Saúde

Médico especialista esclarece impactos das canetas emagrecedoras em atletas e no uso alinhado ao anticoncepcional

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Em entrevista ao BNews, o médico Gabriel Almeida comenta temas que voltaram ao debate nos últimos dias, envolvendo anticoncepcionais, gravidez inesperada e uso de medicamentos para emagrecimento em atletas  |   Bnews - Divulgação Foto: Ilustrativa / FreePik
Redação Bnews

por Redação Bnews

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Publicado em 16/12/2025, às 20h37 - Atualizado às 21h28



O uso de medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras” voltou ao centro do debate público nos últimos dias após a ex-BBB Laís Caldas anunciar a gravidez do primeiro filho, mesmo fazendo uso regular de anticoncepcional oral. Em relatos nas redes sociais, ela atribuiu a gestação ao uso da tirzepatida, princípio ativo do medicamento Mounjaro, utilizado em protocolos de emagrecimento.

O tema ganhou repercussão também no esporte, após questionamentos envolvendo o departamento médico do São Paulo Futebol Clube, que registrou um número elevado de atletas lesionados. A discussão surgiu após a informação de que canetas emagrecedoras teriam sido utilizadas por alguns jogadores.

Para esclarecer o que é evidência científica, o que ainda está em estudo e quais são as recomendações médicas, o BNews entrevistou o médico Gabriel Almeida, especialista em cirurgia geral, pesquisador e professor de médicos em cursos de emagrecimento, reposição hormonal e terapias injetáveis. Recentemente, ele também tomou posse na Academia Brasileira de Ciências, Artes, História e Literatura (ABRASCI), em cerimônia realizada no Congresso Nacional, em Brasília.

Anticoncepcional e tirzepatida: há risco real?

Segundo Gabriel Almeida, nem todas as canetas emagrecedoras apresentam o mesmo comportamento farmacológico. “A resposta é: depende da medicação”, afirma.

Ele explica que drogas de primeira e segunda geração, como a liraglutida (Victoza e Saxenda) e a semaglutida (Ozempic e Wegovy), não demonstram interferência clinicamente significativa na absorção de anticoncepcionais orais. “Nesses casos, não há evidência de aumento relevante do risco”, diz.

Já a tirzepatida, considerada uma medicação de nova geração, apresenta características diferentes. “Ela pode, sim, justificar uma interferência no efeito do anticoncepcional oral, especialmente em pacientes que ainda não estão com a dose estabilizada”, afirma o médico.

De acordo com Almeida, a tirzepatida reduz a quantidade total do anticoncepcional absorvido pelo organismo, diminui a concentração máxima da medicação no sangue e prolonga o tempo até que essa concentração seja atingida. “Esses fatores, em conjunto, podem comprometer a eficácia do contraceptivo oral em algumas pacientes”, explica.

O mecanismo está relacionado ao efeito da droga sobre o sistema digestivo. “A tirzepatida retarda o esvaziamento gástrico. O anticoncepcional permanece mais tempo no estômago, o que altera parâmetros importantes da absorção”, afirma.

As orientações citadas pelo médico estão alinhadas ao artigo científico The Impact of Tirzepatide and Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists on Oral Hormonal Contraception, assinado por Shirley M. Lin, David R. Lutz e colaboradores, publicado em periódico internacional da área de farmacologia clínica. O tema também foi objeto de esclarecimentos de Gabriel Almeida em aulas ministradas para médicos em cursos de formação e atualização profissional.

Qual a recomendação para quem usa anticoncepcional?

Para mulheres que fazem uso de anticoncepcional oral e iniciam tratamento com tirzepatida, Almeida recomenda cautela. “A principal orientação é optar por métodos contraceptivos não orais”, afirma.

Entre as alternativas indicadas estão o implante subcutâneo e o dispositivo intrauterino (DIU). “Esses métodos não sofrem interferência do retardo do esvaziamento gástrico provocado pela tirzepatida”, diz.

Uso em atletas reacende debate

Outro ponto que entrou em pauta nos últimos dias foi o uso das canetas emagrecedoras em atletas profissionais. No caso do São Paulo Futebol Clube, a discussão surgiu após uma sequência de lesões musculares e a informação de que medicamentos desse tipo teriam sido utilizados por jogadores.

Almeida afirma que os estudos sobre aumento direto do risco de lesões ainda são escassos, mas faz um alerta. “Pode haver impacto indireto, principalmente se o atleta passa a consumir menos proteínas ou não mantém uma nutrição adequada”, explica.

Segundo ele, atletas de alta performance são especialmente sensíveis a alterações metabólicas. “Uma ingestão proteica insuficiente pode favorecer lesões musculares, sobretudo em quem treina em alta intensidade”, diz.

É indicado para jogadores de futebol?

A resposta do especialista é direta. “Não é recomendado o uso dessas medicações para atletas de alto rendimento”, afirma.

De acordo com Almeida, a perda de peso induzida pelas canetas pode comprometer diretamente o desempenho esportivo. “Há risco de redução da potência, da explosão de força e da resistência. Um jogador pode ter o sprint prejudicado e não manter o mesmo rendimento ao longo dos 90 minutos”, explica.

Para ele, na grande maioria dos casos, o uso dessas drogas em atletas profissionais tende a resultar em perda de performance. “Por isso, não é indicado”, conclui.

Classificação Indicativa: Livre

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