Economia & Mercado
por Thiago Teixeira
Publicado em 25/05/2025, às 06h57 - Atualizado às 06h58
Não é novidade que tanto o governo da Bahia como o governo federal enxergam com bons olhos a venda da Bamin (Bahia Mineração). No entanto, as gestões sempre divergiram quanto ao comprador. O governo Lula nunca fez muita questão de esconder que a Vale era sua menina dos olhos — não à toa a iminente desistência da empresa do acordo, mesmo com a preferência de compra até o final de maio, frustrou o Palácio do Planalto.
Já o governo baiano, por outro lado, sempre "torceu a boca" para a companhia. Fontes envolvidas na negociação revelaram à BNews Premium que o pé atrás da gestão estadual com a Vale se dá devido à péssima experiência com a VLI — da qual a multinacional brasileira é uma das principais acionistas —, concessionária responsável pela Ferrovia Centro-Atlântica (FCA).
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Em outubro do ano passado, em meio à tentativa de renovar antecipadamente a concessão da malha ferroviária que acaba em agosto de 2026, a VLI apresentou um projeto prevendo a descontinuidade do trecho Minas-Bahia — único que corta o estado — sob a alegação de “falta de carga”.
À época, a proposta enfureceu os governos mineiro e baiano que alegaram que a VLI “sucateou” o trecho. A BNews Premium apurou, junto a fontes governistas, que o temor do governo baiano é que, caso o consórcio entre Vale, Cedro Minerações e BNDESpar adquira a Bamin — e "herde" as obras da Ferrovia Oeste-Leste I (Fiol I) e o Porto Sul —, tenha a mesma postura que VLI na gestão da FCA em território baiano.
Em meio a este xadrez, a "bola da vez" para arrematar o negócio é uma velha conhecida nas tratativas: a inglesa Brazil Iron, que controla uma mineradora em Piatã, na Chapada Diamantina. A tendência é que, após a preferência de compra da Vale se findar até o final de maio, os britânicos assumam a dianteira da negociação se tornando os favoritos para arrematar o negócio.
Mesmo tendo sede em Caetité, a Bamin — fundada em 2005 — é controlada pelo Eurasian Resources Group (ERG), grupo do Cazaquistão, desde 2010. O grupo cazaque teria investido cerca de US$ 2,2 bilhões, ao longo dos últimos anos, mas a "fonte secou". A mineradora já assumiu publicamente os problemas financeiros e a necessidade de um investidor externo para viabilizar os projetos travados da Fiol e Porto Sul.
Investida britânica e "pente-fino" do governo Lula
Diante das finanças “avermelhadas" da Bamin, a Brazil Iron já teria oferecido um aporte de US$ 1 bilhão e iniciado estudos para viabilizar o acordo de compra da mineradora, e destravar os 537 km de malha ferroviária da Fiol — que liga as cidades baianas de Caetité, no Sudoeste, e Ilhéus, no Sul, escoando minérios, grãos e outras cargas no Porto Sul.
No entanto, apesar do “apetite” inglês, ainda há indefinições para que o martelo seja batido. Mesmo com discordâncias internas a nível federal e estadual, é consenso que a Vale, dada a sua expertise e confiabilidade no mercado, era a opção mais lógica para arrematar o negócio. Com ela fora da negociação, a tendência é que o governo federal seja um pouco mais rigoroso com as demais empresas que demonstrem interesse na aquisição da Bamin.
A BNews Premium apurou que o governo Lula deve exigir de futuros compradores mais comprovações de que essas corporações realmente têm "cacife" para implementar o projeto — o que pode gerar ainda mais morosidade às tratativas. Ao menos com relação ao Porto Sul, a Bamin já viabilizou R$ 4,6 bilhões em empréstimos do Ministério dos Portos e Aeroportos, com verba vinculada ao Fundo da Marinha Mercante (FMM).
Diante da iminente queda da preferência de compra da Vale, o que deve culminar em sua desistência do acordo, outros players devem entrar na jogada. A própria Cedro estuda, internamente, manter uma investida — agora solitária — e seguir na disputa pela Bamin.
