Meio Ambiente

Agropecuária x vegetação nativa: Brasil troca floresta por pasto e fica mais vulnerável a secas e enchentes do El Niño

Rodrigo Baleia - Greenpeace
Dados do MapBiomas mostram que vegetação nativa no Brasil caiu de 79% para 65% entre 1985 e 2025, enquanto agropecuária cresce 13%  |   Bnews - Divulgação Rodrigo Baleia - Greenpeace
Cauan Borges

por Cauan Borges

cauan.borges@bnews.com.br

Publicado em 13/08/2026, às 04h00



Em meio a debates climáticos ao redor do mundo, o Brasil chega a 2026 diante de um cenário ambiental marcado por uma contradição. Ao mesmo tempo em que o maior país da América do Sul registra uma redução recente no ritmo do desmatamento, o território nacional carrega as consequências de quatro décadas de transformação acelerada da paisagem. 

Entre 1985 e 2025, a participação da vegetação nativa caiu de 79% para 65% (redução de 14%) do território brasileiro, enquanto a agropecuária avançou de 18% para 32% (avanço de 14%). Os dados fazem parte da Coleção 11 do MapBiomas, lançada na última quarta-feira (12), e ajudam a dimensionar como as mudanças no uso da terra podem influenciar a capacidade dos biomas de enfrentar eventos climáticos extremos.

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A dimensão dessas transformações ganha ainda mais importância diante do atual cenário climático. O Brasil está sob influência de um novo episódio de “El Niño", fenômeno natural associado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial e capaz de alterar o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do país. 

O “El Niño” não é provocado pelo desmatamento ou pelas mudanças no uso da terra, mas a transformação da cobertura vegetal pode tornar determinados territórios mais vulneráveis aos seus efeitos. É justamente essa relação que aparece no cruzamento entre os mapas de cobertura e uso da terra do MapBiomas e os dados de precipitação do MapBiomas Atmosfera.

A análise de três episódios recentes considerados fortes do fenômeno, (1997/1998, 2015/2016 e 2023/2024), mostra que os extremos de precipitação se tornaram mais preocupantes em diferentes regiões brasileiras. Entre setembro e novembro, período utilizado no estudo por concentrar alguns dos efeitos mais expressivos do fenômeno sobre as chuvas no país, a Amazônia apresentou o maior déficit de precipitação entre os biomas analisados. 

Perda de vegetação nativa x expansão da agropecuária

No episódio de 2023/2024, as áreas ocupadas pela agropecuária na Amazônia registraram 178 milímetros de chuva abaixo da média climatológica. O dado não permite afirmar que a agropecuária seja responsável pelo “El Niño". No entanto, áreas que passaram por profundas mudanças na cobertura do solo podem apresentar maior exposição aos efeitos de períodos prolongados de seca ou de chuvas intensas. 

A vegetação nativa desempenha funções importantes na proteção do solo, na infiltração da água e na manutenção de processos ecológicos que ajudam a reduzir os impactos de eventos extremos. Quando essa cobertura é substituída em larga escala, parte dessa proteção também é perdida.

Ao longo dos 41 anos analisados, cerca de um terço do território nacional passou por pelo menos uma mudança de cobertura ou uso da terra. Na comparação direta entre 1985 e 2025, 28% do Brasil apresentou algum tipo de transição, o equivalente a aproximadamente 241 milhões de hectares. Desse total, 136 milhões de hectares correspondem à conversão de vegetação nativa para áreas de agropecuária, representando 56% de todas as transições identificadas.

A Amazônia concentra uma parcela expressiva desse processo, já que 55 milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos em áreas agropecuárias, o que representa 83,6% de toda a área que sofreu transições no bioma durante o período. No Cerrado, foram 52 milhões de hectares, correspondentes a 59,4% das transições. A Caatinga registrou 14,1 milhões de hectares e o Pampa, 4 milhões.

