Salvador
por Leonardo Oliveira
Publicado em 02/02/2026, às 06h00 - Atualizado às 06h00
Nesta segunda-feira (2), baianos e turistas celebram os 104 anos da Festa de Iemanjá em Salvador. Nesta data, diversas pessoas lotam o Rio Vermelho em um ritual de esperança e tradição, com milhares de fiéis levando os seus presentes para a orixá.
Reconhecida como patrimônio cultural imaterial de Salvador, a celebração acontece com um cortejo realizado no meio do mar repleto de embarcações e fiéis que se reúnem em celebração à cultura afro-brasileira. Tradicionalmente, a festa acontece no Rio Vermelho, sendo realizada pela Colônia de Pescadores, na Casa de Iemanjá, para agradecer pelas bênçãos e proteções concedidas pela orixá das águas salgadas.
O historiador Vinicius Bonifacio contou ao BNews sobre as origens do festejo, a transição entre o catolicismo e as religiões de matriz africana e os marcos que consolidaram a celebração como patrimônio imaterial da capital baiana.
Origem e fé popular
A tradição nasceu de uma promessa dos pescadores do Rio Vermelho que preocupados com a queda na pescaria, em 1923, recorreram a uma ialorixá e decidiram oferecer presentes à orixá em busca de fartura no mar. No ano seguinte, ao verem as redes cheias, cumpriram a promessa e o gesto deu origem à festa que se mantém viva até hoje.
No entanto, de acordo com o historiador Vinicius Bonifacio, os registros mais antigos sobre as celebrações religiosas na região remontam ao século XIX. “Há notícias da festa de Santana sendo celebrada por pescadores no Rio Vermelho em 1891, muito antes da devoção a Iemanjá ganhar força. Foi entre 1923 e 1924 que surgiu o primeiro presente e, a partir dos anos 1930, a homenagem à orixá começou a se destacar e substituir a antiga festa católica”, explica.
Bonifacio lembra que, nos anos 1960, a festa se consolidou como uma das maiores expressões públicas do candomblé na Bahia, resistindo à repressão religiosa e se tornando símbolo da identidade afro-baiana. “É um festejo do povo. É feito por pescadores, pelos religiosos e pela população, que vê na data uma forma de agradecer e pedir boas energias para o novo ano”, destaca o pesquisador.
Das águas africanas à Bahia
O culto a Iemanjá é muito mais antigo que a própria festa baiana. Com origem na Nigéria, entre o povo Egba, o culto se espalhou pelas Américas após a diáspora africana e o tráfico de escravizados. Iemanjá é associada às águas, à abundância e à fertilidade, sendo considerada protetora das crianças, dos pescadores e dos idosos. A lenda registrada por Pierre Verger em Orixás, narra como a deusa, filha de Olokun, tornou-se a senhora dos mares depois de fugir de Ifé e transformar-se em rio antes de alcançar o oceano, a sua morada definitiva.
Sincretismo
Durante séculos, o sincretismo religioso associou Iemanjá à figura de Nossa Senhora dos Navegantes, na Bahia, ou à Nossa Senhora da Conceição, em Pernambuco. Contudo, pesquisadores afirmam que essa relação nasce de um processo histórico de resistência e não de equivalência simbólica.
Desta forma, o sincretismo foi uma forma de proteção no período da escravidão, mas tornou-se questionável pelo movimento de matriz africana, que busca o reconhecimento pleno das suas divindades.
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Com o tempo, as tradições começaram a se misturar, mas, segundo Bonifacio, a separação entre os rituais católicos e afro-brasileiros ocorreu na década de 1930. “O pároco da igreja já não estava satisfeito com essa mistura e quis desassociar a parte católica da homenagem à Iemanjá. A partir daí, a manifestação católica foi perdendo força, enquanto a de matriz africana cresceu e se consolidou”, explica o historiador.
Fé e transformações
Mesmo com as transformações urbanas e os desafios, a Festa de Iemanjá mantém sua força popular. Tornou-se patrimônio imaterial da cidade durante a pandemia de Covid-19, período em que, apesar das restrições, a celebração não deixou de ocorrer, mesmo que de forma simbólica
“A festa quase não aconteceu, mas, mesmo de forma modesta, resistiu. Isso mostra sua força”, afirmou.
Para Vinicius Bonifacio, a grandiosidade do evento está na sua capacidade de unir fé, cultura e identidade coletiva. “Ela pode acontecer numa segunda-feira, mas sempre reúne multidões. É um rito de gratidão e também o início não oficial do carnaval baiano, um pedido de bênçãos para o novo ciclo de celebrações”, observa.
O historiador ressalta que um dos marcos mais importantes da festa foi o reconhecimento como patrimônio imaterial de Salvador, pela Fundação Gregório de Mattos (FGM). O título, segundo ele, reforça o valor cultural, religioso e popular da celebração.
Para Vinicius Bonifacio, a Festa de Iemanjá se mantém viva porque nasceu do povo e para o povo. “Assim como o 2 de Julho, ela é um festejo popular. São os pescadores e a população que fazem a festa acontecer, em um gesto coletivo de agradecimento às águas”, analisou.
O pesquisador destaca ainda que elementos culturais e geográficos contribuem para a força da celebração. “Vivemos onde há o maior contingente de pessoas pretas fora da África e na presença da Baía de Todos os Santos, uma das maiores da América Latina. Tudo isso favorece a nossa cultura. Por isso, acredito que a festa ainda tem muito a nos ensinar, e muito tempo de vida”, afirmou.
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