No entanto, com o fundador e presidente do Grupo Cedro, Lucas Kallas, sendo investigado pela Polícia Federal (PF) por participar de um esquema de extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, patrimônio histórico de Belo Horizonte, a gigante mineira pode acabar sendo escanteada no processo.
A Brazil Iron também tem "teto de vidro". Um ponto que pesa contra os britânicos é o processo da Defensoria Pública da União (DPU) que pediu, em 2023, a suspensão das atividades da empresa na Bahia. O empreendimento estaria afetando duas comunidades quilombolas, que acionaram a mineradora inglesa na Justiça do Reino Unido.
'Racha' na Vale
A BNews Premium apurou que a compra da Bamin nunca foi unanimidade dentro da Vale. Uma fonte envolvida nas tratativas confidenciou que o motivo seria uma divisão interna. Uma parcela dos conselheiros da mineradora não vê com bons olhos tanta aproximação com a Bamin devido às obras de grande interesse do governo federal.
Essa questão aliada à eventual sociedade com o BNDESpar é vista internamente, por uma parcela de conselheiros, como um "prato cheio" para que o governo Lula consiga vazão para interferir politicamente nas decisões da empresa.
Parte do conselho quer negociar com o governo [Lula] à distância. Eles topam conversar sobre as concessões, mas não querem influência do governo dentro da empresa. Eles devem barrar possíveis pautas governistas para criar esse distanciamento”, afirmou uma fonte ouvida pela BNews Premium.
A fonte ouvida pela reportagem ainda destacou que o "outro grupo” que seria capitaneado pelo presidente da Vale, Gustavo Pimenta, possui interesse em "estreitar os laços" com o governo Lula. Vale lembrar que, para o investimento bilionário ir adiante, ele precisa ser analisado pelo Comitê de Investimento da empresa — para somente após isso seguir para o conselho de administração da empresa.
Tem uma ala [dentro da Vale] interessada em seguir mais próxima do governo para ter facilidade em renovar a concessão da VLI e manter a [Ferrovia] Centro-Atlântica. Temos esses dois núcleos em embate, e devido aos regulamentos internos da Vale, só passa a validação da venda com o aval da maioria deles”, confidenciou um membro a par das tratativas.
Outro aspecto apurado pela BNews Premium é que existe uma reticência acerca da Fiol devido a ele descentralizar o eixo logístico que, atualmente, é controlado pela Vale — como Ponta da Madeira, em São Luís, no Maranhão; e Tubarão, em Vitória, no Espírito Santo. Já projeto nordestino, por ser mais democrático do ponto de vista logístico, geraria uma ameaça ao monopólio da Vale.
O que dizem as partes
A BNews Premium questionou todos os players envolvidos nas negociações. A reportagem não conseguiu contato com a Cedro. O espaço segue aberto e a matéria será atualizada em caso de eventual manifestação futura. O BNDES informou que não comenta assuntos relacionados a empresas de capital aberto e a Brazil Iron destacou que não se posiciona sobre rumores de mercado.
Já a Vale, por meio de nota, reiterou que as avaliações de oportunidades de investimento são exercidas no curso regular de suas atividades, em especial aquelas sobre ativos com potencial contribuição às prioridades estratégicas da Companhia. A companhia destacou que seguirá mantendo o mercado informado tempestivamente sobre qualquer fato relevante a respeito de seus negócios.
A Vale esclarece que decisões quanto à alocação de capital seguem rigoroso processo de avaliação, incluindo aspectos técnicos, econômicos e financeiros, e são tomadas em conformidade com as políticas e regras de governança da Companhia”, afirmou a mineradora à BNews Premium.
Também por meio de nota, a Bamin afirmou que está em processo de reestruturação de capital, conduzido por sua controladora, o Grupo ERG, com o objetivo de buscar novos investidores e viabilizar as próximas etapas do Projeto Pedra de Ferro. A empresa, no entanto, frisou que não comenta especulações de mercado sobre negociações em andamento.
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