A Formação Florestal continua sendo a principal cobertura natural do país, com ocupação de 359,5 milhões de hectares em 2025, ou 42,3% do território nacional. Ainda assim, foi a classe que mais perdeu área desde 1985, com aproximadamente 65 milhões de hectares. A Formação Savânica teve redução de 46 milhões de hectares, enquanto a Formação Campestre perdeu 6,3 milhões.

No mesmo período, os usos antrópicos avançaram sobre essas áreas. As pastagens ganharam 61,6 milhões de hectares, a agricultura aumentou sua área em 48 milhões de hectares, a silvicultura cresceu 8 milhões e as áreas urbanizadas avançaram outros 2,5 milhões de hectares.

A mudança é particularmente expressiva quando se observa a expansão da agricultura. Em quatro décadas, a área agrícola brasileira passou de 18,6 milhões para 66,5 milhões de hectares. A soja foi responsável pela maior expansão entre as culturas temporárias, passando de 4,5 milhões para 44,2 milhões de hectares e chegando a representar 66,5% da área agrícola do país em 2025. A cana-de-açúcar também cresceu, passando de 2,2 milhões para 11,1 milhões de hectares.

A agropecuária deixou de ser predominante apenas em determinadas regiões e passou a ocupar posição central na organização territorial de grande parte do país. Em 1985, a atividade era a principal cobertura ou uso da terra em 46% dos municípios brasileiros. Em 2025, essa proporção chegou a 59%. Ao longo do período, 744 municípios deixaram de ter a vegetação nativa como cobertura predominante.

Essa transformação ajuda a compreender por que os impactos dos eventos climáticos extremos não podem ser analisados apenas pela intensidade do fenômeno meteorológico.

A chuva, por exemplo, pode representar um problema completamente diferente em uma área de floresta preservada e em uma região ocupada por lavouras ou pastagens. No Sul do país, onde os episódios de “El Niño" costumam estar associados ao aumento das precipitações, os dados mostram que o excesso de chuva no Pampa foi maior nas áreas agropecuárias do que nas áreas de vegetação nativa em dois dos eventos analisados.

Em áreas agrícolas, chuvas muito intensas podem provocar erosão, perdas de lavouras e dificuldades de manejo do solo. Eduardo Vélez, integrante da equipe do Pampa no MapBiomas, explica que a redução da vegetação nativa agrava esses efeitos porque diminui a proteção do solo e a capacidade de infiltração da água.

Esse excesso de chuvas nas áreas agropecuárias provoca, em muitos casos, perdas nas lavouras e erosão dos solos agrícolas, o que é agravado pela redução da vegetação nativa que atua na proteção do solo e na maior infiltração da água da chuva”, explicou Vélez.

Confira gráficos:

Extinção dos biomas?

A situação do Pantanal, localizado entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul,  apresenta outra face do problema. O bioma perdeu aproximadamente 4 milhões de hectares de superfícies de água e campos alagados.

 A nova edição do mapeamento também identificou uma redução de 84% na área classificada como savana alagada, que passou de 1,1 milhão de hectares em 1985 para 174 mil hectares em 2025. O levantamento aponta ainda que 2024 foi o ano mais seco da série histórica analisada para o Pantanal.

A Amazônia e o Cerrado são os biomas que mais perderam vegetação nativa em termos absolutos. A Amazônia registrou redução de 53,9 milhões de hectares e o Cerrado, de 51,7 milhões. Quando se considera a proporção de vegetação perdida dentro de cada bioma, porém, Cerrado e Pampa aparecem em situação ainda mais preocupante, com reduções de 34% e 32%, respectivamente.

Consequentemente, a situação dos respectivos biomans também se reflete nos estados. Entre 1985 e 2025, 25 estados e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa em seus territórios. O Rio de Janeiro foi a única exceção, com aumento de 1%. Rondônia passou de 92% para 59% de vegetação nativa, enquanto Maranhão, Mato Grosso e Tocantins saíram de aproximadamente 90% para 61%.

Confira gráficos:

Terras Indígenas e o debate climático

Embora os dados da Coleção 11 apresentados pelo MapBiomas não estabeleçam, por si só, uma relação entre cada área desmatada e uma Terra Indígena específica, diferentes levantamentos mostram que os territórios indígenas têm apresentado níveis significativamente menores de desmatamento em comparação com áreas semelhantes fora deles.

