Saúde

Em tempos de instabilidade mental de jovens e adultos, especialista aborda fatores que desencadeiam surtos psicológicos

Crise na saúde mental: Surtos por transtornos psicológicos disparam na Bahia; saiba como prevenir ou tratar esta epidemia  |  Reprodução/Freepik

Publicado em 13/08/2025, às 09h02 - Atualizado às 09h09   Reprodução/Freepik   BNews

O Brasil vive uma crise na saúde mental e a Bahia é um dos estados que mais se destacam, infelizmente, com relação ao aumento de detecção de doenças psicológicas. A situação é tão grave que já se tornou ‘comum’ vermos, nos veículos de imprensa, agressões que resultam em prisões e comportamentos que evidenciam descontrole emocional em diversos ambientes sociais, justificados por ‘ausência de sentido’, depressão, ansiedade, crise de pânico, bipolaridade etc. Para se ter uma ideia, o estado baiano computou, em 2024, o maior número de afastamentos do trabalho por ansiedade e depressão no Nordeste, segundo estatísticas do Ministério da Previdência, que também 4.517 afastamentos do trabalho causados por problemas com ansiedade e 3.313 em função de casos de depressão.

Tais números refletem uma espécie de ‘epidemia’,  um problema crescente na saúde mental dos adolescentes, jovens e adultos brasileiros. Em todo o país, no ano passado, foram solicitadas 472.328 licenças médicas devido a transtornos psicológicos, o maior índice desde 2014, de acordo com o Ministério ad Previdência, o que representa uma alta de 68% em relação a 2023. O cenário aponta para uma crise no bem-estar emocional da população, principalmente a economicamente ativa.

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Vale ressaltar que os transtornos mentais mais recorrentes na Bahia, assim como em outros estados brasileiros, descritos pelo levantamento recente do Ministério da Previdência Social são: ansiedade; depressão; depressão recorrente, transtorno bipolar; esquizofrenia, reações ao “stress” grave e transtornos; vício em drogas; transtornos psicóticos; transtornos esquizoafetivos; e a alcoolismo.

Um outro dado relevante descrito na pesquisa é que as mulheres são as mais afetadas pelos transtornos psicológicos. “A sobrecarga causada pela dupla ou tripla jornada de trabalho, aliada à desigualdade salarial e a pressões sociais, faz com que elas representem 64% dos trabalhadores afastados por doenças psiquiátricas no Brasil. Além disso, a idade média dessas profissionais é de 41 anos, e os períodos de afastamento duram, em média, três meses, com um benefício mensal em torno de R$ 1,9 mil”, explica o documento do Ministério.

Nesta quarta-feira (13), Dia do Psiquiatra, o Bnews convidou Dra. Raíza Alves Pereira, mestre em Medicina e Saúde e psiquiatra na Holiste Psiquiatria, para esclarecer algumas importantes questões relacionadas à saúde mental da população, através de um ping pong exclusivo. Confira a seguir:

Site BNews - Quais são os fatores que mais influenciam o desencadeamento de crises graves na saúde mental?

Dra. Raíza Alves Pereira / Holiste Psiquiatria - Podemos entender uma crise grave em saúde mental como aquela em que os sintomas causam intenso sofrimento e comprometem a capacidade de a pessoa manter suas atividades, cuidar de si mesma ou garantir a própria segurança e a de terceiros. Pode envolver agravamento súbito de ansiedade ou depressão, ideação suicida, surtos psicóticos ou comportamentos de risco. Em geral, resulta da combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, como estresse crônico, sobrecarga de trabalho, insegurança financeira, traumas e luto, sendo mais provável em indivíduos que já apresentem algum grau de vulnerabilidade ou adoecimento prévio.

Site BNews – As mulheres realmente são, realmente, um grupo de risco maior?

Dra. Raíza Alves Pereira / Holiste Psiquiatria -As pesquisas indicam uma clara diferença de gênero no risco para transtornos mentais. Desde cedo, meninos e meninas apresentam perfis distintos: eles tendem a ter mais dificuldades em regular a atenção e controlar impulsos, o que aumenta a ocorrência de transtornos externalizantes, como uso de substâncias e condutas impulsivas; elas, apesar de desenvolverem mais cedo habilidades de controle atencional e comportamental, mostram maior vulnerabilidade para transtornos internalizantes, como ansiedade, depressão e transtornos alimentares. No caso da ansiedade e da depressão, as mulheres têm cerca do dobro de risco ao longo da vida, diferença que se acentua na puberdade e se mantém até a velhice, em diferentes culturas e contextos socioeconômicos, não sendo explicada apenas pela maior procura por atendimento.

