Meio Ambiente
Publicado em 07/06/2026, às 05h00 Foto: Ilustrativa / FreePik Natane Ramos
Nos últimos dias, problemas relacionados ao lixo acumulado, mau cheiro e poluição urbana foram denunciados em diversas áreas de Salvador e da Bahia, incluindo até mesmo pontos turísticos baianos, como Porto Seguro. Com o aumento do problema do descarte incorreto do lixo, a reciclagem torna-se uma ferramenta para impulsionar práticas sustentáveis que reduzam impactos ambientais.
Na Bahia, projetos como a campanha "Plástico em Dobro", iniciativa da Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-estar e Proteção Animal (Secis), que visa aumentar a pontuação concedida aos participantes que reciclam na capital baiana, reforçam a necessidade da prática sustentável.
Em entrevista ao BNews, Michele Almeida, vice-presidente da Cooperativa de Coleta Seletiva Processamento de Plástico e Proteção Ambiental (CAMAPET), avaliou o cenário atual da reciclagem na Bahia e seus principais desafios. "O cenário atual é de crescimento e conscientização, mas ainda muito aquém do necessário, extremamente desigual e com falhas estruturais graves", pontuou.
Apesar de perceber um avanço, Michele aponta que "em vários municípios e até mesmo na capital, não há contratos formais entre as cooperativas e as prefeituras para a prestação do serviço de coleta seletiva", o que dificulta o processo.
"Em Salvador, existem programas e estruturas extras para receber resíduos, mas falta educação ambiental de base: a população não sabe separar direito, não conhece quem faz o gerenciamento, não entende para onde vai o material e, por isso, muita coisa acaba contaminada ou jogada fora. É fundamental também levar a educação ambiental para dentro das escolas, desde cedo, para formar uma nova cultura de responsabilidade", destacou.
Além disso, a vice-presidente da CAMAPET destaca a carência documental e a falta de apoio, os projetos temporários e os recursos escassos, a falta de contratos formais na capital, a logística reversa não cumprida, a desigualdade regional e o risco de contaminação como principais empecilhos para a reciclagem.
Materiais com maior dificuldade de serem reciclados
A representante reforça o impacto social do trabalhador da coleta. "Transformamos o que antes era apenas 'trabalho de lixeiro' em uma profissão formal, organizada e necessária. Os cooperados têm divisão justa dos ganhos, capacitações, equipamentos de proteção, estrutura física e condições mais seguras. Muitas pessoas saíram de situação de vulnerabilidade, desemprego ou trabalho precário para construir uma vida sustentável por meio da reciclagem", explicou.
"Falta que o poder público, a sociedade e as empresas assumam sua parte. Enquanto em outros estados a cooperativa é parceira oficial, com contrato justo, espaços regularizados, apoio para documentação, leis que proíbem a venda e obrigam o repasse, pagamento por serviços ambientais e educação nas escolas, aqui ainda somos vistos como 'algo a mais'. A mudança só vem quando houver estrutura, obrigação legal e reconhecimento de verdade", destaca.
Impactos ambientais da reciclagem
Além dos impactos sociais, a reciclagem tem ligação direta com a preservação do meio ambiente. O BNews entrevistou o biólogo, mestre em Diversidade Animal e doutorando em Biodiversidade e Evolução pela UFBA, Esaú Marlon, sobre a importância da ação para a conservação dos ecossistemas e da biodiversidade na Bahia.
"A reciclagem possui papel fundamental na conservação da biodiversidade, porque reduz o uso de recursos naturais, diminui a quantidade de resíduos que são enviados para os lixões/aterros e reduz a poluição dos ecossistemas. Esse tipo de prática sustentável é de extrema importância para a Bahia, porque ela possui uma diversidade de biomas, como Mata Atlântica, Caatinga, Cerrado e ecossistemas costeiros", declarou Esaú.
O profissional reforçou os principais impactos ambientais causados pelo descarte incorreto de resíduos no estado, especialmente em áreas naturais e costeiras. "No ambiente costeiro da Bahia, resíduos plásticos representam uma grande ameaça para tartarugas marinhas, aves, peixes e mamíferos aquáticos. Muitos animais confundem plástico com alimento, o que pode causar sufocamento, desnutrição e morte. O excesso de resíduos altera a dinâmica ecológica, afeta organismos filtradores e compromete toda a cadeia alimentar", explicou.
Confira os mais recorrentes impactos ambientais causados pelo descarte incorreto:
Esaú informa que a reciclagem é uma forma de contribuição para a redução da poluição e para a conservação de espécies ameaçadas. "O fortalecimento da reciclagem reduz o volume de resíduos descartados no ambiente (que muitas vezes são descartados de forma incorreta), diminuindo a poluição de rios, praias, florestas e oceanos. Isso reduz os riscos de intoxicação (bioacumulação), ingestão de resíduos e perda de habitat para inúmeras espécies (exemplo: tartarugas marinhas e aves costeiras). Outro ponto a destacar é que a reciclagem contribui para a economia circular, reduzindo a pressão sobre recursos naturais. Isso significa que haverá menor necessidade de mineração, extração de madeira e expansão industrial sobre áreas naturais, ajudando na conservação de habitats críticos para a biodiversidade", pontuou.
"Do ponto de vista ambiental, a reciclagem deve ser entendida não apenas como uma prática de gestão de resíduos, mas como uma estratégia importante de conservação da biodiversidade e de ascensão da sustentabilidade", concluiu o profissional.
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