De acordo com dados divulgados pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), com base em informações do Instituto Socioambiental, nos últimos 40 anos, o desmatamento atingiu 27,26% da Amazônia, enquanto dentro das Terras Indígenas o percentual foi de 1,74%. No Cerrado, o contraste também aparece de forma expressiva: enquanto 54,4% do bioma havia sido desmatado, a proporção dentro das Terras Indígenas era de 5,89%.

Esses números colocam as Terras Indígenas no centro de uma discussão que vai além da demarcação e da disputa fundiária. Em um país que perdeu 14 pontos percentuais de vegetação nativa em quatro décadas, os territórios que mantêm grandes extensões preservadas também funcionam como áreas estratégicas para a conservação da biodiversidade, proteção de recursos hídricos e manutenção de serviços ambientais.

O avanço de atividades econômicas sobre áreas próximas a territórios indígenas, as disputas por terra, a pressão do garimpo, a abertura de estradas e a expansão agropecuária fazem parte de um cenário no qual conservação ambiental e interesses econômicos frequentemente entram em choque.

Em síntese, quanto maior a perda de vegetação nativa, maior tende a ser a preocupação com a capacidade de determinados territórios de resistir a eventos extremos. A energia renovável também apresenta uma contradição semelhante.

A expansão das fontes solar e eólica é importante para a transição energética e para a redução das emissões de gases de efeito estufa, mas os próprios empreendimentos ocupam território e precisam ser planejados de maneira a reduzir impactos ambientais e sociais.

Entre 2016 e 2025, a área ocupada por usinas fotovoltaicas no Brasil cresceu 38 vezes, com ampliação de aproximadamente 43,3 mil hectares. A Caatinga concentra 63% dessa área. Bahia, Minas Gerais, Piauí e Rio Grande do Norte estão entre os estados que concentram a expansão.

Os parques eólicos também cresceram de forma acelerada, passando de 4,8 mil hectares em 2016 para 28,7 mil hectares em 2025. A Caatinga concentra 85% da área mapeada, enquanto Bahia e Rio Grande do Norte reúnem 61,7% do total brasileiro.

Confira gráficos:

Qual o saldo final?

O avanço das energias renováveis mostra que a transição energética também precisa ser acompanhada de planejamento territorial. Uma fonte de energia pode contribuir para enfrentar a crise climática e, ao mesmo tempo, gerar impactos locais que precisam ser avaliados. O desafio está justamente em construir uma transição que reduza as emissões sem repetir modelos de ocupação territorial que historicamente produziram degradação e conflitos.

Mesmo com os ‘avanços negativos’ no quesito desmantelação das áreas verdes, há, contudo, uma mudança positiva no cenário mais recente. Em 2025, o Brasil registrou menos de 1 milhão de hectares desmatados, segundo o MapBiomas Alerta, uma redução de 20,6% em relação ao ano anterior e o primeiro resultado abaixo desse patamar desde o início da série histórica, em 2019. 

O problema é que uma redução recente não apaga quatro décadas de transformação. O país pode estar desmatando menos hoje, mas ainda precisa lidar com as consequências de tudo aquilo que foi perdido anteriormente.

Com base nas principais mensagens que emergem da Coleção 11, a crise climática não acontece sobre um território estático, mas também sobre um Brasil que mudou profundamente. As florestas deram lugar a pastagens, áreas agrícolas avançaram sobre formações naturais, municípios mudaram sua principal cobertura e regiões inteiras perderam parte de sua vegetação.

O “El Niño” é um fenômeno natural e continuará independentemente dessas transformações. Entretanto, em uma Amazônia mais fragmentada, em um Cerrado profundamente transformado, em um Pantanal pressionado por alterações no regime hídrico e em áreas agrícolas expostas a secas ou chuvas intensas, o mesmo evento climático pode produzir consequências cada vez mais graves.

Confira gráficos:

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