Esse risco maior resulta da interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Entre os biológicos, destacam-se as variações hormonais em fases como puberdade, periparto e perimenopausa, além de diferenças na resposta fisiológica ao estresse. No campo psicológico, são mais frequentes traços como neuroticismo, tendência à ruminação e maior sensibilidade a estressores interpessoais. E, de forma muito relevante, fatores sociais: as mulheres estão mais expostas a violências de gênero, sobrecarga de trabalho associada à dupla ou tripla jornada e desigualdades estruturais que afetam seu bem-estar e autonomia.

Site Bnews - Em sua opinião, a internet tem contribuído para essas crises? De que forma? E como mitigar ou reverter seus efeitos?

Dra. Raíza Alves Pereira / Holiste Psiquiatria - A internet, especialmente por meio das redes sociais, pode ser tanto um recurso de conexão e informação quanto um fator de risco para crises de saúde mental. O problema surge quando o uso se torna excessivo, descontrolado ou centrado em conteúdos que estimulam comparação social, reforçam padrões inatingíveis ou expõem o usuário a violência digital. Esse padrão de uso está associado a maior risco de ansiedade, depressão, isolamento social, distorção da autoimagem e pior qualidade do sono. Adolescentes, jovens adultos e mulheres estão entre os grupos mais vulneráveis, seja pela fase de desenvolvimento, seja por pressões sociais e culturais que encontram nas redes um espaço de amplificação.

Mitigar esses efeitos passa por estimular escolhas conscientes e uso equilibrado da tecnologia. No nível individual, é fundamental desenvolver senso crítico sobre o conteúdo consumido, praticar autorregulação e reservar tempo para experiências offline que tragam significado e bem-estar. No âmbito coletivo, pode podem contribuir ao oferecer ferramentas de controle de uso, promover educação digital e criar ambientes que incentivem práticas online mais saudáveis. O objetivo não é restringir ou demonizar a internet, mas integrá-la de forma construtiva, preservando seus benefícios e reduzindo seus riscos.

Site Bnews - Quais os sintomas específicos a serem observados por familiares, por exemplo, antes de ocorrer algo mais grave, no intuito de intervenção e busca de tratamento urgente?

Dra. Raíza Alves Pereira / Holiste Psiquiatria - Alguns sinais merecem atenção especial porque podem indicar que é necessária avaliação especializada urgente. Mudanças bruscas no comportamento ou no humor, como isolamento repentino, perda de interesse por atividades antes prazerosas, irritabilidade intensa ou apatia marcante, são alertas importantes. Queda acentuada no desempenho escolar ou profissional e descuido com a higiene pessoal também merecem cuidado.

Entre os sinais de maior gravidade estão a expressão de desesperança, os comentários sobre morte ou suicídio, doação de pertences importantes, aumento do uso de álcool ou drogas e comportamento desorganizado ou desconexo. Nesses casos, é fundamental buscar ajuda médica de forma imediata, pois a intervenção precoce aumenta muito as chances de recuperação e pode evitar desfechos mais graves.

Site Bnews – Quais são as opções para a manutenção de uma saúde mental estável? E, nos casos de crise, o que fazer?

Dra. Raíza Alves Pereira / Holiste Psiquiatria - Manter a saúde mental estável exige um conjunto de cuidados contínuos. Praticar atividade física regularmente, ter momentos de lazer planejados, cultivar conexões sociais e adotar estratégias de manejo do estresse — como meditação ou atividades prazerosas — são pilares fundamentais. A manutenção de uma alimentação equilibrada, de uma rotina de sono adequada e o cultivo da espiritualidade também contribuem para fortalecer o equilíbrio emocional. É importante lembrar que práticas de autocuidado não substituem tratamentos baseados em evidências nos casos de doença mental estabelecida, mas podem atuar como aliadas valiosas na recuperação e na prevenção de recaídas.

Nos casos de crise, a prioridade é preservar a segurança da pessoa e de quem está ao redor. Isso pode incluir a busca imediata por atendimento em pronto-socorro psiquiátrico. Em situações de risco de suicídio, nunca se deve deixar a pessoa sozinha e é necessário retirar do ambiente quaisquer meios que possam ser usados para autoagressão. Quanto mais cedo ocorre a intervenção, maiores são as chances de estabilizar o quadro e iniciar o tratamento adequado, que pode envolver psicoterapia, medicação ou ambas.

Classificação Indicativa: Livre


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