Justiça

Marcelo Castro e demais réus do ‘Caso Pix’ ficam em silêncio após juiz negar manobras para adiar audiência

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Após dois anos de investigação, a fase de instrução do Caso Pix foi encerrada, com réus optando pelo silêncio durante audiência  |   Bnews - Divulgação Foto: Divulgação
Claudia Cardozo

por Claudia Cardozo

claudia.cardozo@bnews.com.br

Publicado em 07/05/2026, às 13h03



A fase de instrução do processo que apura o "Caso Pix" chegou ao fim nesta quinta-feira (7), no Fórum Criminal de Salvador, marcada pelo silêncio estratégico dos acusados de envolvimento no esquema criminoso. Nesta quarta-feira (6), testemunhas depuseram sobre o caso, incluindo o delegado Charles Leão, que falou sobre a ameaça a um das vítimas.

Após dois anos de uma investigação que abalou a imprensa baiana e com ampla repercussão nacional, o encerramento desta etapa processual foi selado com os jornalistas Marcelo Castro e Jamerson Oliveira, além dos demais réus, abrindo mão do direito de depor após sucessivas tentativas da defesa de adiar a sessão.

Eles entraram em silêncio no auditório do fórum criminal e saíram da mesma maneira. Marcelo Castro e Jamerson Oliveira ficaram cabisbaixo em boa parte da audiência, com sinais de tensão no semblante. 

Manobras negadas
O dia que deveria marcar o interrogatório dos réus começou com tentativas de travar o andamento do processo. A defesa de Marcelo Castro alegou a ausência de uma testemunha considerada "indispensável" para a prova oral do processo.O cinegrafista chamado para depor teria perdido um ente querido e estava incomunicável. A defesa queria a suspensão da audiência com convocação de nova data para que esta testemunha pudesse falar.

Entretanto, o juiz Waldir Viana negou o pedido por entender que houve diversas tentativas de contato com a testemunha, inclusive, cogitou aplicar uma condução coercitiva para depor. Entretanto, a defesa dos acusado não indicaram o endereço da testemunha nos autos, o que inviabilizaria a condução coercitiva.

O magistrado destacou que a defesa não teve o cuidado de incluir o endereço do profissional nos autos, fornecendo apenas um número de telefone, o que impossibilita qualquer ação policial. O juiz Waldir Viana declarou a preclusão do pedido, reforçando a regra básica de que "o direito não socorre aos que dormem" e classificando a movimentação como uma tentativa infundada de caçar nulidades.

Procrastinação do processo
Os advogados dos réus ainda tentaram uma última cartada, alegando que os áudios das oitivas de vítimas e testemunhas estavam "inaudíveis" e que não tiveram tempo hábil para analisar os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs).

O assistente de acusação, o advogado Gamil Foppel, rebateu os argumentos classificando-os como uma postura de "questionável lealdade processual" e uma tentativa clara de "procrastinar o processo". Foppel lembrou que as provas digitais e os RIFs sempre estiveram acautelados e à disposição das partes no cartório, bastando a diligência dos advogados em acessá-los. Para a acusação, tanto a autoria quanto a materialidade do crime já estão devidamente provadas.

O silêncio como estratégia 
Diante da decisão do juiz em seguir com o interrogatório dos réus, os acusados optaram pelo silêncio. João Daniel Jacobina, defensor de Marcelo Castro, afirmou que os réus "teriam o que dizer", mas que a orientação técnica foi não falar devido à suposta falta de acesso a documentos que o próprio delegado Charles Leão detalhou no dia anterior.

Nos bastidores, o que se observa é uma tentativa da defesa de blindar Marcelo Castro, tentando concentrar a responsabilidade do esquema nas figuras do editor Jamerson Oliveira e do produtor Lucas Costa. O adiamento, como o que ocorreu de novembro do ano passado para maio deste ano, também foi visto como parte de uma estratégia para ganhar tempo e aliviar a pressão sobre a figura pública do apresentador de tv acusado.

Rumo à sentença
Com o encerramento da audiência de instrução, o juiz Waldir Viana deu por concluída esta fase. Agora, abre-se o prazo para as partes solicitarem diligências complementares, seguido pelas alegações finais. Após esse período, o processo estará pronto para a sentença.

Como funcionava o golpe?
A investigação, reforçada por apurações internas da Record e detalhada nacionalmente, mostra que a engrenagem funcionava de forma organizada. Durante um ano e cinco meses, o grupo teria operado um esquema que explorava a solidariedade do telespectador. Ao todo, as campanhas arrecadaram cerca de R$ 543 mil. Desse montante, R$ 407 mil foram desviados, o que significa que 75% de tudo o que foi doado nunca chegou aos necessitados.

Relembre o caso
Tudo começou quando a emissora notou inconsistências em doações de alto valor, como a feita pelo jogador Anderson Talisca. Após uma auditoria interna, a Record demitiu Marcelo Castro e Jamerson Oliveira por justa causa. Hoje, os envolvidos respondem judicialmente por apropriação indébita, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Ao todo, 12 famílias foram vitimadas diretamente.

Classificação Indicativa: Livre

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