Justiça
por Antonio Dilson Neto
Publicado em 30/05/2026, às 11h01
A ex-oficial de chancelaria Flávia Medeiros, de 29 anos, exonerada do Ministério das Relações Exteriores (MRE) após desdobramentos judiciais envolvendo sua vaga por cotas, havia sido recém-eleita pelos próprios colegas para compor o Comitê Étnico-Racial da instituição.
O nome da ex-servidora foi chancelado pelo corpo de funcionários do Itamaraty para integrar o colegiado consultivo focado em políticas de igualdade.
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Flávia perdeu o cargo público após a Justiça rejeitar o recurso em que ela contestava sua desclassificação no exame de heteroidentificação do concurso de 2023.
O Comitê Étnico-Racial faz parte do Sistema de Promoção de Diversidade e Inclusão do MRE, criado em 2023. A estrutura conta ainda com instâncias voltadas para Gênero, Pessoas com Deficiência e Pessoas LGBTQIA+. Os grupos têm natureza consultiva, emitindo propostas de políticas, estratégias, capacitação de pessoal e relatórios anuais para subsidiar as decisões da alta administração do Palácio Itamaraty.
De acordo com informações divulgadas pelo jornal Estado de S. Paulo, a votação para o comitê ocorreu em formato eletrônico. Flávia Medeiros foi eleita como secretária-executiva adjunta titular em uma chapa única que contava também com João Lucas Rocha Alves (coordenador titular) e Laís Cristina Leite Maia (secretária-executiva titular).
O mandato dos eleitos compreende o biênio 2026-2028. Devido à perda do vínculo com o ministério, a ex-servidora fica temporariamente impedida de assumir o posto.
Integrantes do comitê informaram ao Estadão que o caso de Flávia foi debatido internamente e que ela recebeu apoio emocional, mas o colegiado evitou manifestações públicas devido ao período de transição. Além do suporte do Sinditamaraty, a ex-oficial recebeu uma carta de defesa enviada pela organização Educafro, que classificou a exclusão como fruto de uma avaliação fenotípica subjetiva e pediu sua reintegração ao cargo.
O caso de Flávia Medeiros expõe uma aparente incongruência nos filtros de corte racial adotados em diferentes processos institucionais. Embora tenha sido desclassificada por unanimidade pela comissão do Cebraspe no concurso de 2023 para oficial de chancelaria, ela foi considerada apta e listada no Diário Oficial da União como beneficiária de uma bolsa-prêmio voltada para candidatos negros e pardos no Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco em 2024, voltado à preparação para a carreira diplomática.
Nos bastidores do MRE, a demissão causou consternação entre diplomatas. Profissionais que costumam compor bancas de heteroidentificação na pasta argumentaram que Flávia preenche os requisitos tradicionais para o enquadramento como parda.
Há uma divisão de entendimentos no setor: enquanto diplomatas tendem a adotar critérios de avaliação mais abrangentes para o pardo, setores do movimento negro criticam essa flexibilidade, defendendo que as vagas de cotas deveriam se concentrar prioritariamente em pessoas negras de pele retinta.
O Ministério das Relações Exteriores mantém silêncio público sobre o caso de Flávia Medeiros. Diplomatas justificam a ausência de posicionamento oficial pelo fato de a discussão jurídica ainda não ter sido totalmente esgotada nos tribunais.
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