inadimplente em relação às suas obrigações contratuais".

Diante disso, a OT Trans adotou todas as medidas legais cabíveis, incluindo o ajuizamento de ação de execução para a cobrança dos valores devidos, reforçando sua atuação rigorosamente pautada na legalidade. [...] Cumpre ainda informar que em 2019, por força de instrumento legal, todos os contratos referentes à receita acessória desta concessionária passaram a ser sub-rogados e/ou contratados diretamente pela Prefeitura de Salvador", dizia o posicionamento da empresa.

A OT Trans também frisou que, além de ser fiscalizada pela Agência Reguladora e Fiscalizadora dos Serviços Públicos de Salvador (Arsal), nunca foi questionada pelo TCU, Polícia Federal ou Ministério Público, e que suas nas demonstrações financeiras no exercício de 2018/2019 foram publicadas e entregue aos órgãos reguladores, com o parecer da auditoria responsável.

Classificação Indicativa: Livre

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