Economia & Mercado
Salvador vive uma reorganização silenciosa de parte relevante do seu patrimônio imobiliário público. Prédios históricos, estruturas administrativas desativadas e equipamentos urbanos com décadas de uso passam por um novo ciclo: venda em leilão, concessão à iniciativa privada ou reuso institucional.
O movimento se concentra principalmente no Centro e no Centro Antigo, áreas que reúnem imóveis de alto valor arquitetônico e histórico, mas que também acumulam décadas de esvaziamento, abandono e subutilização.
Prédio dos Correios na Pituba
Entre os casos mais recentes está o antigo prédio dos Correios, arrematado pela incorporadora Moura Dubeux por quase R$ 100 milhões. O imóvel, em área central estratégica, simboliza a entrada de grandes grupos do setor imobiliário em estruturas públicas desativadas, com expectativa de retrofit e uso comercial ou misto.
De acordo com a empresa, o projeto terá vocação predominantemente residencial e faz parte da estratégia de ocupar grandes áreas urbanas com novos empreendimentos. Somente na capital baiana, esta é a quarta aquisição da Moura Dubeux envolvendo áreas de antigos empreendimentos desativados. A incorporadora também assumiu projetos nos terrenos onde funcionavam o Salvador Praia Hotel, o Hotel Othon e o Hotel Pestana.
Antigo prédio da Embasa
No mesmo eixo de desinvestimento e requalificação, o antigo prédio da Embasa, na Avenida Sete de Setembro, também no Centro, foi leiloado e teve o lote declarado vendido após lance de R$ 6,7 milhões.

O imóvel, que já havia passado por episódios de ocupação irregular, integra o conjunto de edifícios públicos que deixaram a função original e foram incorporados ao circuito de venda de ativos estatais.
A reportagem procurou a assessoria da Embasa para saber quem arrematou o leilão, mas não obteve resposta.
Palacete Saldanha
No campo das concessões e destinações institucionais, alguns imóveis saíram do circuito de leilão. O Palacete Saldanha, também conhecido como Casa Nobre, no Pelourinho, foi cedido pelo Estado à Caixa Econômica Federal para instalação de uma unidade cultural, em um modelo de reocupação com finalidade pública.

O imóvel, testemunha de mais de três séculos de história, será restaurado e adaptado pelo banco. O investimento é de cerca de R$ 72,2 milhões.
Arquivo Público do Estado da Bahia
Depois de anos de incertezas e uma disputa judicial que colocou em risco o Solar da Quinta do Tanque, na Baixa de Quintas, o Arquivo Público do Estado da Bahia, que guarda mais de 40 milhões de documentos reconhecidos pela Unesco, está a salvo.
A ameaça de leilão, motivada por uma dívida trabalhista, caiu por terra após um acordo que garantiu a quitação do débito. Com o fim do imbróglio, o acervo segue na sua sede histórica, encerrando um capítulo de sucessivas tentativas frustradas de leilão e alertas do Ministério Público e da Procuradoria Geral do Estado sobre o risco irreparável de perder um dos maiores tesouros documentais do país.
Palácio Rio Branco
Situação semelhante ocorreu com o Palácio Rio Branco, na Praça Tomé de Souza. A antiga sede do governo estadual passou por concessão à iniciativa privada e está em processo de requalificação para se tornar um hotel de luxo, em contrato de longo prazo.
Antes de ser transformado em um hotel de seis estrelas, antes de virar o Hotel Allard, o prédio vai passar por uma ampla restauração pela Mata Holding. O contrato foi assinado no início do mês. A previsão é que a obra seja concluída entre 18 e 24 meses.
Centro de Convenções da Bahia
Por décadas, o Centro de Convenções da Bahia foi o coração pulsante do entretenimento e do turismo em Salvador. Inaugurado em 1979, o espaço viu seu prestígio chegar ao fim com o encerramento das atividades em 2015. Agora, o que resta é um dos maiores imbróglios imobiliários do estado.

Depois de sucessivas tentativas de negociação que terminaram sem compradores, o governo estadual aposta em um novo leilão para tentar repassar o imóvel, com um lance inicial de R$ 138 milhões.
Prefeitura adota medida
Diante do avanço do abandono de imóveis no Centro, a Prefeitura de Salvador decidiu agir para recuperar essas áreas. Em fevereiro deste ano, o município publicou decretos que permitem a tomada de posse de 36 unidades no Comércio, com base em uma lei que autoriza a intervenção em imóveis privados sem uso e sem manutenção adequada.
Na prática, quando há sinais claros de abandono e o proprietário não se manifesta, o poder público pode assumir o imóvel e direcioná-lo para uma função útil. Antes disso, equipes da Secretaria de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Sedur) e da Defesa Civil de Salvador (Codesal) fazem vistorias para confirmar a situação.
A medida faz parte de um esforço maior de revitalização do Centro, reforçando a ideia de que os imóveis precisam cumprir sua função social e voltar a ter uso na dinâmica da cidade.
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