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BNews Novembro Negro: Racismo ainda é muito presente no futebol, mas deixou de passar impune

Felipe Oliveira/EC Bahia

Publicado em 21/11/2021, às 06h01    Felipe Oliveira/EC Bahia    Lara Curcino

No dia 27 de abril de 2014, o baiano Daniel Alves comeu uma banana jogada em direção a ele em campo, durante um jogo de seu clube, o Barcelona. O ato viralizou, preencheu as redes sociais de todo o planeta e provocou um movimento que explodiu: #SomosTodosMacacos

A banana jogada ao lateral não tem muito mistério. A ideia era chamá-lo de macaco, em ofensa nitidamente racista, ao que Daniel respondeu da forma que achou melhor, com deboche. 

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O racismo no futebol segue o racismo na sociedade. No século passado, quando o preconceito era muito mais forte e o Brasil ainda estava no início do processo de desprendimento da escravidão, a presença de negros no esporte era proibida. O primeiro presidente negro de um clube nacional foi em 1905, quando Cândido José de Araújo assumiu como dirigente do Vasco da Gama. No mesmo ano, o Bangu levou a campo Francisco Carregal, primeiro jogador negro. 

Em 1907, no entanto, a Liga Metropolitana proibiu a inscrição de atletas negros. O Bangu, então, abandonou o campeonato, seguido pelo Vasco. 

Em 1923, os times Flamengo, Fluminense, Botafogo e América fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (Amea) e impuseram ao Cruzmaltino a condição de dispensar 12 jogadores negros do elenco para que a agremiação fosse aceita no grupo. A imposição foi negada pelo alvinegro, com a famosa carta “Resposta Histórica”, em uma decisão que engrenou o fim da segregação na modalidade.

Mesmo com a presença de jogadores negros já consolidada no futebol brasileiro, por muitos anos ainda foi tido como algo natural proferir ofensas racistas contra os atletas, seja por parte dos próprios adversários ou da torcida rival. É o que explica o ex-jogador do Bahia e do Vitória, João Marcelo, campeão brasileiro de 1988 pelo tricolor.



“Quando eu joguei no Grêmio, nos anos 90, eu não tinha a consciência que tenho hoje. Várias vezes fui chamado de macaco pela torcida do Internacional, mas não tinha esse debate que tem atualmente, todo esse conhecimento de que isso é um crime, então na época eu relevava. Eu e os negros que jogavam comigo éramos xingados com ofensas racistas todo jogo, mas isso era tido como normal, coisa do futebol. Ninguém se rebelava”, contou ao BNews.

Casos recentes

Voltando aos dias atuais, em 2019, o atacante Taison, na Ucrânia, mostrou o dedo do meio à torcida do Dínamo de Kiev após ouvir ofensas racistas direcionadas a ele e ao também atacante brasileiro Dentinho, que jogavam juntos no Shakhtar Donetsk à época. 

Os dois choraram em campo durante a situação e Taison, além do gesto manual, chutou uma bola em direção à arquibancada. O árbitro, então, mostrou o cartão vermelho ao atleta. Já o Dínamo foi multado em 20 mil euros.

No mesmo ano do caso de Daniel Alves, só que quatro meses depois, uma torcedora do Grêmio, durante um jogo contra o Santos, gritou sem receios para o goleiro Aranha, do Peixe: “macaco!”

Nos tempos de João Marcelo o resultado da história provavelmente seria outro. Em 2014, no entanto, a situação terminou com Patrícia Moreira e outros três gremistas indiciados por injúria racial. Ela foi demitida, teve a casa incendiada, pichada e apedrejada e precisou se esconder. O Grêmio foi eliminado da Copa do Brasil por decisão do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) e o caso foi arquivado após acordo entre as partes.

Outro caso marcante aconteceu em 2020, quando jogadores do Paris Saint-German e do Istanbul Basaksehir deixaram o campo no meio do duelo após o camaronês Pierre Webó, membro da comissão técnica do time turco, acusar o quarto árbitro, o romeno Sebastian Colţescu, de tê-lo ofendido com dizeres racistas. A partida da Champions League precisou ser adiada.

De acordo com o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, mesmo com partidas sem público durante grande parte do ano, foram registrados 68 casos de discriminação somente no Brasil em 2020 e outros oito com brasileiros no exterior. 

Para Marcelo Carvalho, diretor do Observatório, “existe uma maior conscientização atualmente de torcedores e jogadores, então atos racistas, que antes passavam despercebidos, como sendo parte do futebol, hoje já há o entendimento de que são ações crimonosas e precisam ser denunciadas”. 



“Uma coisa que é inegável, no entanto, é que há um aumento do discurso de ódio fora do futebol e isso tem influenciado no esporte. Mesmo com uma maior consciência, percebemos um aumento de casos de racismo nos estádios”, completou Carvalho, em entrevista ao BNews.

Na Bahia

Em 2017, o então jogador do Bahia Renê Jr. deixou o campo revoltado e amparado por colegas após acusar o atleta Santiago Tréllez, que vestia a camisa do Vitória, de tê-lo chamado de “macaco”. O colombiano afirmou ter sido “má interpretação" e foi absolvido por falta de provas. 



Em 2005, o então goleiro do Vitória, Felipe, acusou o presidente do Leão à época, Paulo Carneiro, de dizer que ele era "negro safado", "preto vagabundo" e "vendido". O assunto foi encerrado com empréstimo do arqueiro ao São Caetano. 

Fora das linhas

Não é só dentro de campo que o racismo ainda é visível. É difícil ver técnicos e, mais ainda, dirigentes e autoridades esportivas negros. Quem chamou atenção para isso, em discurso de 2019 que repercutiu em todo o Brasil, foi o treinador Roger Machado, que comandava o Bahia. 

Em jogo do dia 13 de outubro, entre Bahia e Fluminense, Roger e o único outro técnico negro do Campeonato Brasileiro daquele ano, Marcão, apareceram em campo com camisa que estampava a frase “Chega de preconceito”. 



“Negar e silenciar é confirmar o racismo. Minha posição como negro na elite do futebol condiz com isso. O maior preconceito que eu senti não foi de injúria. Eu sinto que há racismo quando eu vou ao restaurante e só tem eu de negro. Na faculdade que eu fiz, só tinha eu de negro. Isso é a prova para mim. Mas, mesmo assim, rapidamente, quando a gente fala isso, ainda tentam dizer: ‘Não há racismo, está vendo? Você está aqui’. Não, eu sou a prova de que há racismo porque eu estou aqui”, disse ele, durante a coletiva pós-jogo. 

Ao BNews, Roger disse que não tem como mensurar o alcance de seu discurso, mas que deseja “que tenha proporcionado reflexão dos agentes envolvidos no esporte, para que eles se envolvam cada vez mais na causa antirracista”. “Espero ter contribuído para ampliar a discussão sobre o racismo no futebol brasileiro”, concluiu.

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