Saúde
por Leonardo Oliveira
Publicado em 04/12/2025, às 08h14 - Atualizado às 11h57
Estudos têm sugerido que a creatina pode aliviar sintomas depressivos. No entanto, essas pesquisas ainda são pequenas e inconclusivas. Ainda não se sabe, por exemplo, se os participantes desses trabalhos estavam tomando antidepressivos simultaneamente ou se praticavam atividade física, fatores que também podem ajudar a reduzir a tristeza persistente.
O que se sabe
Uma metanálise, análise estatística que combina os resultados de vários estudos independentes sobre um mesmo tópico, realizada no Brasil e publicada no British Journal of Nutrition comparou 11 estudos e concluiu que são necessárias mais investigações antes de afirmar que a creatina teria algum efeito na depressão a ponto de justificar sua prescrição.
Apesar disso, a mesma metanálise não descarta totalmente essa ideia. É possível que a creatina tenha uma ação mais significativa para impedir recaídas de quadros depressivos do que para aliviá-los
"Hoje, o que se sabe sobre a creatina é bem diferente de quando eu trouxe essa substância para o Brasil, em 1995", afirma Antonio Herbert Lancha Júnior, professor titular de nutrição da Escola de Educação Física e Esporte da USP (Universidade de São Paulo), ao UOL.
O professor é pioneiro nos estudos sobre essa suplementação no país. "Nesses trinta anos, a ciência descobriu que a creatina está presente no sistema nervoso central", exemplifica. Mas fazendo o que ali, no cérebro?
A creatina e sua relação com o cérebro
O professor Lancha Jr. explica sobre a produção de creatina afirmando que "o destino da maior parte dessa linha de produção é a musculatura". Nos músculos, a creatina está relacionada ao metabolismo energético. Desta forma, a suplementação chega principalmente pelas portas de clubes esportivos e academias.
O suplemento de creatina, desde que seja orientado por profissionais de saúde, é capaz de melhorar a disposição dos músculos para suportar o exercício físico sem desistir, além de ajudar na recuperação deles depois.
"Mas o que se viu com o tempo é que a creatina também está envolvida no metabolismo energético do cérebro", explica a nutricionista Natasha Kim de Oliveira da Fonseca, pesquisadora em neurociências e psiquiatria do Protan (Programa de Transtornos de Ansiedade) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a reportagem do UOL.
"E que, assim como outros fazem tecidos, ele pode armazenar e criar uma reserva desse componente, atingindo o que chamamos de saturação. Em tese, essa reserva ajudaria em algumas funções cerebrais. É uma aposta”, conta.
De acordo com o professor Lancha Jr., justamente por apresentar uma função energética no sistema nervoso central, a creatina contribuiria para a sua preservação. "É que as células nervosas têm mecanismos de morte programada, como a apoptose", diz ele, referindo-se a uma espécie de suicídio celular. "E, muitas vezes, o gatilho da apoptose é a baixa disponibilidade energética."
Clique aqui e se inscreva no canal do BNews no Youtube
E a depressão?
Apesar de tudo isso, existem alguns contrapontos sobre a creatina e a depressão.
“Podemos dividir de maneira didática o cérebro em uma área mais superficial, o córtex, onde moram os nossos pensamentos e o raciocínio, e uma região mais profunda, onde estão o hipotálamo e o sistema límbico", diz o professor Lancha Jr.
"Estes têm a ver com as emoções, regulando a nossa ansiedade e a depressão, assim como as sensações de fome e a saciedade, o sono e a vigília”, complementa.
Os cientistas perceberam que a creatina tem certo papel no córtex, mas não possui qualquer ação nessas regiões mais profundas. "Portanto, ao menos até o momento presente, não há uma associação direta mostrando a sua interferência para aliviar a depressão, nem outros transtornos que tenham a ver com o emocional", reforça Lancha Jr.
"Quando olhamos para a atividade da creatina na explosão muscular, aquela capacidade de o músculo fazer movimentos rápidos e com força, a diferença é nítida nos consumidores do suplemento de creatina, já que nem sempre a alimentação a fornece em quantidade suficiente para o organismo ter sua reserva, especialmente no caso dos vegetarianos. Isso porque as principais fontes são de origem animal. No entanto, não podemos comparar esse efeito nos músculos com o que dizem acontecer na depressão", complementa a nutricionista Natasha da Fonseca.
De acordo com ela, nos estudos feitos sobre esse tema, os pacientes até melhoraram. Só que melhoraram no máximo dois pontos em uma escala clássica que os médicos usam para avaliar quadros depressivos, comparando os usuários da suplementação com quem não fazia uso dela.
"E é sabido que, para a gente notar diferença no humor e no ânimo de um paciente, seria preciso aumentar no mínimo três pontos na tal escala”, afirma. Desta forma, a creatina pode levar a uma melhora clínica imperceptível.
"Não que a indicação de suplementos com essa finalidade vá ser descartada para sempre. Mas, antes, precisamos saber se essa melhora tão sutil chegaria a fazer diferença para valer se somada a mudanças no estilo de vida, terapia comportamental e, quando necessário, medicação", pensa a nutricionista.
Classificação Indicativa: Livre
som poderoso
Imperdível
Smartwatch barato
Limpeza inteligente
copa chegando